Falange Resenha | Silêncio

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náusea vinhetaMinha camaradagem!

Acontece uma parada engraçada com filmes: às vezes, uma ou outra coisa acaba tendo o poder de mudar completamente a sua percepção sobre a mensagem que foi passada ali. Pode ser uma informação extra sobre os bastidores, um comentário sobre os alinhamentos do diretor que você leu em algum lugar, o seu humor ou mesmo o momento político que o mundo passava quando você resolveu assistir aquele filme.

De vez em quando vemos exemplos de filmes que acabam cercados de penduricalhos conceituais. Um exemplo mais ou menos recente é Boyhood – Da Infância à Juventude (Universal, 2014): se você curte cinema, provavelmente acompanhou o burburinho em torno desse filme, que levou doze anos para ser gravado, pois o diretor Richard Linklater queria usar os mesmos atores e documentar seu real envelhecimento.

O problema é que no fim das contas, Boyhood foi mais um filme genérico de drama familiar e, se não fosse esse detalhe sobre como ele foi feito, provavelmente teria passado despercebido. Quer dizer, fatos e curiosidades além-filme podem sim enriquecer a experiência de quem assiste, mas só se o próprio filme puder se sustentar sem eles.

E é muito bom poder dizer que SIM, é o caso de Silêncio (Paramount, 2016)

A história

Século XVII: esse foi o início da chamada Dinastia Edo no Japão (1603 até 1868), período onde o país foi unificado em torno de uma única liderança. Nesse mesmo período, o chamado mundo ocidental vivia a era das Grandes Navegações, que culminaram no Colonialismo e em toda a merda que veio depois. E as coisas nesse tempo já funcionavam mais ou menos como hoje: com intensas negociações sobre rotas e acordos comerciais, dominação de territórios e interesses comuns, além de uma guerra aqui e ali pra não perder o hábito.

Sabendo do poder de influência das religiões e temendo ter a sua recente soberania ameaçada, o governo japonês resolve banir o Cristianismo de seu território na base da porrada, incentivando caguetes, perseguindo e matando quem se recusasse a renunciar a sua fé.

Sinopse

Dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield, o Homem Aranha da Sony) e Francisco Garupe (Adam Driver, o Kylo Ren), viajam até o Japão à procura do mentor deles, Padre Ferreira (Liam Neeson, o Ras al Ghul e mais tantos outros). Os jesuítas enfrentam a violência e perseguição de um governo que deseja expurgar todas as influências externas.

Silêncio
Adam Driver e Andrew Garfield defendem muito bem seus papéis

Enredo até simples, né? Mas olha quem dirige:

Silêncio
Martin fodapracaralho Scorsese

Não importa se filmes, séries, jogos ou gibis: é sempre bom observar como trabalham os melhores. E Martin Scorsese, logo nas duas primeiras cenas do filme, mostra de maneira muito impactante e precisa tudo que você precisa saber pra entender os ondes, comos e porquês da história que você vai passar as próximas três horas assistindo. Nada de recordatórios ou textos explicativos imensos subindo num fundo preto. As informações são passadas sem atropelos e o filme não cansa em nenhum momento.

E aquele lance de conceitos que você falou?

Ah sim, beleza. Eu não falei de nada dessas paradas antes porque esse filme não precisa de nada disso pra ser bom. Silêncio vive muito bem sem nenhum penduricalho conceitual. Tá além disso tudo.

Mas se você souber por exemplo que Martin Scorsese é católico e queria ser padre quando jovem; se você souber que esse filme demorou 28 anos pra ficar pronto e é adaptado de um romance de 1966 (de Shusaku Endo) de mesmo nome, que Scorcese leu e se apaixonou ainda na década de 80; se relembrar que ele também dirigiu o absurdamente polêmico A Última Tentação de Cristo em 1988; esses fatos a mais, certamente vão dar um colorido diferente pra experiência.

Isso sem falar em todos os questionamentos sobre o papel da religião e de um Deus na vida das pessoas; as analogias que o filme faz com passagens da Bíblia; as comparações inevitáveis com nosso momento atual, principalmente com a perseguição a imigrantes muçulmanos e por aí vai.

Quer dizer,

Silêncio é o tipo de filme que marca quem assiste, de forma que dificilmente você vai parar de pensar nele logo depois de assistir. Pode ser um ótimo combustível pra papos de bar da melhor qualidade, inclusive. Assistam. Só assistam.

E querendo colar aí nos comentários pra trocar uma ideia, tamos aí. Bjundas.