Falange Resenha | O Que Fazemos nas Sombras

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Vinheta da Mãe SerpenteAo longo dos anos, o horror desenvolveu um subgênero próprio, chamado comédia de horror. Ou talvez a comédia tenha se apropriado de temas e recursos específicos do horror. Independente de como você encare esse processo, é fato que filmes maravilhosos do nicho já foram produzidos. Zumbilânda (Zombieland, 2009), O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974), Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004), Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992). E por mais que nosso especial de Mês das Bruxas priorize filmes que criem medo, nojo ou angústia, a Mãe sentiu a necessidade de homenagear a comédia explicitamente voltada para os fãs de horror. É por isso que O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows, 2014) é o nosso destaque do dia.

Colegas de caixão

O Que Fazemos nas Sombras é um mocumentário. Isso significa que todo o filme reproduz a estética de um documentário, com entrevistas e uma equipe de filmagem que segue as personagens principais. Seu objetivo, no entanto, é fazer graça com situações absurdas. É um formato utilizado por Sacha Baron Cohen, em filmes como Borat (2006), e com sucesso recente em séries como Parks and Recreations (2009 – 2015) e Modern Family (2009 -). A inovação de O Que Fazemos nas Sombras é utilizar o mocumentário para tratar do dia a dia de um grupo de vampiros que compartilham uma casa em Wellington, na Nova Zelândia.

A ideia do filme surgiu na forma de um curta de 2006, com o mesmo nome, escrito e dirigido por Taika Waititi e Jemaine Clemente. Se o nome de Taika não soa estranho, é porque o cineasta é responsável pela direção de Thor: Ragnarok, que acaba de sair nos cinemas. E a menção a uma estaca de madeira tripla em Ragnarok é uma referência direta a O Que Fazemos nas Sombras. Taika e Jemaine também interpretam dois dos quatro vampiros da casa, respectivamente Viago, um vampiro renascentista, e Vladislav, um vampiro medieval.

A genialidade do filme está justamente em entender o amplo universo dos vampiros na cultura pop, e criar uma estória que faça homenagens e sátiras às diferentes personificações dessa figura mítica. Viago, por exemplo, é uma paródia do vampiro sofisticado, acostumado à vida de nobreza. Já Vladislav é uma cópia debochada de Drácula, com sua própria câmara de tortura e sua inclinação a orgias. Temos ainda Jonathan Brugh como Deacon, um vampiro nazista. E Ben Fransham como Petyr, o Nosferatu do grupo.

Imagem do filme O Que Fazemos nas Sombras, ou What we Do in the Shadows. A imagem mostra uma foto de família com cinco vampiros e um humano, Stu.
Da esquerda para a direita. De pé: Vladislav (Jemaine Clement), Viago (Taika Waititi) e Stu (Stu). Sentados: Deacon (Jonny Brugh), Petyr (Ben Fransham) e Nick (Cori Gonzalez-Macuer).

Além de servirem para personificar estereótipos de vampiros, cada personagem também reproduz o comportamento estereotipado de colegas de apartamento, desde o maníaco por limpeza até o jovem rebelde e desleixado. E o humor de O Que Fazemos nas Sombras é construído pela sobreposição ridícula entre o cotidiano de um grupo de homens que vivem sob o mesmo teto, e a noite-a-noite do mundo dos monstros.

O Que Fazemos nas Sombras?

Deslocados de seu próprio tempo e presos no passado, os vampiros de Wellington revivem os seus dias de glória até que um novo vampiro surge no grupo. Nick, como um recém-transformado, não possui experiência com as regras da sociedade vampírica, e é daí que começam a surgir conflitos. Surge também a figura de Stu, um técnico de informática que é o melhor amigo humano de Nick, e aos poucos ganha a confiança de todos ao apresentar novas tecnologias aos vampiros.

Todos os poderes e restrições dos vampiros, como a falta de uma reflexão em espelhos ou a capacidade de voar, viram o tema de cenas hilárias. E mesmo habilidades mais obscuras para novas gerações, como a hipnose e a existência de um serviçal, ganham amplo espaço na trama. São detalhes hilários da vida de um vampiro, que é incapaz de entrar em uma boate caso o segurança não o convide. Ou que precisa forrar o chão de casa com jornal antes de morder uma vítima, para impedir que o sangue se espalhe e uma faxina se torne necessária. A sensualidade nata dos chupadores de sangue também é contestada, bem como sua habilidade de se transformar em animais. De uma maneira geral, quanto mais o espectador conhece o universo dos vampiros, mais é capaz de rir alto das piadas. E como a figura do vampiro é uma das mais celebradas pela cultura ocidental, não é difícil achar graça em O Que Fazemos nas Sombras.

Imagem do filme O Que Fazemos nas Sombras, ou What we Do in the Shadows. A imagem mostra um vampiro coberto se sangue segurando um rolo de papel toalha para se limpar.

Apesar de poucos anos desde seu lançamento, O Que Fazemos nas Sombras já se tornou um clássico cult. E mesmo que sua bilheteria tenha sido modesta, apenas quatro vezes o valor inicial da produção, uma continuação já foi confirmada por Taika Waititi. We’re Wolfs, ou Nós Somos Lobos, será uma produção derivada com o foco no grupo de lobisomens que aparece no primeiro filme. Um seriado neozelandês com os dois policias que aparecem na trama já está em produção, e irá se chamar Paranormal Event Response Unit, ou Unidade de Resposta a Evento Paranormal. Já a ideia de uma série com os vampiros, provavelmente ambientada aos Estados Unidos, também está em discussão pelo cineasta. Resta torcer para que todos os planos deem certo.

Somos todos Stu

Um dos pontos mais geniais da produção de O Que Fazemos nas Sombras é que Stu Rutherford não é um ator profissional. Ele realmente trabalhava como técnico de informática quando foi convidado para ajudar no curta de 2006. E depois de sua ponta de 10 segundos, e de seu interesse por cinema, começou a ajudar Waititi na produção de outros filmes, sempre atrás das câmeras ou em pontas de poucos segundos. Stu pensou que a versão em longa metragem de O Que Fazemos nas Sombras não seria muito diferente. E foi assim que começou a aparecer em alguma gravações, sem scripts muito definidos, apenas como ele mesmo falando algumas poucas coisas. Stu não sabia que o roteiro original dava destaque tão grande para seu personagem, e que seu nome estaria em quinto nos créditos por importância, apenas atrás dos quatro vampiros principais. Somente na gravação da icônica sequência final Stu percebeu que estava sendo alvo de um complô para deixá-lo no escuro. E até a primeira exibição do filme, Stu ainda não tinha ideia de como seria a montagem final.

Rever O Que Fazemos nas Sombras com essa informação torna o filme ainda mais hilário, pois é possível notar que as reações de Stu são extremamente naturais, e seu desconhecimento de seu papel possibilitou um filme ainda mais engraçado. Stu é um exemplo de como uma piada fora das câmeras conseguiu ser incorporada de maneira tão magistral a um filme.