Falange Resenha | Raw (Grave)

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Mãe SerpenteCanibalismo. Só pela temática já dá para perceber que Grave não é para todo mundo. O filme, produzido em parceria pela França e Bélgica, ficou mais conhecido ao redor do mundo pelo seu nome em inglês, Raw. No Brasil, não há nome oficial, já que o filme não chegou aos cinemas brasileiros, e não tem previsão de nem mesmo ser lançado diretamente em DVD e Blu-Ray. Coisas da vida, e de nossa péssima distribuição, que ignora quase tudo que não venha dos Estados Unidos. O motivo da Mãe trazer Raw para a Falange Resenha agora, mesmo sem um lançamento nacional, é a estreia recente de Okja (que a Mãe resenhou ontem), pela Netflix. Ambos os filmes tratam, de alguma forma, do consumo de carne. Raw, no entanto, fala do assunto pela estética do horror.

É grave

Raw segue a vida de Justine, no momento de seu ingresso na faculdade. Criada por pais veterinários e vegetarianos, Justine decide seguir a tradição de sua família. Na sua primeira noite no dormitório da Faculdade de Veterinária, Justine descobre que terá que passar pelo trote, e fazer parte das diversas atividades preparadas por seus veteranos. Todas essas atividades visam a humilhação dos novatos, assim como a promoção de festas regadas à bebida e nudez. O costume do trote é restrito às universidades privadas na França, usualmente ligadas a cursos considerados de elite. Tem coisas que não são muito diferentes no Brasil, apesar de um oceano de distância.

Inicialmente incomodada com a situação, Justine logo encontra sua irmã Alexia, uma de suas veteranas. A irmã serve como um apoio no momento difícil de adaptação. Mas sua presença também potencializa o desconforto da jovem. Alexia não quer que seus colegas veteranos pensem que ela dá vantagens a alguém de sua família. E Justine, por sua vez, não quer se recusar a fazer nada que a irmã já tenha feito. É por isso que, logo no primeiro dia de aulas, Alexia obriga Justine a engolir um rim de coelho, num ritual bizarro de iniciação. A ação, desprezível para uma vegetariana, desencadeia consequências maiores do que a ânsia de vômito.

Um rim de coelho é colocado à força na boca de Justine por sua irmã Alexia, no filme 'Raw'.
É a violência do trote, simbólica e real, que desencadeia a transformação de Justine.

Depois de uma noite, o corpo de Justine é coberto de feridas, causadas por algum tipo de reação alérgica. Não demora muito para que surja um desejo incontrolável de comer carne. Primeiro carne preparada, depois carne crua, e, por fim, carne humana. O nome original do filme, Grave, tem um correlativo idêntico em português. O adjetivo se refere à situação de Justine, e sua necessidade compulsiva de consumir carne humana. A doença é grave, e só piora quando é ignorada. Quanto mais luta para negar seus desejos, mais Justine perde o controle sobre si própria, e se torna um perigo para as pessoas a seu redor.

Cru

O nome escolhido para o filme em inglês, Raw, não é uma tradução direta. ‘Raw’ significa ‘Cru’, uma escolha apropriada para representar o filme. Apesar do baixo orçamento, a diretora e roteirista Julia Ducournau sabe utilizar bem poucos recursos para efeitos viscerais. A Faculdade de Veterinário de Liège possibilita cenas claras e diretas de animais na mesa de cirurgia, órgãos em vidros, fetos mergulhados em formol. A reação alérgica que se espalha pelo corpo de Justine, o sangue que é jogado sobre os calouros, as bandejas de animais mortos servidos no refeitório. Cada tomada de Raw tem a intenção de mostrar a carne no seu estado mais cru. Não é à toa que logo que foi exibido pela primeira vez, em 2016, Raw começou a acumular relatos de pessoas que deixavam a sala do cinema para vomitar, ou mesmo desmaiavam durante a sessão.

Justine e Adrien, em seus jalecos brancos, estão de pé e cobertos de sangue no filme 'Raw'.
Adrien, à direita, e Justine, à esquerda, com os jalecos cobertos do sangue derramado pelos veteranos nos calouros.

Às cenas focadas na carne, também correspondem cenas ligadas ao sexo. O desejo incontrolável de Justine não se limita ao consumo de carne. Conforme os dias passam, a vontade da jovem de transar com seu colega de quarto gay, Adrien, também aumenta. O contorno dos corpos, e o contato entre bocas, são plano de fundo para as festas universitárias. A crueza da câmera faz questão de manter o foco nos encontros libidinosos dos jovens da faculdade, assim como enfoca na ingestão de sangue e tripas. É a partir dessas duas esferas, simultâneas e sobrepostas, que Raw constrói seus sentidos. E é por isso que o filme é merecidamente aclamado pela crítica.

