Falange Resenha | Rick e Morty – 3ª Temporada

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Vinheta da Mãe SerpenteRick e Morty (Rick and Morty, 2013 -) é uma das séries mais brilhantes da história da televisão. Ao mesmo tempo em que utiliza os aspectos mais aleatórios da ficção científica para criar humor, lida com problemas existenciais profundos. E esse último ponto é o que garante o maior impacto da série. Como a Mãe já escreveu aqui na Falange, em sua coluna sobre Tecnologia e Cultura Pop, o maior trunfo de Rick e Morty é rir da falta de sentido da vida. E isso a partir de um conflito muito humano. De um lado está a vontade de atender aos seus desejos sem limite, já que toda consequência é insignificante frente ao tamanho do universo. Do outro, a necessidade de formar laços com outros seres, e a criação de um sentido para a vida a partir dessas relações.

A terceira temporada de Rick e Morty mantém vivo esse conflito. Mas, ao invés de lidar de forma sutil com questões complexas, prefere adotar uma abordagem mais explícita do universo emocional de suas personagens. Uma mudança no estilo de narrativa que pode indicar um esgotamento dos roteiristas. Ao mesmo tempo, a capacidade de combinar elementos aleatórios em sequências visualmente impactantes está mais do que nunca presente. E esse é um fator que apela de forma significativa para a base de fãs, e garante o sucesso comercial e a continuidade da série.

Promessas não cumpridas

A segunda temporada de Rick e Morty aprofundou os conflitos existenciais desenhados na primeira temporada. O episódio final, após o casamento de Homem Pássaro, mostra Rick tomando uma atitude inesperada, e se entregando para as autoridades como uma forma de salvar sua família. É um momento de virada, a primeira vez que, de forma clara e incontestável, Rick mostra seu amor pela filha e netos. Foram quase dois anos de espera até um novo episódio foi ao ar no último 1º de abril. De maneira inesperada, já que chegou sem anúncio prévio, e substituiu diversas outras séries do Adult Swim, incluindo Samurai Jack (2001 – 2004, 2017).

O primeiro episódio da terceira temporada é um dos melhores da série, até o presente momento. Primeiro porque consegue concluir o arco da prisão de Rick em vinte minutos. Depois porque faz isso ao mesmo tempo que causa um colapso no Conselho dos Ricks e a Federação Galática, facções rivais que surgiram ao longo das primeiras temporadas, como antagonistas ao Rick protagonista da série. Por fim, o final do primeiro episódio esclarece que, ao se entregar, Rick apenas colocava em ação um plano para causar o divórcio de Beth e Jerry. É um momento devastador. É a percepção final de que Rick não consegue evitar destruir sua família em troca de sua liberdade.

A abordagem do primeiro episódio é a promessa de que o conflito interno de Rick, entre o niilismo e apego emocional, ganhará posição central. Tudo indica que esse problema não foi resolvido, como o final da segunda temporada deu a entender. Ao invés disso, esse conflito se agravou. Foram mais quatro meses de espera até o segundo episódio, que desencadeou a exibição semanal. E, no fim das contas, o propósito da temporada parece ter sido outro: o de deixar claro, para personagens e espectadores, como se constrói o universo psicológico dos protagonistas.

A sutileza das duas primeiras temporadas abria espaço para a identificação. Não só no caso de Rick, que cria justificativas para se convencer de que não precisa de uma família. Mas também de Beth, que se recusa a ver o quanto seu pai é tóxico para a família. Ou Jerry, que fecha os olhos para os problemas de seu casamento. Ao invés de referências, agora existem diálogos explícitos, em que cada personagem afirma o que sente, por que sente, e como irá agir de acordo com esse conhecimento adquirido. E por mais que uma abordagem mais explícita seja também mais inclusiva para um grande público, a série perde um pouco do brilho que alcançou em momentos passados.

