Falange Resenha | Stranger Things 2

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Vinheta de Bastille
Bonjour! Stranger Things 2, continuação do grande sucesso da Netflix do ano passado, foi liberada na Netflix na última sexta-feira, dia 27 de outubro. Uma terceira já está confirmada, e os criadores do seriado pretendem encerrar a estória em uma quarta ou quinta temporada, o que provavelmente vão conseguir. Porque, apesar dos problemas, a série agrada, principalmente por conta de suas inumeráveis referências a uma década muito querida: os anos 80.

Personagens e evolução

A primeira temporada de Stranger Things nos apresentou à pequena cidade fictícia de Hawkins, no leste estadunidense, e alguns de seus habitantes. Lá, após o desaparecimento de Will Byers, de 12 anos, seus amigos Mike, Dustin e Lucas partem à sua procura – e acabam por encontrar Eleven, uma menina com poderes telecinéticos. A mãe de Will, Joyce, e seu irmão, Jonathan, também fazem de tudo para achar o menino, com a ajuda do chefe de polícia da cidade, Jim Hopper. Outros personagens, como Nancy – irmã de Mike – e seu namorado Steve, também fazem parte da trama, e de alguma forma vão ajudar a descobrir que o Laboratório de Hawkins foi responsável por abrir uma brecha para uma outra dimensão, chamada de Upside Down, e resgatar Will deste lugar.

Imagem da série da Netflix Stranger Things 2. A imagem mostra o monstro de Upside Down em meio a uma tempestade vermelha.
A cidade de Hawkins está novamente ameaçada pelo Demogorgon, um monstro vindo de uma dimensão paralela, que Will e seus amigos deverão derrotar.

Como analisado por Jano no ano passado, os personagens são um dos motivos do sucesso da série, pois várias faixas etárias são representadas – os pré-adolescentes com Mike, Dustin, e Lucas (e Will); os adolescentes com Jonathan, Nancy e Steve; e os adultos com Joyce e Hopper –, de forma que o público se identifica facilmente. Todos os sobrecitados permanecem na segunda temporada, com três acréscimos principais: Bob, o namorado de Joyce; e os irmãos adotivos Max e Billy.

A introdução dos dois últimos personagens é instigante, pois Max é apresentada como uma menina destemida, que causa medo e admiração da parte dos garotos. Quanto à sua relação com seu irmão mais velho, parece esconder algum segredo grave de família. Mas não se deixem iludir. Max se torna apenas mais um membro do grupo, que está ali para… para quê mesmo? E Billy, bem, sua presença serve apenas para abalar a soberania de Steve na escola.

Se o acréscimo destes personagens decepciona por prometer mais do que entrega, a evolução – ou falta dela – dos da primeira temporada talvez seja mais problemática. Em vários aspectos, Stranger Things 2 copia Stranger Things, e os protagonistas sofrem com isso. Pequenos spoilers à frente. Na primeira temporada, Will estava desaparecido, então não tivemos a oportunidade de conhecê-lo. Nesta segunda, não só as pessoas – e a série – o tratam apenas como o garoto bizarro que voltou dos mortos, como ele rapidamente fica possuído, fazendo com que sua personalidade seja apagada aos poucos, impedindo novamente a criação de um laço entre ele e os espectadores. Frente a esse novo problema que atinge seu filho, Joyce reage da mesma forma que fez quando confrontada ao desaparecimento: desesperada por uma solução, de forma que ela parece louca e irracional novamente. E, ao invés de encher a casa de luzes, desta vez são desenhos do Will que ficam em tudo que é canto. Até Eleven, que passa por diversas situações para se esconder dos agentes do Laboratório, acaba por não ser tão afetada por todos os eventos. Fim dos spoilers. Resumindo, no fim da segunda temporada, tudo permanece igual na pequena cidade de Hawkins.

Trama e subtramas

O problema da permanência dos personagens e relacionamentos é devida, quase que completamente, à trama de Stranger Things 2. O final da primeira temporada da série havia deixado três problemas em aberto: os agentes do Laboratório continuavam livres para poder praticar seus experimentos, Eleven estava possivelmente viva e teria que se esconder deles, e Will, apesar de garantir que estava tudo bem com ele, cuspiu um pequeno ser gosmento.

