Falange Resenha | Planeta dos Macacos: A Guerra

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Mãe SerpenteA nova trilogia de Planeta dos Macacos tem um excelente motivo para seu enorme sucesso: ela não foi planejada como uma trilogia. Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) foi produzido como um filme fechado, inteiro por si, e somente depois de seu sucesso uma continuação foi garantida. De forma similar, Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014) se preocupou mais em entregar um produto completo do que em criar referências para o futuro. O capítulo final da inesperada franquia, Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), segue o mesmo princípio de seus antecessores. E o resultado final é um filme de franquia, que possui preocupações e objetivos próprios. Muito diferente do que habitualmente se encontra em continuações.

Planeta dos Humanos

O Planeta dos Macacos (La planète des singes) foi escrito por Pierre Boulle como uma crítica à decadência da sociedade humana, e publicado pela primeira vez em 1963. Não demorou muito para que uma versão cinematográfica surgisse, com a participação do próprio autor. O primeiro filme de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) se manteve fiel ao objetivo de crítica do livro, acrescentando ainda uma preocupação com os efeitos de uma guerra nuclear, perigo tão presente na Guerra Fria. O filme original teve continuações em excesso, ao ponto de perder seu senso crítico e virar apenas um espetáculo do confronto entre humanos e macacos. Já a tentativa de reviver a franquia em 2001 nem mesmo se preocupou com qualquer tipo de crítica, sendo incapaz até de se tornar um entretenimento com um mínimo de qualidade.

A ideia de uma prequela em 2011 foi recebida com receio por críticos e fãs. E foi uma feliz surpresa encontrar um filme que, apesar de inspirado pelo material clássico, manteve-se original. Principalmente ao incluir a discussão contemporânea da exploração animal, e dos limites da bioengenharia. A sequência, em 2014, mudou o foco da crítica para o medo ao desconhecido, a incapacidade de perdoar e os conflitos que resultam dessas características tão humanas. Agora, em A Guerra, a decadência da civilização humana alcança seu auge, com uma narrativa que mostra, a todo momento, o quanto os macacos, agora inteligentes, estão mais do que destinados a substituir uma espécie em processo de autodestruição. Isso sem deixar de ser uma franquia voltada ao grande público, com efeitos especiais de ponta e cenas de ação extremamente bem coordenadas.

Planeta dos Macacos: A Guerra se preocupa menos com o conflito direto entre humanos e macacos, e muito mais com a jornada final da raça humana como espécie dominante, e dos primeiros líderes dos macacos. Não é apenas a conclusão da grande narrativa de César, mas também de Luca, Maurice, Rocket e mesmo Koba, que apesar de morto continua a assombrar seus antigos companheiros. Uma sombra que lembra, a todo tempo, o quanto os macacos podem perecer caso se deixem guiar por sua raiva individual, ao invés de lutarem juntos. Do lado oposto do conflito, a figura do Coronel é o exemplo de como o autoritarismo e o culto a ídolos são provas da decadência humana. Uma discussão mais do que atual.

Cena do filme Planeta dos Macacos A Guerra, ou War for the Planet of the Apes, que mostra um close do Coronel, interpretado por Woody Harrelson
Com inspiração clara no Coronel Kurt, de ‘Apocalypse Now’, Woody Harrelson personifica com maestria a figura do líder extremista, ao mesmo tempo insano e perfeitamente racional.

É interessante que o desfecho da trilogia gire em torno da compreensão da força dos macacos por meio de sua união, para além da liderança de César. Ao mesmo tempo que a derrota dos humanos está em seguir figuras autoritárias que regem por meio de máximas morais discutíveis. Líderes que colocam sobre si próprios a missão sagrada de defender a humanidade, acima mesmo das próprias instituições sociais. Um fenômeno político que cresceu nos últimos anos ao redor de todo o mundo, e que alimenta, dessa vez, o potencial de crítica da franquia.

Planeta dos Macacos

Assim como os seus antecessores, em Planeta dos Macacos: A Guerra a excelência técnica é mais do que responsável por um filme bonito de ver. Todo o dinheiro investido na captura de movimentos e na modelagem digital das personagens ajuda a criar macacos que, apenas por suas expressões, já são capazes de passar ao público toda sua complexidade emocional. Apesar de girar em torno da guerra, existem menos cenas de ação neste filme do que no anterior, e por boa parte do tempo Matt Reeves escolhe planos fechados em feições, acompanhados pelo silêncio dos macacos.

