Falange Resenha | Perception

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Vinheta da Mãe SerpenteDe todas as dezenas de jogos de horror que saem todos os anos, Perception talvez tenha o melhor conceito. Ter como protagonista uma mulher cega, em meio a uma casa assombrada, é reconhecer de forma direta uma das principais fontes do medo: o desconhecido. Além disso, apesar desse ser o primeiro jogo da Deep End Games, o estúdio é formado por profissionais que participaram de grandes projetos, como a série BioshockDead SpaceRock Band. Impressiona muito, então, que o resultado final seja tão mediano. E isso em um julgamento simpático à produção.

Sem visão

A jogabilidade básica de Perception utiliza da ecolocalização para orientar os jogadores pelas salas e corredores de Echo Bluff, a mansão mal assombrada. Além de objetos capazes de produzir barulho por si, Cassie, a protagonista, pode bater no chão com sua bengala, criando ondas sonoras. Ao rebater em paredes e objetos, o som cria imagens que o jogador deve utilizar para se localizar. Cassie também é dotada de um sexto sentido, que faz com que itens especais brilhem na escuridão. O sexto sentido também indica a direção exata do próximo objetivo do jogo, iluminando pontos de interesse através de inúmeras paredes.

Perception
Cada batida da bengala ajuda a compreender melhor o cenário.

É extremamente importante termos uma protagonista cega, e incluir na cultura pop deficientes físicos. Mas uma mulher com os poderes do Demolidor não é exatamente uma representação fiel dos deficientes visuais. E não há nada de mal nisso, desde que o jogo não declare a intenção de traduzir a experiência da cegueira para os que enxergam, algo que a campanha de marketing de Perception fez.

Sem decidir direito entre o realismo da deficiência visual e o sobrenatural, Perception acaba por tornar injustificáveis algumas de suas principais ferramentas. O celular de Cassie possui aplicativos específicos, que transformam texto em voz, ou pedem ajuda da comunidade online para descrever fotos. Por mais interessante que essa abordagem seja, ela é mal utilizada por não depender do controle do jogador. Apenas surge em momentos específicos da estória. Além disso, Cassie é capaz de reviver as memórias de antigos moradores de Echo Bluff ao tocar objetos. Uma carta encontrada pode ativar uma memória, ou pode precisar do uso do aplicativo de celular. A diferença nunca é explicada, e parece existir apenas para que mais um recurso seja utilizado. Isso contribui para a aparência de projeto experimental do que deveria ser um jogo completo.

Clichês do terror

É difícil também justificar a narrativa descuidada de Perception. Contrariando todo o bom senso, Cassie, deficiente visual, decide pegar um avião e visitar a sozinha a casa que vê em seus pesadelos. Assim, em um impulso no mínimo suicida. A protagonista também não parece se incomodar com portas que abrem e fecham sozinhas. Ou mesmo com a aparição de fantasmas. Seguindo todos os piores clichês do horror, Cassie se coloca em uma situação perigosa, para reclamar de forma constante dessa mesma situação.

Perception
Super normal ter visões e se trancar sozinha em uma casa assombrada. Super normal falar com fantasmas. Nada mais normal do que não correr quando portas batem sozinhas.

Um detalhe interessante de Perception é a escolha dada ao jogador, de ter uma protagonista tagarela ou silenciosa ao longo do jogo. Silenciosa, Cassie fala o mínimo necessário, apenas em cenas de progressão direta da trama. A versão tagarela deveria não só dar dicas ao jogador, mas ajudar a compreender a protagonista. O problema é que os diálogos se esforçam para, ao mesmo tempo, construir uma imagem de força e independência para Cassie, e reforçar a completa burrice da personagem diante da situação.

No mais, a narrativa segue o padrão do gênero, com reviravoltas que ficam óbvias nos primeiros quinze minutos de jogo. Se fosse o caso de possuir uma jogabilidade consistente, seria possível perdoar o péssimo trabalho narrativo. Infelizmente, não é esse o caso de Perception.

Perception e o medo

A pior coisa que um jogo de terror pode fazer é criar um atmosfera que não dá medo. Em Perception, a jogabilidade é também baseada na exploração. Enquanto vasculha Echo Bluff, Cassie encontra memórias que remontam à estória de um de seus antigos moradores. Cada capítulo, então, gira em torno de uma época específica.

A mansão modifica sua estrutura para refletir a época e os conflitos de cada morador. Essas mudanças começam de forma sutil, mas logo alteram toda a estrutura da casa. Uma excelente solução para reaproveitar o mesmo cenário sem a sensação de repetição. As personagens apresentadas também têm estórias próprias interessantes, com vidas desgraçadas pela presença maligna de Echo Bluff. O problema é que quanto mais se explora a mansão, mais se percebe que não existe um perigo real.

Perception
Como tudo no jogo é formado por ondas sonoras, existe também pouca variação de texturas, o que contribui para a sensação de que pouca coisa acontece ao longo do curto período de jogo.

O antagonista de Perception, uma criatura batizada de A Presença, é sensível ao som, e persegue Cassie pela casa. Pelo menos essa era a promessa dos desenvolvedores. Na prática, é necessário um esforço monumental para invocar A Presença. O monstro só surge caso o jogador utilize sua bengala repetidas vezes em um curto espaço de tempo. Uma ação desnecessária ao longo do jogo. A não ser que se pretenda invocar A Presença de forma proposital, o jogador só irá encontrá-la quatro vezes.

Esse, talvez, seja o maior dos problemas de Perception. Sua narrativa não é suficientemente boa para justificar um jogo de exploração e mistério. E suas mecânicas e antagonistas não são construídas de forma ameaçadora o suficiente para justificar um jogo de terror. Perception fica em algum ponto no meio do caminho, e falha em ambos os objetivos.

Um susto para a carteira

Quer saber qual a parte mais assustadora de Perception? O preço. O jogo custa R$ 39,99 na Steam e R$ 64,90 na GoG. Esse é o valor cobrado pelo suposto pedigree dos desenvolvedores. Porque em troca se recebe apenas uma experiência medíocre que dura no máximo três horas, e isso com a intenção do jogador em atrair a Presença propositalmente. Não existe nenhum motivo para repetir a experiência, o que torna ainda mais desmedido o preço final do jogo. Válido mais como experimentação de alguns recursos do que como jogo em si, Perception falha em quase todas as promessas que faz.

Gameplay da Mãe | Perception

A Mãe preparou um vídeo com os primeiros vinte e cinco minutos de Perception. É um vídeo curto, mas que já mostra todas as mecânicas do jogo, seu cenário, a dificuldade de encontrar um inimigo mesmo de forma proposital. Os primeiros vinte e cinco minutos do jogo foram até suficientes para a Mãe descobrir a maior virada de roteiro do jogo. Muito promissor, Perception realmente não vai além da decepção.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.