Falange Resenha | Santa Clarita Diet

O trash encontra o sitcom

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Vinheta da Mãe SerpenteA temática dos zumbis é constantemente explorada na cultura pop desde que George Romero criou seu primeiro filme sobre mortos vivos, no final da década de 1960. Desde então, os comedores de cérebro passaram a povoar cinema, quadrinhos, jogos, séries, com cada vez mais títulos brigando por um espaço muitas vezes supersaturado. E no meio dessa superexploração, se torna cada vez mais difícil encontrar obras que consigam, ao mesmo tempo, respeitar a produção já existente sobre o tema e encontrar seu próprio tom de originalidade. Por isso Santa Clarita Diet é uma excelente novidade para o catálogo da Netflix. Com elementos trash e uma posição irônica quanto à sua própria verosimilhança, Santa Clarita Diet entrega uma primeira temporada ao mesmo tempo bem humorada e grotesca. Uma união pouco usual, mas que funciona.

Querido, comi o vizinho

Bairro suburbano, com moradores de classe média alta. Casal bem sucedido de agentes imobiliários, mas com um dia a dia monótono. Filha adolescente descobrindo sua própria identidade. Vizinhos incômodos. Todos elementos clássicos de diversas comédias situacionais, os sitcoms, outro gênero explorado à exaustão em séries de comédia. A ideia básica dos sitcoms é apresentar o cotidiano de um grupo de pessoas, um núcleo de amigos ou uma estrutura familiar, e brincar com as situações teoricamente engraçadas que surgem da relação entre as personagens, em situações com as quais o público pode se identificar. A grande ideia de Santa Clarita Diet é inverter a estrutura batida das comédias de 25 minutos, e introduzir uma situação o mais distante possível da vida de qualquer espectador.

Na trama, Sheila, interpretada por ninguém menos que Drew Barrymore, acorda um dia se sentindo diferente. Antes contida e presa à rotina, Sheila se vê cheia de energia, e sem a capacidade de controlar suas pulsões e desejos. A mudança afeta de forma direta Joel (Timothy Olyphant), o marido, e Abby (Liv Hewson), a filha. Principalmente quando eles descobrem que Sheila está, na verdade, morta. Sobra para o adolescente nerd da casa ao lado, Eric (Skyler Gisondo), explicar a situação: Sheila virou um zumbi, precisa se alimentar de carne humana e é cada vez mais incapaz de qualquer forma de autocontrole. E isso é só o início do episódio piloto.

Joel, como um bom marido, tenta ao máximo ajudar a esposa a suprir suas novas necessidades.

O absurdo da situação contrasta com a tentativa das personagens de lidar com a transformação de Sheila da forma mais natural possível. E é desse impacto que nasce o riso. Sheila aceita, desde o primeiro momento, sua nova personalidade, e todas as exigências assassinas que derivam dela. Joel, por sua vez, tenta manter o controle sobre a situação, e participa de forma ativa na nova dieta de sua esposa, enquanto busca uma possível cura. Abby decide que, se seus pais tem o direito de matar (e devorar) pessoas, ela também é livre para fazer o que quiser. A discussão ética das ações até mesmo é colocada em foco, mas sempre desaparece em nome de necessidades mais urgentes. E não resta outra saída se não se divertir com as cenas inusitadas, promovidas por um roteiro fluido e diálogos bem construídos.

Sangue e tripas

A comédia é parte integral de Santa Clarita Diet, mas tem outra fonte além dos sitcoms: o humor negro. E nenhuma estética brinca tão bem com o humor negro do que o cinema trash. Jorros incontroláveis de vômito, salas cobertas de sangue, pedaços de carne humana espalhadas pelo chão. A tarefa de transformar canibalismo e assassinato em algo risível não é simples, mas a série banaliza a violência pela superexposição e exagero. E o resultado alcançado é a risada. Aqueles com estômago forte o suficiente para persistir em frente à tela acabam sem outra reação que não a gargalhada. É um efeito caricato, marca registrada de série como Ash vs the Evil Dead, ou filmes do mesmo universo. Algo aproveitado mesmo por boa parte da franquia clássica Brinquedo Assassino (Child’s Play).

Santa Clarita Diet
Novatos da estética trash: preparem-se para ver Drew Barrymore devorar pedaços de carne dezenas de vezes ao longo da temporada.

É claro que a estética trash não agrada todos os gostos, e quem chega a Santa Clarita Diet pelo viés do sitcom pode ter uma surpresa desagradável. Principalmente fãs de longa data de Drew Barrymore, estrela de inúmeras comédias românticas desde a década de 90. E para além do sangue e das tripas, a série também é carregada de palavrões e piadas sexuais. Ambos os recursos têm sentido dentro do conceito, já que Santa Clarita Diet trata, também, de atender às vontades imediatas. E não há como negar que, sem regras de conduta e supressão, humanos seriam criaturas muito mais sexuais e agressivas. Ainda assim, quem é mais sensível a conteúdo adulto deve ter cuidado ao decidir assistir à produção.

A aposta de Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet tem uma direção louvável, com um domínio preciso de câmera e preocupação com a fotografia. A proposta inovadora também é bem vinda, dentro do universo desgastado dos mortos vivos. E todo o elenco é muito bem aproveitado. Ainda assim, a série é uma grande aposta da Netflix, principalmente por misturar dois gêneros com públicos, a princípio, distintos. A aposta se torna ainda maior quando se leva em conta a conclusão da primeira temporada.

A nova dieta de Sheila é o que guia a primeira temporada. Uma possível segunda terá a tarefa de evitar a repetição, e criar novas linhas narrativas.

Em outras produções originais, a Netflix se preocupou em lidar com cada temporada como um produto próprio. Ainda que pontas soltas possam dar espaço para a continuação, existe sempre a necessidade de um desfecho. Seriados são obras líquidas, capazes de se remodelarem em nome de novas temporadas, mas é essencial manter um fechamento mínimo de um arco bem traçado para uma experiência satisfatória. Principalmente se a espera por novos episódios é longa (como normalmente é). Santa Clarita Diet, no entanto, não segue a diretriz básica da temporada semi-independente. A estória é encerrada de maneira brusca, e se torna extremamente dependente de uma renovação.

Ainda é cedo para saber se Santa Clarita Diet terá realmente uma segunda temporada. A Netflix costuma esperar ao menos um mês antes de fazer qualquer anúncio oficial sobre séries novas. A boa notícia é que, apesar de não contar com uma campanha publicitária incisiva, a série tem ganhado a atenção de público e crítica. E isso deve garantir uma (essencial) continuação para a narrativa da versão zumbi de Drew Barrymore.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.