Analogias de Raw

O potencial narrativo de Raw vai além da câmera precisa de Julia Ducournau, ou da força de um filme de horror focado em personagens femininas, que não são apenas iscas visuais. Raw é um filme sobre o desejo e o autocontrole. O consume de carne, em todo seu aspecto inegavelmente grotesco, fica à mostra quando constantemente comparado com o canibalismo recém descoberto de Justine. Mais ainda, a naturalização desse canibalismo, ao longo do filme, e a pré-disposição de se ferir o outro em troca do prazer da carne, é uma metáfora brutal e efetiva para o consumo de carne animal, tão associado a nosso cotidiano.

Raw é ainda mais efetivo porque não acusa o consumo de carne como imoral. Ao invés disso, apenas deixa visível a selvageria que envolve esse consumo. Na absorção do sangue e das tripas do outro, humano ou animal, repousa o instinto mais básico da violência humana. Reproduzimos o consumo da carne, por instinto e por costume, e cessar esse consumo não é meramente uma questão de escolha, mas a tentativa diária de controlar impulsos.

Justine está agachada na frente da geladeira mordendo um pedaço de frango cru, no filme 'Raw'.
A partir de cenas simples e diretas, a fome de Justine ganha um aspecto grotesco e visceral.

Ao mesmo tempo, Raw fala da pulsão sexual, tão presente em todos os seres vivos. O período de ingresso na universidade também coincide, muitas vezes, com a primeira experiência do jovem de liberdade sem a vigilância familiar. Isso significa, normalmente, a liberação da libido. Até mesmo se cria a expectativa de que isso aconteça, e se forma uma pressão social para que os impulsos sexuais sejam atendidos ao máximo nesse momento de libertação. É um momento conturbado, em que se espera poder fazer tudo aquilo que se reprimiu durante anos, e não é incomum que essa libertação também se associe com práticas destrutivas ligadas ao abuso de drogas, lícitas e ilícitas.

Raw, pelos corpos e pela carne, trata justamente da dificuldade de se lidar com o desejo liberto, depois de muito tempo de repressão. Ao mesmo tempo serve de crítica social à humilhação imposta nas faculdades por rituais de hierarquia. Raw é também um filme sobre a liberdade sexual feminina. Sobre a brutalidade do consumo de carne. Sobre o uso desmedido do álcool. O filme é rico em leituras. Ao mesmo tempo, utiliza de forma magistral e efetiva a estética do gore. É uma experiência tão interessante que sua ausência no circuito brasileiro é mais do que uma pena. É uma vergonha.

  • Laura Penha

    Sobre “Reproduzimos o consumo da carne, por instinto e por costume, e cessar
    esse consumo não é meramente uma questão de escolha, mas a tentativa
    diária de controlar impulsos.”, é preciso lembrar que ser vegetariano é bem mais que o que o senso comum apregoa. O filme dá a entender que isso é resultado de instintos reprimidos e nãaaaao, não é, poxa. Vegetarianos não sentem vontade de comer carne justamenta por que entendem as questões envolvidas no processo de produção da carne, do maltrato animal, de questões fisiológicas e afins. Cheiro de carne dá asco. Vegetarianos não comem carne porque mandam. O filme confirma o esteriótipo de que veganos/vegetarianos se reprimem, que desejam a carne em segredo, ou ainda que são pálidos e franzinos e, mais uma vez: não. Além disso banaliza o sofrimento animal no contexto da universidade de VETERINÁRIA e ninguém estranha ou questiona isso???! AAAAAAAAA, SCR ;-;

    • Mãe Serpente

      Oi, Laura! Bom ter você no debate.
      A Mãe, como vegetariana, discorda de alguns pontos. Sim, existe uma grande parcela de vegetarianos que sentem, como você bem mencionou, asco da carne. Mas isso não é a verdade definitiva da dieta. O consumo de carne não é um problema em si para muitos vegetarianos, se torna um problema justamente por toda a problemática da produção em massa e todos os malefícios que isso causa (se puder, e quiser, dê uma olhada na resenha da Falange do filme ‘Okja’).
      Sobre o “pálidos e franzinos”, não acho que seja essa a mensagem do filme. Mesmo porque os pais da protagonista tem aparência extremamente saudável, e a fragilidade física da protagonista é derivada do processo de mudança, e não da falta do consumo de carne em si. Vale lembrar que a metáfora da repressão no filme tem também uma forte conotação sexual, e disso deriva também suas escolhas estéticas.
      Por fim, a banalização do sofrimento animal na universidade veterinária serve de exemplo para a hipocrisia do tratamento humano dado aos animais. A violência das cenas é justamente para ressaltar essa brutalidade, essa distinção forçada entre o eu e o outro. Assim como o canibalismo do filme serve para aproximar o consumo da carne humana e o consumo da carne animal, ambas ações destrutivas e violentas, mas que são normalmente naturalizadas.