Falange Resenha | O Melhor Professor da Minha Vida

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Vinheta de BastilleBonjour! A partir da próxima quinta-feira (dia 5), vocês poderão, em alguns cinemas brasileiros, assistir a O Melhor Professor da Minha Vida (Les Grands Esprits). Trata-se de uma dramédia francesa, que tem como cenário uma escola da periferia parisiense.

Ensino de elite vs ensino de periferia

O filme acompanha François Foucault, um professor de letras no famoso liceu parisiense Henri-IV. É importante dizer que o liceu é um dos melhores e mais procurados da capital – dos milhares de pedidos recebidos todo ano, menos de 300 recebem uma resposta positiva. Essa seleção, baseada principalmente nos resultados escolares anteriores do aluno, faz com que quem entra no Henri-IV já possua um nível de educação acima da média, e 97% de chances de sucesso no baccalauréat (o exame de fim do ensino médio). Dessa forma, todo ano ou quase, o liceu pode se gabar de uma taxa de sucesso de 100% no dito exame. Agora, imaginem um professor acostumado a trabalhar com esses alunos sendo transferido para um colégio de periferia, em que apenas 74% dos alunos obtém o brevet (o exame de conclusão do ensino fundamental), por motivos de dificuldades financeiras, familiares e, principalmente, por falta de esperança e de confiança no próprio potencial.

François Foucault acredita que o ensino na periferia é complicado porque os professores mais competentes e experientes querem ficar em escolas boas, e por consequência a periferia só tem professores novatos, incapazes de segurar alunos com dificuldades de aprendizagem e problemas comportamentais. Mas François Foucault não quer deixar sua posição confortável no Henri-IV. Ainda assim, uma sequência de eventos o obriga a passar um ano experimental no colégio Barbara. Ano em que ele percebe não ser melhor do que os professores novatos que trabalham lá.

Existe aluno ruim?

Se a chegada de François Foucault no colégio Barbara é um choque para ele, essa mudança a princípio também não agrada os alunos e professores de lá. O estilo de François, clássico e rígido, é logo apontado como estranho, fora de lugar. O ambiente é mais relaxado, e o professor vai aprender que seus métodos de ensino também devem ser assim. O Melhor Professor da Minha Vida mostra todo esse processo de adaptação de Foucault, e os resultados das mudanças aplicadas.

Cena de O Melhor Professor da Minha Vida, com o professor Foucault no meio de sua turma.
François Foucault passa por muitas dificuldades antes de ganhar o respeito dos alunos.

De forma justa e sem preconceito, o filme mostra o cotidiano dos integrantes da escola. Isso implica em professores chorando por não conseguirem se impor em sala de aula, alunos trapaceando nas provas, suspensões regulares. É interessante perceber que, depois de um tempo, a equipe pedagógica se acomoda e já não busca mudar o que está ruim. Há um certo fatalismo tanto da parte da equipe quanto dos pais e dos estudantes: não há o que fazer com esses alunos.

Aos poucos, no entanto, junto de Chloé, uma das raras professora do colégio que ainda acredita que as coisas podem ser melhores para todos, Foucault tenta métodos diferentes com as crianças. Ao fazer paralelos diretos entre o que os alunos vivenciam e gostam e o conteúdo a ser ensinado, é possível despertar o interesse deles e obter resultados melhores. Isso resulta no aumento da confiança em si próprio e em sua capacidade. Os alunos, que ouviram tanto que eram ruins, descobrem que não são, e podem até ser bons. A partir daí cresce uma relação de respeito entre o professor e sua turma, com alguns momentos de cumplicidade. No entanto, essa relação parece não ter tempo de ser explorada para oferecer cenas muito emocionantes, já que o período de Foucault no colégio acaba bem rápido.

Cena de O Melhor Professor da Minha Vida, em que Seydou e Maya, a garota por qual ele é apaixonado, tiram uma selfie no castelo de Versalhes.
A evolução da turma faz com que uma visita ao castelo de Versalhes seja organizada.

Realismo e utopia em O Melhor Professor da Minha Vida

O Melhor Professor da Minha Vida consegue um belo e interessante retrato da periferia, com seus problemas e seu potencial. O fato do diretor do filme ter passado mais de dois anos observando o cotidiano do colégio Barbara e ter escolhido crianças da escola para atuar como os alunos da turma principal dá ao filme um toque verdadeiro, autêntico. Além disso, faz uma crítica ao sistema de educação francês, muito focado no desempenho de bom alunos de classe alta, e que, apesar de planos que atribuem mais dinheiro a estabelecimentos em zona difícil, não demonstra muita fé na mudança.

Uma problema do filme diz respeito ao seu caráter utópico. Apesar de alguns problemas que acontecem na escola, tudo acaba se resolvendo graças a um professor, que consegue mudar os alunos, e que por sua vez é mudado, para melhor, pelas crianças. Como se bastasse um professor bem preparado para mudar todo o sistema de educação. Quando, na verdade, trata-se de um problema não só educacional, mas social, já que as dificuldades escolares de boa parte dos alunos de colégios de periferia decorrem também de dificuldades em casa, algo que o professor não pode mudar.

Cena de O Melhor Professor da Minha Vida, em que o professor Foucault e o aluno Seydou tentam se entender em uma conversa mais intimista.
François Foucault consegue ajudar Seydou a melhorar seu desempenho e comportamento. Mas isso não garante um futuro melhor ao garoto.

Justamente por isso, mesmo que François Foucault ofereça uma mudança positiva ao longo do ano escolar, com alunos mais empolgados e autoconfiantes, ainda podemos nos perguntar se seu trabalho realmente muda algo para o futuro das crianças. O que os espera? Outros professores serão capazes de incentivá-los? Conseguirão acesso a liceus prestigiosos? Terão a oportunidade de estudar o que querem, ou deverão trabalhar com qualquer coisa aos 16 anos para ajudar a sustentar a família? Apesar do final relativamente feliz, essas perguntas ficam. Não para os alunos da turma de 8º ano do colégio Barbara. Mas para todos os esquecidos do sistema escolar.

Isso dá lugar a outra crítica, desta vez em relação ao título com o qual o filme chega no Brasil. O Melhor Professor da Minha Vida. Isso porque, no fim das contas, não sabemos se esse professor mudou a vida dos alunos. Na verdade, o contrário ocorre de forma mais marcante: Foucault, no início rígido, severo, muito seguro de suas ideias antiquadas, se torna uma pessoa bem mais aberta, capaz de entender situações alheias e de lutar pelo  bem do outro. Talvez seria mais justo falar em Os Melhores Alunos da Minha Vida.