Falange Resenha | O Justiceiro (Netflix)

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Vinheta da Mãe SerpenteA parceira da Marvel com a Netflix inaugurou um projeto ambicioso. Os seriados planejados em torno de heróis menores e urbanos mostraram um lado sombrio e violento do Universo Marvel. Uma abordagem inesperada, mas muito bem vinda. Com os anos, e as novas temporadas, a necessidade de construir um universo pesou nos roteiros, e prejudicou seriados mais recentes. O Justiceiro (The Punisher), que estreou na última sexta, é uma lembrança do potencial da parceria. Cruel não só por sua violência, mas pela intenção de analisar o que há de pior na natureza humana, O Justiceiro é a prova maior que os universos compartilhados precisam para investir em mais projetos autorais e independentes.

Jon Bernthal O Justiceiro

O sucesso inicial das séries da Marvel/Netflix teve como um de seus principais fatores a escolha do elenco. Charlie Cox encarna o Demolidor aos mínimos detalhes, Mike Colter compreende como ninguém a figura de Luke Cage e Krysten Ritter simula a Jessica Jones dos quadrinhos até em seus detalhes mais irritantes. Ao contrário do cinema, as séries também conseguiram desenvolver vilões icônicos, como o Rei do Crime de Vincent D’Onofrio, o Homem Púrpura de David Tennant e o Boca de Algodão de Mahershala Ali. O cuidado de escalar atores competentes como coadjuvantes e personagens menores é o que garantiu a qualidade das primeiras produções da parceria.

De forma inversa, escalações ruins prejudicam o andamento das séries. Não é à toa que o final da primeira temporada de Luke Cage (2016) seja tão decepcionante, logo quando o Cascavel de Erick LaRay Harvey entra em cena. E há quase um consenso em afirmar que Finn Jones é uma péssima escolha para interpretar o Punho de Ferro. Isso não diz respeito, diretamente, à escolha de atores, já que até mesmo uma lenda como Sigourney Weaver não brilha como deveria como Alexandra, em Os Defensores (The Defenders, 2017 -).

Vicent D'Onofrio como o Rei do Crime, ou Kingpin, na série Demolidor, ou Daredevil, da Marvel com a Netflix.
Mais do que um vilão genérico, Vicent D’Onofrio mostrou que é possível ter antagonistas com personalidade e propósito na sua interpretação do Rei do Crime.

O Justiceiro, felizmente, representa um retorno à qualidade das primeiras séries Marvel/Netflix, a começar pela escolha de seus atores. O desempenho acima de todas as altas expectativas de Jon Bernthal no papel do anti-herói na segunda temporada de Demolidor (2015 -) garantiu uma série solo, fora dos planos iniciais para os Defensores. A oportunidade de uma temporada completa em torno do Justiceiro só serve para provar que Bernthal nasceu para o papel. Das explosões de raiva ao inferno interior que Frank Castle carrega consigo, Bernthal é capaz de viver uma das versões mais complexas que a personagem já teve, dentro e fora dos quadrinhos, e faz isso sem aparentar nenhum esforço.

E não é só o Justiceiro que foi bem escalado. Inimigos principais e secundários, assim como aliados, são construídos de forma precisa, com o cuidado de transparecerem conflitos internos, incoerências, traumas e tudo aquilo que nos torna humanos. Jason R Moore como Curtis Hoyle, Daniel Webber como Lewis Walcott e Ben Barnes como Billy Russo não apenas orbitam em torno do protagonista, mas abrem espaço para narrativas próprias, cada um capaz de roubar a cena em momentos variados. O grande destaque, no entanto, vai para Ebon Moss-Bachrach, que ajudou a formar um Microchip tão interessante e complexo que ultrapassa qualquer representação que já teve em décadas de quadrinhos. Mas os quadrinhos, no sentido clássico, importam pouco em O Justiceiro. E isso pode se tornar um problema para o espectador.

Jon Bernthal no papel de Frank Catle, o Justiceiro, ou Punisher, e Deborah All Woll, no papel de Karen Page, estão no set de filmagem da série Marvel e Netflix.
Karen Page, como já era esperado, volta para a série do Justiceiro, e Deborah All Woll mostra, mais uma vez, todo seu talento.

Nem super, nem herói

Não é nenhuma novidade que Frank Castle está longe de ser um herói. Sem nenhum tipo de escrúpulo ao lidar com a vida e o bem estar de seus inimigos, Castle é um pária na sociedade de heróis da Marvel, muitos dos quais evitam sua presença, ou tentam trazê-lo para a justiça. Quebrando todo tipo de pressuposto sobre o comportamento heroico, o Justiceiro tortura e mata seus alvos, muitas vezes mostrando prazer na tarefa. Não é nenhuma surpresa, então, que a série do personagem seja aquela que mais se afasta do universo que a Marvel criou nas telonas e nas telinhas até o momento. Não existe a possibilidade de convívio pacífico com heróis. Frank Castle precisa agir nas sombras, e permanecer nas sombras, se sua personagem pretende continuar a existir em um mundo vigiado por Vingadores, e uma Nova Iorque patrulhada por Defensores.

O descolamento do Universo Estendido da Marvel é o ponto mais forte e o ponto mais fraco de O Justiceiro. Mais forte porque dá à equipe a liberdade criativa necessária para tratar do controle de armas pelo Estado de maneira complexa e multifacetada. A liberdade de falar da pressão que o soldado sofre, e o estresse pós-traumático a que muitos veteranos estão sujeitos. Falar mesmo da confiança nas autoridades oficiais, e na justificativa (e falta de justificativa) em tomar para si o objetivo de punir os malfeitores. Sem respostas prontas, nem um direcionamento determinado, O Justiceiro, despreocupado com coesão e continuidade, pode justificar as ações de Castle ao mesmo tempo que mostra seu absurdo, e abre espaço para a discussão de problemas sociais profundos.

