Falange Resenha | Orange Is the New Black – 5ª temporada

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Vinheta BastilleBonjour! A quinta temporada de Orange Is the New Black chegou inteirinha na Netflix no dia 9 de junho. O seriado é um dos originais mais famosos do serviço de streaming, e acompanha Piper Chapman em uma prisão feminina estadunidense.

Orange Is the New Black: a estória até agora

Muita coisa se passou desde a chegada de Piper em Litchfield. A primeira temporada da série mostrou a adaptação de Piper na prisão, seu reencontro com Alex Vause – sua antiga namorada – e serviu para contextualizar Litchfield e apresentar as principais personagens da série. As temporadas seguintes, além de dar mais profundidade às personagens iniciais e apresentar novas detentas, também mostraram a deterioração das condições de vida dentro da prisão de uma forma geral. Assim, por motivos financeiros, os produtos à venda na prisão tiveram seus preços aumentados, a comida fresca – antigamente preparada por prisioneiras – foi substituída por enlatados, e o número de detentas dobrou, com a chegada de mulheres vindas de outras prisões.

A soma de todos esses problemas começou a gerar uma ira da parte das prisioneiras, e a tensão chegou ao máximo depois que um guarda, Bayley, matou acidentalmente uma detenta, Poussey, durante um protesto pacífico, no final da quarta temporada. Com medo do possível escândalo após a morte de Poussey, a empresa responsável pela administração da prisão –MCC – e o supervisor – Caputo – querem silenciar o evento, o que gera um sentimento de injustiça em Taystee, que encoraja uma rebelião. A situação explode quando todas as detentas convergem para um mesmo lugar e, assustado, o guarda Humphrey pega uma arma que estava escondida em sua meia. Em meio à confusão, a arma acaba entre as mãos de Daya, que é pressionada pelas outra detentas a atirar no guarda.

Um ritmo quebrado

O início da quinta temporada pega a trama exatamente nesse momento. E todos os treze episódios se passam durante os 4 dias em que as detentas têm o controle da prisão, fazendo dos guardas seus reféns. Mas enquanto a quarta temporada aumentou aos poucos, e de forma equilibrada, a dose de drama, a quinta começa com uma overdose de humor. O uso do humor em Orange Is the New Black sempre foi bem-vindo para aliviar o peso de certas situações. Porém, no início dessa nova temporada, seu uso excessivo acaba por prejudicar a digestão de eventos chocantes, principalmente a morte de Poussey. Apesar disso, a partir do quarto episódio, o humor e o drama voltam a se equilibrar.

Outro problema que afeta o ritmo é o fato da temporada toda se passar durante apenas 4 dias. O que cria a necessidade de subplots que não contribuem necessariamente para o desenvolvimento da trama, e assim dão uma sensação de alongamento forçado. Pior, vários desses subplots são desinteressantes, pois além de não acrescentarem nada para a trama, também não são uma oportunidade de conhecer outra faceta das personagens. Os flashbacks também não são bem utilizados. Eles poderiam ter servido para sabermos mais sobre os guardas mantidos reféns – sobre os quais não aprendemos nada de novo, e que são usados apenas como alívio cômico. Também poderia ter servido para conhecermos melhor personagens recém-chegadas em Litchfield e que ganharam importância na rebelião, como o trio de nazistas formado por Sankey, Helen e Brandy e as latinas Ramona e Ouija. Ao invés disso, tivemos um flashback sobre o peixe que Piper tatuou na nuca como um lembrete de que há beleza no mundo.

Estabilidade na rebelião

Em uma série que conta com dezenas (centenas?) de personagens, é impossível dar muita atenção a cada uma delas. Porém, é de lamentar que, depois de tantas temporadas, quem tem uma importância central são sempre as mesmas, isto é, Piper e Alex – e principalmente a relação “je t’aime moi non plus” delas (segundo o  Náusea, a tradução para isso é “cheia de doce”). E não somente elas não crescem muito ao longo dos episódios, como esse também é o caso da grande maioria dos personagens. O momento de rebelião, que abre possibilidades de mudança e evolução, apenas ressalta o que já sabemos sobre todos.

