Falange Resenha | Os Defensores

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Mãe SerpenteO momento decisivo das séries Marvel/Netflix chegou. Em 2013, quando as novas séries foram anunciadas, a ideia era que Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro tivessem programas próprios, e, no fim dos quatro projetos, uma minissérie de Os Defensores (The Defenders) daria uma conclusão épica para o projeto. Ao longo dos anos, no entanto, cada uma das séries ganhou vida própria, com novas temporadas confirmadas e em processo de produção. Ou mesmo exibidas, e com direito a spin-off, como é o caso de Demolidor (2015 -) e O Justiceiro (The Punisher, provavelmente em novembro desse ano). Os Defensores, então, demonstra a dificuldade da equipe de televisão da Marvel em lidar com um universo em crescimento, com várias falhas de roteiro, direção e montagem. Mas não desanimem, o resultado final ainda é muito melhor que Punho de Ferro (Iron Fist, 2017).

Coesão (e falta dela)

Para início e conversa, Os Defensores tem algo que anima qualquer fã de quadrinhos, e do universo de super-heróis: um crossover. O sucesso de filmes como Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015) ou Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman vs Superman: Dawn of Justice, 2016) se explica muito pela presença de mais de um herói. Se é excitante ver um ser com superpoderes derrotando exércitos de inimigos, é ainda mais excitante quando vários superpoderosos se unem. Ou pelo menos é isso que se espera, porque os dois exemplos citados são medíocres, na melhor das análises. Mesmo que o sucesso comercial desse tipo de evento seja quase garantido, a qualidade dos crossovers nem sempre é digna do dinheiro que movimenta.

Os Defensores se esforça, ao máximo, para balancear a presença de todas suas personagens, e tornar as habilidades de cada um únicas e essenciais para a sobrevivência do grupo. Longe da ação, a série é extremamente bem sucedida. Os confrontos diretos entre os vigilantes, e a tentativa de cada um de seguir sua própria motivação desencadeia afastamento e aproximações de modo natural. Até mesmo Finn Jones consegue fazer um Punho de Ferro semi-cativante, uma diferença brutal de sua série solo, que mostra o quanto o roteiro e a direção prejudicaram o ator. Os diálogos são bem escritos, e a relação de algumas das personagens é uma referência direta para os leitores de quadrinhos. Luke Cage e Danny Rand, por exemplo, já conseguem criar uma dinâmica que, se a Marvel e Netflix forem competentes, será reaproveitada em momentos futuros. Quem sabe com os Heróis de Aluguel.

Cena de Os Defensores, ou The Defenders, série da Marvel e Netflix. Na cena, Luke Cage está sentado em uma cadeira na frente de Danny Rand, o Punho de Ferro, que está sentado no chão.
Por mais que a interação entre todos os protagonistas tenha sido bem produzida, a relação em entre Luke Cage e Danny Rand foi, de longe, a mais interessante. O Punho de Ferro funciona infinitamente melhor junto do Poderoso.

O problema é que Os Defensores é uma série focada em combates diretos, e nesse ponto a coesão do grupo começa a sofrer. Alguns dos combates do seriado são extremamente bem coreografados, e é possível perceber o quanto a interação entre os poderes de cada integrante acontece de forma fluida. Conforme a série se desenrola, no entanto, as cenas e ação se tornam mais confusas, cheias de cortes dispensáveis, sem uma direção compreensível. Isso é ainda mais claro nos episódios finais, quando os últimos embates entre Os Defensores e O Tentáculo estão fadados a acontecer. Essa diferença de qualidade entre cenas de ação certamente sofre influência da mudança de diretores, já que a equipe de produção das quatro séries solo se mistura e reveza ao longo dos episódios. Mas também deriva de uma falha óbvia de roteiro, que prejudica, principalmente, Jessica Jones, e, em menor medida, Luke Cage.