Jon Bernthal no papel de Frank Catle, o Justiceiro, ou Punisher, na série Marvel e Netflix, segura um rifle sniper.
O papel de herói não tem espaço para assassinatos à longa distância.

Acontece que é difícil enquadrar O Justiceiro como uma produção do MCU. É completamente injustificado que uma figura tão importante quanto o Frank Castle dos seriados tenha a liberdade de agir livremente em um universo em que a S.H.I.E.L.D é a principal agência de inteligência. E uma cidade que já sofreu de invasões alienígenas, guerras ninja e tem um homem aracnídeo vigiando a vizinhança, é de se estranhar que o crime organizado continue a existir de forma tão ativa e aberta. Por outro lado, é cada vez mais difícil, até mesmo para o espectador médio, acompanhar todas os cruzamentos necessários para a manutenção de um universo, e talvez a aposta em mais produções semi-independentes seja a mais acertada para a sobrevivência das franquias de quadrinhos.

A velocidade de um tiro

E por falar em liberdade criativa, nenhuma produção do MCU, filme ou série, lidou de forma tão direta com o uso de armas de fogo. Mesmo os mísseis e jatos de energia da armadura do Homem de Ferro funcionam de maneira fantástica; são ferramentas afastadas da realidade, e essa distância é perceptível ao público. Já O Justiceiro precisa lidar, a todo o tempo, com tiros e explosões, e o quanto mais as cenas de ação simularem confrontos armados reais, melhor. Ao invés de socos e chutes, as batalhas de Frank Castle são disputadas a partir do exercício de atirar e buscar proteção. As técnicas aprendidas em seu período servindo ao exército dos Estados Unidos giram em torno da mesma atividade, e foi possível explorar a abordagem pela primeira vez na Marvel.

A velocidade de um tiro, no entanto, é muito superior à de um golpe de qualquer arte marcial, e os conflitos de O Justiceiro, apesar de espetaculares à sua forma, tendem a durar menos do que as cenas dedicadas à ação em outras séries de heróis. É preciso, então, encontrar um ponto de ancoragem diferente para que uma temporada inteira funcione. Jessica Jones (2015 -) lidou com as limitações de sua heroína ao produzir uma série sobre abuso e resistência, que ultrapassava as definições de uma série de herói. O Justiceiro é de todo um drama. Esse é outro aspecto que precisa ser esclarecido, para evitar decepções de possíveis espectadores.

Imagem da série O Justiceiro, ou The Punisher, parte da parceria Marvel e Netflix. A imagem mostra Jon Bernthal vestido como o Justiceiro, e ensaguentado.
Na maior parte da temporada, Frank Castle não usa nenhum uniforme. O que torna ainda mais impactante a aparição da caveira branca em cenas-chave.

Nos quadrinhos, as revistinhas do Justiceiro estão recheadas de mortes violentas, e até cômicas, e a personagem serve para saciar leitores vorazes por sangue, tripas e assassinatos. O Justiceiro é uma série violenta, e não faltam momentos dedicados a mostrar toda a brutalidade de Frank Castle. O objetivo maior da série, no entanto, é construir um perfil de suas personagens, e mostrar de que forma a guerra, e os traumas causados por ela, afetam a vida de diferentes indivíduos. Tanto daqueles que se esforçam para deixar a destruição e a morte no passado, quanto daqueles que são incapazes de viver de outra forma. Cenas reflexivas e diálogos longos fazem parte do seriado tanto quanto tiros e explosões. E o peso dessas cenas muitas das vezes é mais significativo para o resultado final.

A fórmula dos treze

Seguindo a fórmula de treze episódios inaugurada por Demolidor, O Justiceiro não tem pressa em desenrolar seus acontecimentos. Ao final da temporada, o espectador pode até mesmo se surpreender ao recapitular os pontos principais da narrativa e perceber que não é muito o que acontece ao longo de tantos episódios. Isso porque, como um drama, O Justiceiro se importa tanto, ou mais, com retratar o universo interno de suas personagens do que com a sequência de ações da trama. Para quem se interessa pela temática, e se identifica de alguma forma com o panorama construído, treze é um número perfeito para dar conta da narrativa mais redonda e fechada já feita pela Marvel/Netflix. Para quem espera apenas a violência extrema associada ao Justiceiro, treze será um número demasiado grande.

Ainda assim, O Justiceiro está entre as melhores produções da Netflix, com ou sem a parceria da Marvel. Se a velocidade da trama não está adequada para o ritmo das produções de super-heróis em geral, a série recompensa o espectador com a pintura precisa de personagens complexas. E se o descolamento com o universo da Marvel em geral pode ser mal visto por fãs aficionados em encontrar referências e ligações, essa característica pode tornar O Justiceiro um bom ponto de entrada para quem não se importa tanto com capas coloridas, vilões megalomaníacos e poderes. O universo da Marvel na Netflix sempre pretendeu ser mais sombrio e realista que os filmes, mas essa é a primeira vez que esse universo consegue realmente abandonar por completo a fantasia, e mostrar toda a crueldade e violência que pode abrigar.

Vicent D'Onofrio como o Rei do Crime, ou Kingpin, na série Demolidor, ou Daredevil, da Marvel com a Netflix, confronta Jon Bernthal no papel de Frank Catle, o Justiceiro, ou Punisher. ambos estão de pé, frente a frente, em uniformes de prisão.
Para o futuro da Marvel na Netflix, tudo o que a Mãe quer é que esse confronto aconteça.