Piper Alex

As relações e divisões entre as detentas também não evoluem muito. Desde o início de Orange Is the New Black, a questão racial está bem presente. Os dormitórios separam as detentas dependendo de suas etnias. E isso vai, obviamente, além dos dormitórios. Negras, hispánicas e brancas costumam ficar com suas semblantes. Essa separação conhece algumas excessões ao longo da série, como o namoro entre Poussey (negra) e Soso (asiática), mas no geral a diferenciação segundo a etnia e os conflitos raciais são muito presentes, principalmente com a presença de um grupo nazista na prisão. O final da quarta temporada prometia a união de todas as prisioneiras contra o sistema. Uma pena que, no fim das contas, a separação continua quase que sempre presente na quinta temporada, havendo muito poucos momentos de verdadeira união, independente de cor de pele e interesses pessoais.

Um espelho da realidade

Apesar de todos os problemas sobrecitados, Orange Is the New Black deve ser louvado por mostrar algo que nenhuma outra série mostra: a vida de mulheres em presídios. Tudo é mostrado de forma crua, sem artifícios. E as escolhas estéticas ajudam a dar um tom realista, com olheiras que denunciam a baixa qualidade do sono, e cabelos oleosos que mostram a dificuldade em manter um nível regular de higiene, por exemplo. As restrições de liberdade são a base do princípio da prisão, e as quatro primeiras temporadas as evidenciaram. Pouco sono, pouca higiene, mas também alimentação pouco saudável e trabalho duro pouco remunerado são partes do cotidiano das presidiárias. Junta-se a isso o abuso de autoridade da parte de alguns guardas – violência física, moral e sexual –, e fica evidente que as presidiárias não são consideradas como seres humanos. Isso piora com a privatização de Litchfield. Elas se tornam apenas números, para uma empresa cuja única preocupação é limitar gastos.

Em meio às negociações, as detentas, lideradas por Taystee, queimam os salgadinhos oferecidos pelo governo, como forma de mostrar que pretendem obter medidas reais para melhorar as condições dentro da prisão.

Na quinta temporada, quem incarna essa denúncia é Taystee. Enquanto a maioria das presidiárias tem interesse em humilhar os guardas como uma forma de vingança, a ex-assistente de Caputo tem outros planos, que consistem em diálogo e argumentação para obter justiça para a morte de Poussey. Além de condições dignas dentro da prisão. Ela, então, serve de representante da prisão aos olhos de Figueroa, ela mesma representante da empresa MCC. Caputo fica no meio desse debate, consciente tanto dos maus tratos das prisioneiras quanto das restrições orçamentais da MCC. Taystee está muito bem informada e sabe oferecer uma solução barata para todos os problemas de Litchfield. Esses diálogos são uma das melhores coisas da temporada, sem dúvida, pois provam que, além das questões financeiras, há também um desinteresse de MCC em ver nem que seja um pingo de humanidade em criminosos.

Vale a pena assistir à quinta temporada de Orange Is the New Black?

Claro. Se você assistiu a todas as temporadas até agora, com certeza essa vale a pena ser vista, pois é o resultado da sucessão de acontecimentos das temporadas passadas. Os primeiros episódios podiam não ter uma piada a cada cena, os guardas podiam ter backstories, as personagens podiam ter nos surpreendido mais. Mesmo assim, a quinta temporada continua no caminho desenhado desde o início da série, que consiste em mostrar uma realidade com pouca visibilidade na cultura popular, através de personalidades diferentes e de uma forma muito humana. Ela termina com a certeza de que as coisas nunca mais serão iguais em Litchfield, o que nos deixa ansiosos para a sexta temporada chegar e nos esclarecer sobre o futuro das presidiárias.