Falange Resenha | Os Meninos que Enganavam Nazistas

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Vinheta Bastille
Bonjour! Na próxima quinta-feira, dia 3 de agosto, sai nos cinemas brasileiros Os Meninos que Enganavam Nazistas. O filme é adaptado da obra literária Un Sac de Billes, de Joseph Joffo, uma autobiografia que conta a fuga de uma família parisiense rumo à zona livre francesa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Zona Livre vs Zona Ocupada

Durante a Segunda Guerra Mundial, a França foi dividida em várias zonas. Regiões do território francês foram anexadas (à Alemanha ou à Itália), enquanto a maior parte do país estava dividida em duas partes: em 1940, um acordo define que o norte e o oeste formam a zona ocupada pela Alemanha; o sudeste é a zona livre. A zona livre se torna um sonho para todos que se encontram na zona ocupada. Por outro lado, viver na zona livre não significa estar completamente livre, pois a maior parte dos recursos básicos (trigo, carvão, açúcar, téxteis…) são produzidos na zona ocupada, fazendo com que a zona livre dependa muito da ocupada – ou seja, da Alemanha. Ainda assim, a diferença de qualidade de vida entre as duas zonas é gritante. Pelo menos até o fim de 1942, quando a zona livre também é invadida.

Os Joffo são uma família judia de cabeleireiros parisienses. No início de 1942, quando a situação se torna perigosa demais para os judeus na zona ocupada, eles decidem fugir para Nice, cidade da zona livre onde moram alguns familiares. Mas como se mover e passar a linha de demarcação discretamente, sendo uma família de seis? Para limitar as chances de serem pegos, os pais decidem mandar os dois filhos mais velhos primeiro. Eles são seguidos pelos dois mais novos, Joseph e Maurice. Por fim, os pais seguem pelo mesmo caminho. O filme, por ser adaptado da autobiografia de Joseph, conta o rumo à liberdade dele com o irmão Maurice.

Em Os Meninos que Enganavam Nazistas, é fácil perceber as diferenças entre as duas zonas. Na zona ocupada, o medo do alemães em uniforme é visível no rosto das pessoas. Principalmente quando se é judeu. A fotografia do filme é bem mais cinzenta quando retrata esta zona. Ao contrário, na zona livre, o sol brilha e as pessoas aproveitam-no nas praias do Mar Mediterráneo, em plena Guerra Mundial, como se aquilo não os atingisse.

Cena de 'Os Meninos que Enganavam Nazistas', em que Joseph e Maurice chegam à cidade de Nice.
A chegada à cidade de Nice oferece uma paisagem nova: ao invés do medo, é possível ver sorriso e tranquilidade nos rostos dos habitantes e visitantes, que aproveitam os primeiros dias de sol do ano.

Solidariedade e desconfiança

Ao longo de sua fuga, Joseph descobre duas verdades. É necessário as pessoas se ajudarem para sobreviverem. Mas também é necessário desconfiar de todo o mundo em meio à guerra. A sobrevivência de Joseph vai depender tanto de ajuda externa quanto da capacidade dele em não confiar em estranhos com sua identidade. Mas aos 10 anos de idade, quando sempre se teve uma vida tranquila e confortável, avaliar cada situação pode ser complicado. E quando se cresceu ouvindo que tem que ter orgulho de ser judeu, aprender a mentir sobre sua identidade não é fácil; resistir à tortura também não. Mas, como diz o pai de Joseph, é melhor levar um tapa que machuca do que perder a vida porque se tem medo de levar um tapa.

Felizmente, para enfrentar a longa jornada e as suspeitas, Joseph pode contar com seu irmão não tão mais velho, Maurice. Os dois são inseparáveis e cada um é capaz de encarar muitos perigos para salvar o outro. A força do amor entre os irmãos é o primeiro motivo de seu sucesso em sobreviver, sem dúvida alguma. E a atuação de Dorian Le Clech e Batyste Fleurial contribui muito para a construção desta relação fraternal. Outros personagens são essenciais na sobrevivência dos irmãos; muitas vezes tratam-se de pessoas desconhecidas que, percebendo o perigo que os garotos corriam, decidiram ajudá-los, às vezes em troca da própria liberdade. São pessoas que marcaram a vida de Joseph, apesar de não as conhecer. E que levantaram esse questionamento: Por que eu? Por que eu tive essa sorte, se todo dia tantos judeus são pegos? Joseph tem noção de que a guerra é injusta, e que basta pouco para caminhar rumo à morte – ou conseguir sobreviver.

Cena de 'Os Meninos que Enganavam Nazistas', em que Joseph e Maurice andam pelas montanhas para ter menos chances de serem pegos.
Longe do resto de sua família, Joseph e Maurice sempre tem um ao outro para ultrapassar as dificuldades.

Esperança em meio à guerra

As dificuldades encontradas por Joseph e Maurice às vezes parecem impossível de transpor. A morte está sempre por perto, e atinge muitas pessoas à sua volta. As separações entre os membros da família Joffo são de partir o coração. O medo de ser pego, deportado e morto quase não deixa os garotos. E apesar disso tudo, Os Meninos que Enganavam Nazistas é cheio de esperança. Ter consciência de que o sucesso em sobreviver não depende apenas de si, mas também – e muito – de sorte, não impede os garotos de manter a esperança de que vão conseguir sair vivos da guerra. Acreditar nisso se torna necessário em vários aspectos: para resistir melhor à brutalidade dos nazistas, mas também para conseguir, além de sobreviver, viver um pouco.

Os Meninos que Enganavam Nazistas é repleto de cenas bem-humoradas em que Joseph e Maurice conseguem se divertir apesar da preocupação. Claro que gostariam de saber quando a guerra vai acabar. Quando vão poder finalmente reencontrar seus pais e irmãos. Ou até mesmo saber se estes ainda estão vivos. Na incapacidade de ter algum tipo de influência sobre isso, eles muitas vezes escolhem pensar que vai tudo dar certo, e usam um pouco da infância que sobrou para aproveitar a vida como qualquer criança merece. Pelo menos enquanto podem, já que nunca se está em segurança por muito tempo, principalmente depois da zona livre ser invadida. E também porque, depois de sobreviver à guerra e perder pessoas queridas, Joseph nunca mais será a criança que era antes.

Cena de 'Os Meninos que Enganavam Nazistas', em que a família se reencontra, em Nice.
Antes das preocupações voltarem e da fuga continuar, a família completa se reencontra em Nice, para alguns momentos de risos e alegria.

Existem dezenas de filmes sobre as Guerras Mundiais – e guerras de uma forma geral. Cada um com seu foco, cada um com sua própria visão. Os Meninos que Enganavam Nazistas vale a pena por ser biográfico, e também por ser balanceado, no sentido de mostrar os horrores da guerra, mas mostrar que a esperança é a última que morre. Além da estória e da mensagem tocante, o filme ainda conta com atuações maravilhosas e uma linda fotografia, que brinca com paletas de cores para retratar ambientes e emoções diferentes. Uma adaptação muito bonita, que me deu vontade de reler o livro do qual se inspira.