Falange Resenha | Samurai Jack – XCII

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Mãe Serpente
No dia 10 de agosto de 2001 estreava, no Cartoon Network, uma das séries de animação mais icônicas de todos os tempos: Samurai Jack. Criada por Genndy Tartakovsky, a série não precisou de muitos episódios para conquistar uma legião de fãs e o apreço da crítica. Samurai Jack utiliza uma narrativa surreal para poder misturar tecnologia e mágica. Na trama, um samurai sem nome é treinado pelos maiores mestres de todos os povos da Terra, com o objetivo de empunhar uma espada sagrada e derrotar o demônio Aku, que quer dominar o planeta. Acontece que, antes do samurai desferir o golpe final, Aku cria um portal e lança o samurai no futuro. Nessa linha temporal, sem ser derrotado, Aku virou o grande mestre da Terra, e toda sorte de criaturas bizarras e androides malignos povoam os quatro cantos do planeta.

É nesse futuro distante que o samurai é batizado de Jack por habitantes locais. E é desde o momento em que Samurai Jack percebe que está no futuro que o objetivo de sua vida se torna encontrar um jeito de voltar a seu tempo de origem, para impedir o reinado de Aku antes mesmo que ele comece. As aventuras de Samurai Jack, em seu constante combate com as forças de Aku, renderam quatro temporadas. Em 2004, no entanto, a série foi cancelada. Ao longo de mais de uma década, Genndy Tartakovsky tentou dar um fim à sua estória. Até mesmo a possibilidade de um longametragem para cinema chegou a ser cogitada. Mas foi somente em dezembro de 2015 que notícias sólidas de Samurai Jack voltaram a circular.

Jack está de volta, para uma última temporada que promete encerrar a jornada do Samurai. E ao invés de ser exibida pelo Cartoon Network, a série agora se encontra no Adult Swim. Apesar dos dois canais pertencerem à mesma empresa, a nova morada de Jack é voltada para o público adulto, com produções que levam em conta limites mais flexíveis de faixa etária. É do Adult Swim, por exemplo, o fantástico Rick and Morty (2013 -). Isso significa que Samurai Jack agora tem permissão para produzir episódios mais sombrios, e criar combates com violência explícita. A nova temporada estreou no último sábado, dia 11 de março, e já prepara o terreno para o que está por vir.

A primeira imagem divulgada já mostra Jack coberto de sangue. A escolha por utilizar apenas robôs em combates durante a série principal foi feita justamente por conta de limitações de faixa etária, que não existem mais.

Samurai Jack: XCII – A estética

Um dos principais elementos que serviram de base para o sucesso de Samurai Jack é sua arte característica. Ao invés de contornos delineados, a equipe de desenho prioriza cores chapadas, lisas, que criam limites apenas pelo contraste com diferentes tonalidades. Esse recurso é  ainda explorado pela colocação lado a lado, em diversas cenas, de figuras pretas e brancas. As sombras e silhuetas são parte da paisagem, e ajudam a complementar a beleza dos grandes quadros produzidos para desenrolar a trama. A quinta temporada inicia com a mesma estrutura estética. A única grande diferença notável e a inclusão mais incisiva de efeitos de iluminação, que incluem brilhos e reflexos.

Cada imagem de ‘Samurai Jack’ possui uma beleza característica à série.

A montagem sonora também reproduz com perfeição os efeitos da série original. Enquanto a maioria dos desenhos animados apostam em grandes diálogos e barulhos constantes, Samurai Jack se destacou pelo seu uso meticuloso do silêncio. Intercalar silêncio e barulho ajuda a criar significados diferentes para cenas com cargas emotivas diferentes. E a ausência de diálogos constantes permite explorar ruídos sonoros que constroem os cenários, e que seriam indetectáveis com excesso de vozes ou músicas muito impositivas. Essa característica do uso do som permite criar uma narrativa mais introspectiva. Uma perspectiva que será ainda mais importante no final da jornada de Jack, segundo Tartakovsky.

Samurai Jack: XCII – A narrativa

A quinta temporada de Samurai Jack se inicia 50 anos no futuro. Além de ter perdido sua espada, Jack se rendeu à tecnologia futurística, e é visto desde os primeiros minutos utilizando armas de fogo e pilotando uma moto. As feições de Jack também mudaram, já que uma volumosa barba pode ser vista em seu rosto e seus cabelos não são mais presos em um coque. A cena de abertura mostra o samurai enfrentando um exército de robôs no formato de besouros, uma homenagem à primeira estória do samurai, em que os mesmos inimigos são derrotados, logo após sua chegada ao futuro.

Jack antes era uma personagem japonesa tradicional. Agora não hesita em utilizar armas, explosivos e veículos futuristas.

A passagem do tempo não afetou a idade de Jack, já que a magia de Aku o impede de envelhecer. Isso significa que o samurai está fadado a vagar eternamente pela Terra, até que os assassinos de Aku finalmente tenham a sorte de matá-lo. Jack, nesse cenário, já perdeu as esperanças de voltar para casa, e a ideia de deixar sua família e seu povo sofrer nas mãos de Aku o atormenta constantemente.

Ao contrário da estrutura padrão das temporadas anteriores, em que quase todos os episódios eram independentes, a quinta temporada já traça uma narratividade continuada. O episódio mostra, de forma paralela, a situação atual de Jack e o treinamento das Filhas de Aku, grandes antagonistas da temporada. O episódio deixa ainda perguntas por responder, como o destino exato da espada mágica, a atual condição de Aku, e um misterioso cavaleiro que repetidamente surge como uma visão para Jack.

Referências e futuro

Uma das principais características de Samurai Jack é sua imensa capacidade de utilizar referências diversas na construções de personagens inusitadas. Tartakovsky retira inspiração de figuras mitológicas, elementos da cultura pop, estórias infantis. Qualquer coisa pode virar parte da trama de Samurai Jack, e a quinta temporada promete manter essa característica intacta. Logo no primeiro episódio o inimigo principal de Jack é um androide assassino inspirado no Flautista de Hamelin, o conto alemão do homem que consegue controlar ratos com sua flauta mágica.

Um último dado de extrema relevância. XCII, como é batizado o primeiro episódio da quinta temporada, representa o número 92 em numerais romanos. Antes do grande hiato, todos os episódios de Samurai Jack eram numerados de forma similar. O season finale da quarta temporada, LII, foi o 52° . A estratégia de reiniciar a contagem de episódios a partir do número 92 pode indicar um desejo futuro de Genndy Tartakovsky de produzir mais episódios, que preencham o hiato, após o término da estória principal. Se Tartakovsky consegue manter a alta qualidade de Samurai Jack depois de tantos anos, só nos resta esperar que essa suposição seja verdadeira.

Eu só me dou por satisfeito se a quinta temporada tiver uma participação do Escocês!
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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.