Combates desiguais

O inimigo principal da temporada, como já anunciado pela segunda temporada de Demolidor e por Punho de Ferro, é O Tentáculo. Uma organização de ninjas, capazes de ressuscitarem e, assim, melhorar suas capacidades de combate ao longo dos séculos. Danny Rand treinou toda sua vida para se tornar um artista marcial, assim como Matt Murdock. Já seus dois colegas dependem unicamente da força bruta. Isso resulta em uma completa falta de coerência.

Jessica, para justificar sua presença, precisa enfrentar os líderes do Tentáculo mano a mano, e, independente de sua super-força, não deveria ser capaz de superar o conhecimento milenar das artes marciais dos inimigos. Luke Cage, por sua vez, tem sua capacidade de receber golpes modificada ao longo da série, para justificar cenas de ação diferentes. Ora sua pele indestrutível é capaz de aguentar os golpes de líderes do Tentáculo, ora o Poderoso é lançado com facilidade por ataques vindos de capangas. A força bruta de Jessica e a resistência de Luke são mal aproveitados, porque o único inimigo enfrentado durante toda a temporada depende de artes marciais, habilidades que são contrapostas diretamente apenas por Demolidor e Punho de Ferro.

Cena de Os Defensores, ou The Defenders, série da Marvel e Netflix. Na cena, estão em posição de combate: Luke Cage, Stick, Danny Rand, Jessica Jones e Matt Murdock
O combate é parte de qualquer estória de super-heróis. Mas não basta colocar dois grupos em confronto, é preciso pensar com cuidado em como o combate irá considerar poderes e falhas de cada lado.

Essa escolha é extremamente prejudicial, mesmo porque O Tentáculo, como uma organização tão poderosa, poderia utilizar de outras ferramentas para atacar o time de vigilantes. Não faltam vilões específicos de cada herói, que poderiam ser utilizados como peões, por exemplo. E o foco no aspecto combativo do Tentáculo ainda prejudica, e muito, na construção da organização.

O problema dos inimigos

Nos quadrinhos, O Tentáculo é uma organização de ninjas sob o serviço de um demônio. Essa origem foi modificada nas séries, como uma forma de integrar melhor o Punho de Ferro ao cenário urbano do Demolidor. Agora, o tentáculo possui uma ligação direta com K’un-Lun, a cidade sagrada que Danny Rand jurou proteger. Essa mudança é extremamente interessante, do ponto de vista do roteiro, porque torna mais fácil a coesão de todo o universo, mesmo para o espectador que não acompanha quadrinhos. Infelizmente, Os Defensores esclarece, por completo, os conceitos deixados como pontas soltas em seriados anteriores. A natureza do Black Sky, a guerra eterna contra K’un-Lun, a perseguição ao Punho de Ferro, o processo de ressurreição. Tudo fica às claras, em um grande desfecho para o mistério da organização.

As respostas dadas servem a seu propósito narrativo, e funcionam dentro do contexto da série. Mas, para quem acompanha todos os seriados, são um pouco decepcionantes. Um ponto extremamente positivo da temporada é introduzir diversidade no Tentáculo. Ao invés de uma organização necessariamente oriental, a introdução de Sowande (Babs Olusanmokun) e Alexandra (Sigourney Weaver) torna a ameça da organização realmente global. Os líderes do Tentáculo derivam de vários pontos do globo, e isso dá a perspectiva do quanto a organização é realmente poderosa. Essas adições, no entanto, são mal aproveitadas, já que servem apenas para ocupar o papel de antagonistas diretos do grupo, sem desdobramentos maiores para o futuro do universo. Isso é uma pena principalmente quando se considera a performance maravilhosa de Weaver.

Cena de Os Defensores, ou The Defenders, série da Marvel e Netflix. Na cena, Alexandra, interpretada por Sigourney Weaver, está parada de forma ameaçadora, enquanto capangas armados avançam sob seu comando.
A presença de Sigourney Weaver, no papel e Alexandra, é ameaçadora mesmo nos momentos mais calmos da série.

