Falange Resenha | Okja (Netflix)

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Mãe SerpenteEm poucos anos, a Netflix se tornou uma das maiores produtoras de conteúdo televisivo do mundo. É certo que nem tudo o que é produzido pela empresa é bom. Entretanto é necessário elogiar a diversidade do catálogo da Netflix, e sua tentativa de dar apoio financeiro para experimentação no cinema e na televisão. Liberado na última quarta-feira, dia 28 de junho, o filme original da Netflix Okja mereceria ser visto apenas pela temática: o consumo de carne. Mas ainda bem que a seriedade da questão, cada vez mais polêmica, ainda rendeu um filme maravilhoso em si.

Okja, a super-porca

Desde seu conceito inicial, Okja já atrai pela diferença. Na trama, uma empresa chamada Mirando, representante dos grandes conglomerados de alimentos, anuncia ter encontrado um super-porco no Chile. A nova espécie seria a esperança de acabar com a fome no mundo. 26 filhotes de super-porcos são colocados aos cuidados de 26 fazendeiros ao redor do mundo. Durante dez anos, os filhotes serão criados nas fazendas, e, no fim desse período, o melhor super-porco será premiado e apresentado ao público.

Depois dessa breve apresentação, o filme nos leva ao meio de uma floresta densa na Coreia, para nos apresentar a um desses super-leitões já crescido, Okja, e à neta do fazendeiro a quem a porquinha foi confiada, Mija. Okja e Mija fazem tudo juntas, e o fato de viverem em um local isolado, em que há mais convivência com a natureza do que com seres humanos, as aproximou mais ainda. Mas Okja não é apenas um animal de estimação. Dotada de consciência e inteligência, a porca participa ativamente na vida da fazenda, e se preocupa com a segurança de Mija, a ponto de se colocar em perigo para protegê-la.

Okja ao lado de Mia.
O carinho entre Mija e Okja ajuda o espectador a se afeiçoar ainda mais pelo animal.

Ao fim dos dez anos, Okja é previsivelmente eleita a melhor representante de sua espécie, e começa sua jornada para Nova Iorque. O enredo do filme de desenrola a partir desse momento, quando Mija decide resgatar a amiga do abate, e começa uma jornada em meio à indústria da carne. A alegoria política pretendida por Bong Joon-ho utiliza essa jornada para se fazer presente. É pelos olhos da menina que o espectador, como uma criança, descobre aos poucos a realidade por trás da produção massiva de carne. E a mudança da visão também resulta em uma mudança estética no filme.

Da Disney a Auschwitz

Bong Joon-ho é extremamente criativo ao guiar o olhar do espectador ao longo da trama. No primeiro ato, em que somos apresentados a Okja e Mija, o diretor abusa de elementos associados a animações. As músicas de fundo, os barulhos simultâneos aos pulos e rolagens de Okja, o mundo colorido e cheio de personagens teatrais. A estética do primeiro ato tem dois objetos principais: cativar o espectador, que cria aos poucos um vínculo emocional com a porca; aumentar ainda mais o hiperrrealismo de Okja, por contraste. Quando todas as personagens, com exceção de Mija, tem expressões, trejeitos e figurino exagerados, o cuidado com a animação digital dos animais se torna ainda mais perceptível.

Esse contraste é necessário para que o foco se mantenha, a todo instante, sobre Okja e Mija. São elas que importam na trama, e todas as outras pessoas que passam pela tela têm um papel secundário. A ligação que se tem com Okja é o que leva o espectador a sofrer junto do animal, conforme a porca sai de sua vida pacífica nos bosques e passa a ser vista como um pedaço de carne pelos seus novos donos. A agonia de ver Okja acasalar à força com um porco muito maior que ela é resultado dessas estratégias utilizadas por Bong Joon-ho. O diretor quer obrigar seu público a testemunhar o horror da ação, com a consciência de que o mesmo ato é repetido milhares de vezes todos os dias, com animais ao redor de todo o mundo. E se, como sociedade, abominamos tanto a violência sexual, por que é tão natural expor animais, dotados de certo nível de consciência, a essa situação?

Mija leva Okja por uma corda, enquanto uma indústria se apoio sob as costas do animal. Cartaz de divulgação do filme.
O cartaz de divulgação do filme é simples, e vai direto ao ponto: a indústria da carne não vê animais como seres vivos, dotados de consciência; animais são apenas objetos a se manipular para maximizar lucros.

A extração de amostras de carne para aprovar a qualidade do produto enquanto o animal ainda está vivo. O abuso físico. O confinamento em locais apertados feitos de cimento e ferro. Cada novo tormento sofrido por Okja dói ao mesmo tempo no espectador. E dói ainda mais saber que Okja, no filme, é um animal bem tratado pela indústria da carne, pois precisa manter uma imagem saudável para sua apresentação ao público. Vistos como objetivos a serem vendidos, outros porcos passam por violências ainda maiores. Aos poucos o filme perde cores, e ganha mais tons escuros. As criações de porcos, em jaulas ou cercados, trazem de forma direta a imagem de campos de concentração. Amontoados de porcos são brutalizados, rumo à morte consciente na mão de seus captores, impossibilitados de reagir de qualquer forma.

Em prol da venda massificada de carne, somos cúmplices do tratamento desumano dado a milhões de animais. É uma verdade indigesta, mas que não muda ao ser ignorada. Essa é a denúncia que Bong Joon-ho quer fazer em Okja. O que não significa que o diretor condene o consumo de carne em si.

Consumo e consciência

Mija não é vegetariana. Ela pesca para comer e seu prato favorito é preparado com as galinhas da criação de seu avô. Mas ela respeita a natureza e os animais. A morte faz parte da cadeia alimentar, e é encarada como uma necessidade para a sobrevivência de Mija e seu avô, durante o primeiro ato. O radicalismo em relação à alimentação é mesmo satirizado por Bong Joon-ho, por meio da Animal Liberation Front (Frente de Libertação de Animais, um grupo de defesa de animais que realmente existe). Um dos membros do grupo de ativistas, Silver, se recusa a comer qualquer coisa, pois toda produção massificada de alimentos é prejudicial ao meio ambiente.

Os representantes da Frente de Libertação Animal do filme 'Okja' são mostrados lado a lado. Os quatro utilizam máscaras ninjas e bandanas sobre o rosto, de forma caricata.
A forma caricata de representar a Frente de Libertação Animal também será reaproveitada para construir os membros da Mirando. Os dois grupos, em conflito constante ao redor de Okja, são propositalmente teatrais, de modo a aumentar o realismo pretendido para a porca, sua narrativa e os horrores sofridos pelo animal.

A graça da situação serve como base argumentativa para todo o filme de Bong Joon-ho. Não é o consumo em si o centro da questão. É o modo desse consumo, e o modo de produção influenciado por esse consumo. A distância entre o homem e a produção de seus alimentos é o que permite ignorar, de forma cômoda, que a carne é fruto de uma atividade brutal. E que alimentos produzidos em larga escala são responsáveis pelo crescente desmatamento e pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. É mais fácil não prestar atenção na cadeia produtiva, e só se preocupar com a aquisição do produto final, na prateleira de um mercado qualquer. Mas a brutalidade, ou melhor, o realismo de Okja foi construído para obrigar o público a encarar essa verdade.