Cena da série da Netflix Stranger Things 2. Na imagem, Dustin segura Dart, um ser gosmento que ele decide adotar.
Quando Dustin acha um ser gosmento que ele apelida carinhosamente de Dart (diminutivo de D’Artagnan), está longe de imaginar que se trata de um filhote de Demogorgon.

Acontece que, como era de se esperar, Will cuspiu muito mais do que uma gosma inofensiva, e além dele agora ser possuído por um vírus do Upside Down, a gosma – e mais dezenas iguais – cresceu e se transformou em um cachorro Demogorgon. Ou Demodog, como Dustin gosta de chamá-los. Enquanto isso, Eleven está sendo escondida por Hopper, mas não se conforma com o fato de estar isolada do mundo e decide partir à procura de sua mãe. É então que é introduzida Kali/Eight, a irmã de laboratório de Eleven, em um cenário urbano punk. Não, ainda não entendi qual era a necessidade desta subtrama. A não ser abrir um espaço para uma pegada super-heróis, o que não combina com a série. Como será que esse time de mini-heróis se chamaria? Os Numerais?

Os relacionamentos amorosos inundam as subtramas de Stranger Things 2, com Nancy duvidando de seu amor por Steve e se sentindo atraída por Jonathan (ah, mas que surpresa), Dustin e Lucas apaixonados por Max e tentando conquistar seu coração, Eleven avistando Mike falando com Max e ficando com ciuminho (apesar do garoto não demonstrar nenhum interesse na nova adição do grupo). Enquanto isso, Joyce começa um namoro com Bob, mas a série parece querer, no fim das contas, que ela forme um casal com seu amigo de infância Hopper. E o resultado disso tudo é basicamente que Steve se torna uma das pessoas mais interessantes da série. Sim, acreditem em mim. Ele é a personagem que mais evoluiu; talvez até a única.

Referências

Não me levem a mal. Stranger Things 2 não é ruim. Por mais lentos que sejam os primeiros episódios, é fácil assistir a temporada de uma vez só. E já que os personagens e subtramas não contribuem para isso, é o ambiente anos 80 que faz com que seja legal de se ver. O ambiente e suas inúmeras referências. E vamos lá, isso também foi um dos grandes motivos do sucesso da primeira temporada.

Cena de Stranger Things 2, em que Dustin, Mike, Lucas e Will estão fantasiados de Caça-Fantasmas.
No Halloween, Dustin, Mike, Lucas e Will fazem homenagem ao filme Ghostbusters ao se fantasiar de caça-fantasmas.

A primeira referência clara se dá logo no início do primeiro episódio, cujo nome é “Mad Max”. O nome da franquia australiana corresponde, na série, ao apelido de Max no arcade que os garotos frequentam. Outros filmes ganham homenagem ao longo da temporada, como Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 1984), Tubarão (Jaws, 1975) ou O Exterminador do Futuro (Terminator, 1984), assim como os jogos eletrônicos Dragon’s Lair (1983) e Dig Dug (1982) e a empresa de games Atari. Tem até destaque para Punky: A Levada da Breca (Punky Brewster, 1984-88).

No entanto, as referências mais perceptíveis talvez sejam as musicais, já que a trilha sonora de Stranger Things 2 conta com sucessos de Scorpions, David Bowie, ou ainda The Runaways. Escolhas de qualidade, que irão fazer os mais velhos (tipo Náusea…) gritarem “Nooooossa!” e deixar os mais novos curiosos.

Em resumo, eu diria que esta temporada parece mais um interlúdio do que uma temporada em si, e serve principalmente para fechar o que a primeira deixou em aberto. Apesar de ser inferior à anterior, por não oferecer muita novidade em relação à trama, ainda vale a pena assistir a (e até maratonar) Stranger Things 2, aproveitar a imersão nos anos 80, e esperar que as próximas temporadas melhorem o que não deu certo nesta.