Falange Resenha | Soundtrack

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Mãe Serpente“Um horizonte limpo, nada no seu prato com o que se preocupar. Apenas coisas que são criativas, e não destrutivas.” A definição de Afred Hitchcock de felicidade é apenas uma das muitas referências que Soundtrack utiliza para discutir a arte, e a ciência, em um local isolado. O drama, o primeiro longa da dupla 300ml, representa um dos poucos filmes brasileiros que alcança o grande circuito comercial fora do gênero da comédia. É uma notícia ainda melhor para a indústria cinematográfica nacional que o filme seja excelente.

O que é Soundtrack?

Todo bom drama depende das personagens construídas pelos roteiristas, e pelo desempenho do elenco na interpretação dessas personagens. O drama é um gênero que, por excelência, serve como um retrato do ser humano, no seu dia-a-dia, confrontado pela adversidade da vida. Real e palpável, um bom drama deriva da interação entre pessoas que se desenrola na tela. O conceito inicial de Soundtrack, então, é extremamente propício para alcançar esse efeito. O cenário desolado, coberto de neve, ressalta as poucas pessoas que surgem na tela. E sem o apoio de cenários elaborados e efeitos visuais, os atores só podem contar com seu próprio talento.

Cris, interpretado por Selton Mello, consegue uma licença para visitar uma base científica no ártico por doze dias. Nesse tempo, Cris pretende finalizar o projeto que idealizou há mais de quatro anos: produzir fotografias para uma exposição. As fotografias são selfies, tiradas enquanto Cris ouve diferentes músicas. O objetivo é captar pela lente da câmera como a música influencia a percepção humana do mundo a seu redor. E a ida para um lugar desolado, completamente desconectado do dia-a-dia, é o investimento que Cris acha necessário para ter sucesso no ramo da arte, fonte de dinheiro e fama.

Ao chegar na estação, Cris se encontra com os quatro residentes locais. Cientistas, que permanecem nos ermos congelados do Ártico por meses, e até mesmo anos, em nome de projetos que, muitas vezes, só serão concluídos depois de sua morte. Sem o benefício da fama, e lutando com orçamentos pequenos para sustentarem suas famílias. Cris é confrontado com uma forma diferente de se relacionar com o mundo, ao mesmo tempo em que os cientistas da base tentam entender qual é, afinal, a relevância do trabalho de Cris, em comparação ao que eles próprios realizam. É desse embate, entre ciência e arte, que os conflitos se desenrolam, e Soundtrack produz uma reflexão profunda sobre a natureza do trabalho, e a importância da vida individual para a espécie humana.

Enfrentamento e conciliação

A visão de mundo de Cris é confrontada, principalmente, por Mark, com quem precisa dividir um alojamento. Mark, assim como Cris, tem completa confiança na importância de seu trabalho. Ao contrário de Cris, no entanto, Mark está disposto a sacrificar sua vida inteira, e passar meses longe de sua família, em prol da concretização desse trabalho. Ralph Ineson é um ator espetacular, e um dos grandes responsáveis pelo sucesso de A Bruxa (The Witch, 2015). Mas todo seu brilhantismo pouco teria significado se não fosse Selton Mello. Ambos os atores são magistrais na interpretação de seus papéis. Se havia qualquer dúvida quanto à capacidade de Selton Mello, mesmo depois de O Palhaço (2011) e O Cheiro do Ralo (2009), Soundtrack confirma a excelência do ator.

À esquerda, Cris (Selton Mello), à direita, Mark (Ralph Ineson), em cena do filme Soundtrack
À esquerda, Cris (Selton Mello), à direita, Mark (Ralph Ineson).

A nacionalidade de ambos os atores, um brasileiro e outro inglês, é aproveitada como elemento narrativo. Em uma base científica internacional, pessoas de diferentes nacionalidades precisam conviver. Para mostrar essa diversidade, Lukas Loughran é o alemão Rafnar, enquanto Thomas Chaanhing vive o chinês Huang. O último membro do grupo, Cao, é um segundo brasileiro no lugar, interpretado por Seu Jorge. Seu Jorge e Selton Mello já haviam participado do curta metragem O Código Tarantino, também conhecido como Tarantino’s Mind. O curta foi a primeira investida da 300ml no cinema, em 2006, já que a dupla garantiu seu trabalho na área da publicidade. O envolvimento dos dois atores no mesmo projeto mostra alguma continuidade do trabalho.

Diferentes origens, objetivos, histórias de vida. Cada personagem traz um novo ponto de reflexão sobre a condição humana, perdidos em um lugar isolado. O uso da língua, com trechos do filme em português entre o inglês, também ajuda a garantir o realismo do encontro tão diverso. É em meio ao cotidiano da base científica, e à tentativa de Cris de concretizar seu trabalho, que brigas e discussões começam a surgir. Todo o atrito, no entanto, serve apenas para que o espectador seja capaz de acompanhar a própria mudança de Cris em sua forma de ver a arte. Se a arte, como a ciência, é um trabalho realizado para a humanidade, não deve ser pautada pela sua rentabilidade, ou pelo prazer de ser reconhecido. A arte, como a ciência, precisa encontrar seu significa final no outro, e a imortalização de seu autor só é possível quando não se teme sacrifícios.

A trilha sonora

A fotografia de Soundtrack é impecável, com o uso cuidadoso de cores em contraste com o branco da neve. A direção de câmera valoriza o enquadrado focado em rostos, em pequenos objetos do cenário, ou mesmo detalhes dos corpos e vestimentos de suas personagens. Mas, em meio a uma qualidade técnica invejável, é o uso da música e da edição de som que mais se destaca. Não podia ser diferente, em um filme que se chama, em tradução literal, de “Trilha Sonora”.

São raros os momentos em que o filme deixa claro quais músicas ecoam pelos fones de Cris. Ao invés disso, as expressões faciais, a linguagem corporal e a reação de Selton Mello servem para que o espectador complete a lacuna do silêncio com uma faixa própria, escolhida de seu repertório. De forma oposta, cenas diversas, não ligadas à música, tem a trilha sonora de fundo cortada de forma brusca. Esse recurso serve para que, diante da telona, sejamos capazes de perceber o quanto aquele som, agora interrompido, ajuda na compreensão do sentimento demonstrado. No seu próprio formato, Soundtrack ajuda a validar a tese de sua personagem principal: uma trilha sonora diferente é capaz de nos fazer enxergar o mundo de outra forma.

Cris (Selton Mello), de fones, passa neve em seu próprio rosto, sozinho no meio da planície gelada, no filme Soundtrack
A reação de Cris, em frente à câmera, é o que indica qual é o tipo de música que a personagem deve ouvir. Um efeito possível apenas com a excelente atuação de Selton Mello.

Em resumo, Soundtrack é o melhor filme brasileiro que a Mãe via em muito tempo. Isso não significa, no entanto, que a experiência irá agradar qualquer espectador. A estética do drama é, usualmente, desprovida de ação, e mais lenta do que o padrão de blockbusters. Em Soundtrack, esse ritmo é ressaltado por tomadas longas, representativas de pequenas ações. São cenas necessárias para a compreensão das personagens, mas que certamente serão incômodas para quem busca entretenimento no cinema. Para ser claro, então, Soundtrack não faz parte do cinema de entretenimento. Mas é uma experiência estética sensível e inédita, que serve de exemplo para o enorme potencial cinematográfico que temos aqui, em terras tupiniquins.