Da mesma forma que vilões, personagens secundárias também são mal aproveitadas. Como o combate ganhou uma importância, o encontro entre Karen Page (Deborah Ann Woll) e Trish Walker (Rachel Taylor) passa quase despercebido, quando as duas poderiam formar seu próprio núcleo, baseado no trabalho jornalístico. Colleen Wing (Jessica Henwick) ganha um protagonismo especial, mas também apenas como ferramenta de combate, para compensar a inépcia em artes marciais de dois dos Defensores principais. Já Claire (Rosario Dawson) continua jogada no meio de toda ação possível, por mais que pareça deslocada nesse contexto. Mesmo Misty Knight (Simone Missick) tem apenas cenas em que serve para facilitar, sem nenhum motivo óbvio, a ação ilegal dos heróis. É um conjunto de atrizes de peso, todas com versões críveis de suas personagens. Mas que, infelizmente, são prejudicadas por um roteiro que se esforça para dar conta dos problemas criados em outras séries.

Os Defensores e erros passados

O maior dos méritos de Defensores está, justamente, em resolver conflitos criados nos últimos anos. A relação entre Matt e Elektra (Élodie Yung) prejudicou de forma imensa a segunda temporada de Demolidor, ao mesmo tempo que permitiu que o Justiceiro de Jon Bernthal ganhasse ainda mais destaque. Essa relação está de volta em Os Defensores. Da mesma forma, o conflito de Danny Rand entre sua natureza de guerreiro sagrado e criança mimada também terá papel importante na trama. São núcleos narrativos que ganharam espaço suficiente em produções anteriores, de forma que não podem ser ignorados, mas que são retomados com a intenção clara de pôr um fim a tudo o que ficou em aberto, e permitir que o universo das séries continue seu caminho. Agora com maior liberdade e, se a Netflix aprender com seus erros, maior planejamento para a ligação entre cada série solo.

Cena de Os Defensores, ou The Defenders, série da Marvel e Netflix. Na cena, Matt Murdock está no chão enquanto Danny Rand e Elektra atacam um ao outro.
A relação de amor e ódio de Elektra e Matt retorna com toda força. Pela última vez, se tivermos sorte.

Apesar de inúmeros problemas, a primeira temporada de Os Defensores não é ruim. É divertida, agrada os fãs do universo, e conta com a presença já marcante de Charlie Cox, Krysten Ritter e Mike Colter. A qualidade do elenco e o cuidado com aspectos técnicos, como fotografia e edição de som, ajudam em uma percepção global positiva da série. Mas, entre erros de projetos passado e escolhas duvidosas, Os Defensores não chega perto de cumprir sua promessa: um encontro épico, capaz de superar as séries anteriores. As primeiras temporadas de Demolidor e Jessica Jones continuam sendo o que a Netflix produziu de melhor no universo Marvel. Coincidentemente ou não, foram as duas primeiras produções da parceira.

Isso nos faz pensar que a necessidade de criar um universo deu um peso maior do que a equipe de produção imaginava no início do processo. Isso fez com que, nas séries mais recentes, as ligações entre as personagens tivesse que se tornar mais óbvia, e se tornou mais difícil para o roteiro dar conta desse objetivo ao mesmo tempo em que se preocupa com a qualidade de estórias que superam a classificação de “super-herói”. Mesmo porque Jessica Jones (2015), mais do que uma série de super-heróis, foi uma série sobre abuso. E a primeira temporada de Demolidor tratou da redenção. Mesmo o núcleo do Justiceiro na segunda temporada de Demolidor manteve a alta qualidade da proposta, ao discutir o limite do vigilantismo. E se não fosse os episódios finais de Luke Cage (2016), a série poderia ser a melhor da Marvel/Netflix, por seu cuidado em tratar a questão racial.

Os Defensores é a experiência mais próxima da Marvel/Netflix dos quadrinhos, sem um grande desenvolvimento de nenhuma de suas personagens, e com o foco principal em derrotar um grande inimigo. A proposta não possui nenhum demérito em si, mas foi prejudicada pelas perguntas deixadas em aberto desde 2015, e pela escolha de um vilão que não se adéqua a todos os integrantes do grupo. Felizmente, Os Defensores consegue fechar, mesmo que com furos de roteiro, todas essas questões, e o futuro das séries Marvel/Netflix promete ser mais promissor.