Falange Resenha | O Rastro

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Mãe SerpenteO cinema brasileiro é marcado pela comédia de qualidade duvidosa. Não que o Brasil seja incapaz de produzir outro gênero, nem que tudo o que seja produzido por aqui seja pior. O problema é que o quase monopólio da distribuição cinematográfica nacional faz com que a mesma fórmula chega ao grande circuito, enquanto excelentes obras nascem e morrem dentro de festivais isolados do grande público. Qualquer tentativa, então, de quebrar esse triste padrão já merece toda a atenção da Mãe. Principalmente se o filme em questão é um filme de terror. O Rastro saiu essa semana nos cinemas, e poderia ser uma ótima oportunidade de chamar a atenção para o potencial de outros gêneros. Poderia, se o filme tivesse a segurança para reforçar aquilo que tem de bom, ao invés de se esconder em clichês técnicos e narrativos.

Suor e cachaça

O maior problema de fazer um filme de horror no Brasil é a falta de referência. Claro que temos cineastas geniais, como Zé do Caixão, mas são raras as obras do gênero, e limitadas em sua circulação. Talvez por isso O Rastro decida tomar como inspiração a versão hollywoodiana do terror japonês. Nenhuma surpresa, já que o material de divulgação do filme já se baseia na aparição de uma menina de cabelos compridos e rosto desfigurado. Vemos uma proximidade especial com O Chamado (The Ring, 2002), tanto na reprodução do efeito da água que cai em direção ao teto quanto na proposta de utilizar a investigação de um evento estranho para aprofundar a trama sobrenatural. Utilizar de forma tão clara referências estrangeiras pode causar o problema da falta de originalidade. Ou pior, da incompatibilidade de determinados elementos com a realidade brasileira. Felizmente, a produção de O Rastro se preocupou o suficiente para dar originalidade ao filme.

A trama de O Rastro se passa no Rio de Janeiro. Em meio à crise da saúde pública, hospitais fecham, sob ordens do governador. Os hospitais precarizados, e os conflitos entre médicos e agentes públicos servem como base para a relação entre as personagens, o que permite uma localização imediata do público com seu cotidiano. E se estamos no Rio de Janeiro, é quase certo que esteja quente. Logo nas primeiras cenas, o enfoque da câmera mostra rostos cobertos de suor. Ao invés do temor limpo e seco que vemos na produção hollywoodiana, a preocupação em representar o calor do Rio pelo suor é um detalhe interessante, pois contribui ainda mais com a ambientação da estória. Assim como a cachaça, bebida em pequenos copos de vidro grosso, no meio da comemoração de um aniversário.

O Rastro
Goteiras de ar-condicionado, televisões de tubo, automedicação. São pequenos detalhes, mas que indicam o esforço da produção em dar verossimilhança à ambientação.

Sem se limitar à cópia, O Rastro tenta digerir os elementos de suas referências gringas e reapropriá-los para uma estória que trabalha com problemas reconhecíveis pelo público brasileiro. A precarização dos serviços públicos. A tentativa de manter informações delicadas ao Estado em sigilo. O jeitinho e a corrupção. A abordagem é extremamente promissora, e deve ser levada em consideração pelo futuro do cinema nacional, mesmo que o resultado final fique abaixo do esperado.

O som contra a câmera

Apesar de ser seu primeiro longa metragem de J. C. Feyer, o diretor já demonstra domínio de câmera. As tomadas de O Rastro são criativas e autorais, com o uso constante da falta de foco em planos de fundo, o zoom em detalhes e feições, e o uso de espelhos e reflexos para compor as cenas. A fotografia e direção de arte ajudam a transformar o cenário do hospital precarizado em um ambiente hostil, perfeitamente capaz de construir por si a sensação de suspense. Não fosse o péssimo uso do som.

Inseguro de sua própria qualidade visual, O Rastro usa constantemente a agressão sonora para causar sobressaltos forçados, que mais irritam do que dão medo. O som de ações simples é alto, desproporcional, e tenta de forma desesperada causar uma reação no espectador. Apesar de todo o potencial que o filme possui em construir uma atmosfera verdadeira de horror, a decisão final foi por utilizar recursos artificiais em prol de sustos passageiros e ineficazes. Em cenas específicas, o barulho é tamanho que chega a abafar a voz dos atores.

Uma pena, já que os diálogos de O Rastro conseguem não se resumir às frases de efeito habituais, e pelo menos a atuação de seus principais atores é muito boa. Rafael Cardoso (João), Leandra Leal (Leila) e Jonas Bloch (Heitor) dão vida às cenas mais interessantes do filme, e fazem o possível para criar com suas atuações a tensão que o uso do som não permite existir. Já outros atores, como Claudia Abreu (Olívia) e Felipe Camargo (Ricardo), têm participações expressivas. Domingos Montagner fica reduzido a uma cena final vergonhosa de tão desnecessária, que serve de fechamento para o roteiro, perdido em seu final entre duas propostas.

O Rastro
Eu poderia dizer que é difícil comentar sem dar spoilers. Mas é difícil comentar porque as cenas finais são ruins mesmo.

O rastro de indecisão

O roteiro de O Rastro incluí diversos elementos específicos da realidade brasileira em sua composição. Isso inclui utilizar o sistema político e financeiro como inimigos, e a descoberta da corrupção como fonte do perigo. Infelizmente, a obrigação de lidar ao mesmo tempo com o sobrenatural faz com que o filme termine por não satisfazer nenhum de seus objetivos. A presença da aparição faz com que o foco na investigação, e nos problemas do sistema, fiquem em segundo plano, quando poderiam ocupar o lugar de destaque. Ao mesmo tempo, como não é o sobrenatural que conduz a trama, sua presença se torna não apenas inexplicável, mas completamente dispensável no fim das contas.

A tentativa de misturar o suspense policial e o terror é interessante, até certo ponto, mas o roteiro não consegue decidir qual dos dois formatos será considerado o principal, e qual servirá de apoio. Quando os créditos sobem, a sensação final, então, é de insatisfação. Nenhum dos dois núcleos da trama tem uma conclusão. Algo que poderia ter sido evitado por uma relação mais direta da origem do sobrenatural com a trama, ou mesmo com o sobrenatural sendo mais sugerido do que reforçado. O próprio uso de medicamentos tarja preta pelo protagonista, presente no filme, já serviria de desculpa para a segunda solução, e possibilitaria um final mais agradável, menos confuso, e com menos aparência de insegurança.

No fim das contas, O Rastro falha em tantos aspectos quanto acerta. Existem diversos elementos que podem ser utilizados como guia para o futuro do gênero no Brasil. Mas, infelizmente, faltou coragem de toda a equipe de se desvincular das obrigações que eles mesmos se impuseram, e entregar uma obra interessante como um todo.

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