Falange Resenha | Predadores do Amor (Hounds of Love)

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Vinheta da Mãe SerpenteBaseado em fatos reais. É uma frase recorrente em filmes de horror, e que costuma chamar a atenção de um público que vibra com o aumento da sensação de medo. No entanto, o aviso costuma ser seguido de estórias sobrenaturais que minimizam seu impacto. Sem recorrer a um aviso prévio, Predadores do Amor, ou Hounds of Love, no original, é um filme de 2016 que trata de uma série de estupros e mortes realizados por um casal instável. Para piorar o cenário, as vítimas quase sempre são adolescentes. Uma estória baseada nos assassinatos de Moorhouse, um dos eventos mais grotescos da história australiana. A sutiliza com que o filme constrói suas cenas mais violentas é responsável por criar uma sensação duradoura de repulsa, principalmente por sabermos que as cenas não se afastam muito da realidade. E, pior, que crimes parecidos continuam a acontecer ao redor de todo o mundo. A figura do assassino em série faz parte de nosso imaginário, e o filme escolhido para tratar dessa figura no nosso Mês das Bruxas é desconhecido, mas nem por isso menos digno de atenção.

Em fatos reais

David e Catherine Birnie planejaram por mais de um ano os sequestros de jovens mulheres na cidade de Perth, na Austrália. E em 1986 sequestraram, estupraram e mataram quatro mulheres ao longo de cinco semanas. Uma quinta jovem, Kate Moir, com 17 anos na época, conseguiu fugir e alertar a polícia antes de se tornar outra vítima fatal. O casal foi condenado à prisão perpétua, e David Birnie morreu em cárcere. Já Catherine continua presa, sem chances reais de alcançar a liberdade antes de sua morte.

Inspirado por esse famoso caso, o diretor Ben Young lançou no ano passado seu primeiro longa metragem. E apesar da pouca experiência atrás das câmeras, Young já demonstra um talento raro de coordenar um estúdio para obter um resultado invejável. Nomes e eventos se diferenciam no filme e no caso que o inspirou, e o foco de Young não é reproduzir as cenas de mortes e estupros em detalhes. Uma decisão acertada, considerado a sensibilidade desse tema, principalmente quando existe a discussão sobre o quanto cenas do tipo podem incentivar outras pessoas desequilibradas a praticarem os mesmos atos.

O fato de nenhum estupro, ou morte, acontecer de forma explícita na tela não torna o filme menos perturbador. Pelo contrário, a sugestão de cada momento de violência abre espaço para que o próprio espectador preencha as lacunas, uma experiência desconcertante. Young consegue transformar uma simples porta fechada em uma imagem trágica, e o close em objetos comuns espalhados pela casa se torna tão assustador quando o close em papeis cheios de sangue, ou brinquedos sexuais espalhados pelo chão.

Imagem do filme australiano Hounds of Love, ou Predadores do Amor. A imagem mostra uma jovem, ferida e acorrentada em uma cama, gritando enquanto um homem se aproxima.
Mesmo que nenhuma cena de estupro surja na tela, a certeza de sua existência é suficiente para deixar qualquer pessoa tensa ao longo do filme.

Predadores do amor

A eficiência do roteiro e da direção de Predadores do Amor deriva de sua capacidade de fazer o espectador pensar sua própria vida cotidiana. Embora um crime grotesco esteja acontecendo em cada minuto da trama, não faltam tomadas em câmera lenta de crianças brincando nos irrigadores, e momentos longos em que a vida cotidiana do casal é mostrada. Evelyn White possui um ritual próprio de fazer o café da manhã. John White organiza as bitucas de cigarro no cinzeiro. Ambos vivem a vida de um casal suburbano, com direito à relação abusiva do homem para a mulher. O sequestro, estupro e assassinato das jovens é apenas mais um acontecimento ao longo dos dias, marcados também pela constância do dia-a-dia.

A construção de uma vida mundana para o casal potencializa a violência, física ou psicológica, sofrida por Vicki Maloney, a mais recente vítima dos White. O casal naturaliza a barbaridade de suas ações da mesma forma que naturaliza as ações corriqueiras. Estuprar uma jovem é algo tão banal quanto preparar torradas, ou levar o cachorro para passear. É assustador pensar que, em todo o mundo, possam existir indivíduos capazes de trivializar o sofrimento alheio. E é ainda mais assustador perceber que, à parte de suas práticas mais obscuras, a vida dessas pessoas é similar à de todas as outras.

Imagem do filme australiano Hounds of Love, ou Predadores do Amor. A imagem mostra um casal sentado no chão; a mulher parece nervosa, enquanto o homem tenta acalmá-la.
Um relacionamento abusivo também não deve ser considerado normal, mas não é difícil imaginar que muitos espectadores encontrem semelhanças em sua vida e na representação do casal de assassinos. O que é extremamente assustador.

A complexidade de uma relação abusiva, somada à relação entre assassinos e vítima, só poderia funcionar se Young escalasse um elenco à altura do desafio. Então, se Hounds of Love funciona, e se a sensação de desespero que o espectador compartilha com as vítimas dos White é tão duradoura, boa parte do crédito vai para os atores principais do filme. John e Evelyn são respectivamente interpretados por Stephen Curry e Emma Booth; Vicki é vivida por Ashleigh Cummings. E se os três nomes são desconhecidos para o público brasileiro, isso se deve à nossa tendência de consumir cinema estrangeiro apenas dos Estados Unidos. Porque o trio é dono de indicações e prêmios australianos, extremamente merecidos, se a atuação em Predadores do Amor é referência.

O fato de ser um filme australiano torna Predadores do Amor difícil de ser encontrado por meios legais (e nisso o nome original, Hounds of Love, pode te ajudar). Apesar disso, o esforço de encontrar o filme certamente recompensa os interessados. Bem como o esforço de assistir a Hounds of Love, considerando que a falta de violência explícita não diminui em nada o impacto que o filme é capaz de provocar.