Imagem da série Rick and Morty, que mostra Rick e Morty confrontando suas versões tóxicas, que são verdes e gosmentas.
É mais interessante pensar naquilo que Rick e Morty consideram tóxico de dentro de si próprios do que ter cenas e diálogos que apontam como o avô ama seu neto. As relações emocionais complexas funcionam melhor quando apenas sugeridas.

Um picles, Rick e Morty

Se a esfera psicológica de Rick e Morty perdeu, em grande parte, sua abordagem intimista, o uso da ciência e da aleatoriedade se destacam ainda mais nessa terceira temporada. A mente de Rick é única em todo o multiverso por ser capaz de… bem, de qualquer coisa. Rick carrega apetrechos inimagináveis nos bolsos de seu jaleco, e precisa sempre de toda sua engenhosidade para sobreviver ao confronto com os milhares de perigos inconcebíveis espalhados pelo tempo e espaço. O terceiro episódio dessa temporada, Pickle Rick é o manifesto definitivo dessa capacidade ilimitada de Rick.

Transformado em um picles, sem membros e com pouca capacidade de coordenação motora, Rick se aventura pelos esgotos, constrói um exoesqueleto de animais, invade uma prisão de segurança máxima de um governo ditatorial e até mesmo constrói armamento ultrassofisticado com clipes de papel e grampeadores. Nem mesmo na forma de um picles Rick pode ser detido. Não importa o perigo, existe sempre a certeza da salvação.

Imagem da série Rick e Morty (Rick and Morty) que mostra o Rick Picles (Pickle Rick).
“I’m Pickle Rick!”

E se todos os fãs de Rick e Morty já compartilham dessa certeza há anos, a terceira temporada toma para si o desafio de colocar as habilidades de Rick à prova a todo instante. Vilões galáticos destruidores de mundos. Versões malignas (ou bêbadas) de si próprio. O presidente dos Estados Unidos. O aspecto mais interessante da temporada é, sem dúvida, a imensa quantidade de cenas dedicadas diretamente à destruição, de formas cada vez mais surreais e caóticas. O absurdo de cada situação é o que constrói o humor de Rick e Morty, e nenhuma temporada foi tão absurda quanto a terceira.

Anticlímax

Mais do que em outras temporadas, Rick e Morty também se preocupou de forma mais atenta com a ideia do anticlímax. Não são raras as cenas em que Rick e Morty acabam de sair de uma aventura descrita como fantástica, para que nenhuma cena ou informação da aventura surja na tela. É uma estratégia divertida de brincar com a expectativa do fã, ao criar o desejo de ver algo que nunca será exibido. Essa sequência de desejos não realizados, ao invés de desestimular o espectador, abre as brechas para um cosmo de teorias, estórias paralelas e criações diversas, pelos próprios produtores da série ou por quem assiste.

Infelizmente, o desfecho da temporada permanece com o propósito de um anticlímax. É a primeira vez que, ao final de uma temporada, não se expõe um problema imediato que precisa ser resolvido. Na primeira, é preciso consertar os estragos feitos pela festa de Rick e Summer. Na segunda, a prisão de Rick precisa ser resolvida. A terceira temporada simplesmente termina. E, pior, sem expectativas de retorno. De forma análoga à temporada anterior, Senhor Traseirinho surge após os créditos e avisa que não há um prazo para o lançamento de uma quarta temporada.

Levar o tempo necessário para entregar um produto de melhor qualidade é, sem dúvidas, melhor do que apressar a produção por conta de prazos apertados. Mas, considerando que provavelmente esperaremos dois anos até ter novidades da série, o season finale poderia ter sido mais empolgante.

Imagem de Rick e Morty (Rick and Morty) que mostra Mr. Poopybutthole, conhecido como Traseirinho, ao lado de sua esposa e filho em uma mesa de jantar.
Entre a segunda e a terceira temporada, Sr. Traseirinho conseguiu uma família. A promessa para a quarta temporada é uma longa barba branca.