Essas cenas servem para atestar a qualidade do elenco, que mesmo por trás da manipulação digital consegue dar vida a personagens completamente produzidas dentro de computadores. O grande destaque, por motivos óbvios, é César, criação pela qual Andy Serkis tem grande parte da autoria. Desde sua atuação como o Gollum na trilogia de Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings, 2011, 2002 e 2003), Serkis chamou a atenção da indústria cinematográfica para o potencial da captura de movimentos. Como ator, Serkis sabe a importância de manipular com precisão sua expressões faciais, que serão, depois, revestidas pelo modelo de César. Seu domínio de pequenos trejeitos, como a forma de franzir a testa, ou mesma a direção do olhar, demonstra não só um conhecimento profundo da personagem que interpreta, mas seu enorme conhecimento da natureza humana.

Cena do filme Planeta dos Macacos A Guerra, ou War for the Planet of the Apes, que mostra o Coronel, interpretado por Woody Harrelson, ao lado de um macaco que ajuda os humanos.
A trama se torna mais complexa também pela inserção de macacos que se opõem a seus iguais. Humilhados e rebaixados, os ‘Donkey’, ou ‘Burros’ são inferiores aos humanos, mas ganham um certo nível de proteção, e a possibilidade de explorar seus iguais. Um detalhe interessante, já que toda a História humana prova que é preciso que opressores encontrem aliados entre os oprimidos para fazer valer sua força.

É nessa mistura de atuação e recursos digitais que a trilogia Planeta dos Macacos conseguiu criar a verossimilhança de suas personagens. Mais do que isso, os macacos que conhecemos ao longo dos filmes possuem força própria, e uma complexidade maior que muitos dos humanos com os quais contracenam. A certeza da vitória dos macacos, existente desde o primeiro filme, nunca foi um demérito para a franquia, já que a narrativa se preocupou sempre em convencer o espectador da luta interna dos símios pelo controle de seu próprio destino. Nesse ponto, A Guerra acaba por falhar mais que seus antecessores.

Ação e destino

Como um capítulo final, A Guerra se preocupa em dar um desfecho não só para os problemas que cria por conta própria, mas para todos os detalhes deixados no ar no filmes anteriores. A pretensão do filme, de dar uma conclusão para todas suas questões, faz com que a sorte e o acaso se tornem essenciais para o sucesso símio. O recurso do deus ex machina é usado em excesso. Seja ao encontrar um guia no melhor momento, ou descobrir caminhos por acidente, ou ter ações de personagens inexplicavelmente indetectadas pelo inimigo, cada escolha do roteiro de usar a sorte como responsável pelas ações enfraquece o argumento central do filme: que os macacos, por meio de sua união, são capazes de realizar por si grandes feitos.

Cena do filme Planeta dos Macacos A Guerra, ou War for the Planet of the Apes, que mostra um batalhão de soldados humanos
A abertura de ‘Planeta dos Macacos: A Guerra’ tem a função de mostrar que ambos os lados do conflito possuem igual capacidade de destruição. Os humanos, assim, representam uma ameaça real. Infelizmente, ao longo da trama, a maior parte dos conflitos é resolvida pela sorte, e não pela força dos símios.

A trilogia Planeta dos Macacos está repleta de símios fortes, que mais de uma vez se mostraram capazes de engenhosidade e coragem na conquista das adversidades. Fazer com que, no capítulo final, a sorte seja a maior responsável pela derrota do humanos é um problema que ultrapassa até mesmo A Guerra, e diminui o assombro causado por toda a jornada de César e seus companheiros.

Isso não é um demérito tão grande ao ponto de remover a qualidade óbvia de todos os outros aspectos de Planeta dos Macacos: A Guerra. Mas, ainda assim, surge como uma decepção. Especialmente porque, depois do fim da trilogia, não se espera uma oportunidade de redenção da franquia. Para o bem ou para o mal, Planeta dos Macacos chega a seu fim. Resta saber, agora, de que forma o estúdio tentará prolongar os ganhos obtidos com os filmes até então.