Falange Resenha | O Círculo

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Mãe SerpenteSozinha em um caiaque, Mae Holland segue em direção ao centro de um lago. As águas calmas só são perturbadas pelo remar tranquilo de Mae. O vento, o barulho das ondas, tudo contribui para a sensação de completo isolamento. Não há ninguém ao redor. Mae está sozinha, afastada por um momento do caos da vida cotidiana. Ao menos até que seu celular toque. A cena de abertura de O Círculo (The Circle) é a sinopse que o filme poderia ter. Para além das conspirações e segredos, O Círculo é sobre a humanidade conectada. E no cerne de toda a discussão do filme está o conflito mais do que contemporâneo entre a necessidade de se relacionar em tempo real e o direito à privacidade.

O Círculo: a empresa do sonhos

O Círculo, baseado no livro de mesmo nome escrito por Dave Eggers, segue a vida de Mae Holland (Emma Watson) no momento em que a jovem consegue uma entrevista de emprego para trabalhar na maior empresa de tecnologia do mundo. Uma mistura de Facebook com Google, o Círculo começou a crescer exponencialmente a partir da invenção de uma rede social própria, a True You. Seu interesse, no entanto, segue em direção da pesquisa e implementação de novas tecnologias, que facilitem a captura, armazenamento e transmissão de informação. Com toda a aura de participação e responsabilidade que cerca as maiores empresas da área no mundo real.

Um trabalho no Círculo não significa apenas uma boa remuneração e condições decentes de vida. O Círculo é uma comunidade própria, em que festas especiais acontecem, ao mesmo tempo que dezenas de atividades físicas e intelectuais são oferecidas aos funcionários. O campus é enorme, e está acessível a todos que possuem ligação com o Círculo, mesmo uma simples atendente como Mae. Passar mais tempo socializando com colegas, no entanto, significa estar cada vez mais disponível para a empresa. E, de uma forma sutil, O Círculo desenha uma crítica perspicaz à flexibilização do trabalho, e ao fato de que benefícios oferecidos por grandes companhias sempre vêm com o preço de diminuir o limite entre horas de trabalho e horas de lazer. Esse não é, nem de longe, o único questionamento proposto pelo filme.

O Círculo
Imagine viver em um lugar em que tudo o que você faz pode ser compartilhado com o mundo e você tem a sensação de ser constantemente vigiado e julgado. Tipo o planeta Terra no século XXI.

O brilhantismo do filme está justamente na sua capacidade de discutir a tecnologia a partir de diferentes usos, sem forçar reflexões filosóficas profundas. Extremamente acessível a todo o público, a jornada de Mae, e a criação de tecnologias novas pela equipe do Círculo, abrem espaço para observar e ponderar a ação humana após a digitalização das mídias. Se todo mundo é capaz de descobrir tudo de sua vida, não seria melhor planejar seu cotidiano de acordo com essa visibilidade? Quais são os limites da privacidade, se é possível espalhar câmeras não rastreáveis em qualquer lugar do mundo? A segurança proporcionada pelo reconhecimento facial de criminosos vale o desaparecimento do direito a estar só? A participação política, facilitada pela internet, se torna uma obrigação perante um mundo vigilante? São muitas as questões levantadas pela ficção, a partir de invenções que não parecem muito distantes de serem concretizadas nos próximos anos.

Enredo e elenco

Apesar de todo o valor conceitual, um filme necessita de um bom desenvolvimento de trama e atuações convincentes para ser bem sucedido. Nesse ponto, O Círculo tem altos e baixos. O elenco, de uma forma geral, é competente. Tom Hanks é perfeito em sua interpretação de Eamon Bailey, empresário tecnológico e showman, inspirado em figuras como Steve Jobs e Mark Zuckerberg. John Boyega também se destaca como o gênio incompreendido Ty. Já Emma Watson… bem, a Mãe vai ser polêmica agora e dizer que Emma Watson não é uma excelente atriz. Sem dúvida alguma uma excelente pessoa, com um trabalho fantástico na ONU. Mas a cada novo filme fica mais claro que existe um teto para sua capacidade de atuação. Muito mais interessante é a interpretação de Karen Gillan da coadjuvante Annie.

O Círculo
Mais do que um emprego, as grandes companhias oferecem um culto à si próprias, em palestras e apresentações dedicadas a seus próprios funcionários. Eamon Bailey (Tom Hanks) é a personificação dessas ações.

Apesar de bom o suficiente para dar vida às personagens, o desenrolar de O Círculo se baseia na criação de situações pouco convincentes. Em prol do direcionamento da trama, personagens agem de forma imprudente, e tomam decisões duvidosas. E embora a influência externa inesperada seja um recurso narrativo válido, seu uso excessivo se torna um inconveniente. O Círculo se preocupa tanto em dar o tempo de tela necessário para apresentar todas suas questões, que a posição de Mae, às vezes, se torna injustificável. O mesmo acontece com as escolhas apresadas de Ty.

A estória, assim, tem momentos confusos, incapazes de guiar de forma satisfatória o espectador. Existe também mudanças repentinas no tom do filme, com cenas satíricas e cômicas e a tentativa nunca bem sucedida de criar suspense. Não são raros os momentos em que se imagina que uma trama complexa se desenha no fundo das aparências inocentes de Mae, e a completa ausência das revelações prometidas é decepcionante. No fim das contas, um final abrupto deixa o espectador sem entender o que o filme pretendia, além de mostrar cenas diversas que funcionam como um bom episódio de Black Mirror (2011 -), mas que não compõem uma narrativa coesa.

Imagens e sentido

Apesar do foco de O Círculo ser narrativo, e, principalmente, crítico, isso não significa que seus elementos técnicos tenham ganhado menos importância na construção da obra. Elementos representativos da comunicação instantânea se sobrepõem à tela. As mensagens enviadas, ou as informações automáticas mostradas por um programa, são colocadas diretamente sobre cada quadro. Se o efeito causa estranhamento, nas primeiras cenas, logo se torna parte essencial para a construção do sentido. A vida no Círculo possui uma velocidade crescente, com novas informações circulando a todo instante. Assim como nossa vida é cada vez mais cruzada por milhares de mensagens, áudios, imagens. Por isso, o cotidiano mostrado no filme é imerso, e algumas vezes soterrado, pelos elementos postos na tela. E a necessidade do espectador de dividir sua atenção entre a trama e esses elementos é uma excelente simulação da vida contemporânea.

O Círculo
A presença constante de ferramentas de texto na tela é menos estranha no contexto do que uma imagem pode fazer parecer.

Não é incomum, no dia-a-dia, interrompermos as mais diversas ações diárias para olhar a tela de celulares, ou a janela de um navegador. O costume de receber estímulos múltiplos, em quantidade cada vez maior, é algo que mudou mesmo a forma como percebemos o cinema. Não é á toa que filmes apresentam cada vez mais cenas de ação na tentativa de agradar uma audiência super estimulada. E se tornam mais comuns as pessoas com dificuldades de acompanhar a duração inteira de um filme, sem a possibilidade de parar, desviar a atenção, e retornar em um momento futuro. A uso criativo de imagens sobrepostas, em O Círculo, é ainda mais interessante nesse contexto. A necessidade de acompanhar múltiplos estímulos simultâneos é algo que, ao mesmo tempo, dá mais agilidade a um filme sem explosões, e serve como crítica a essa própria necessidade de agilidade.

Pensado mais como um tratado filosófico do que como filme, O Círculo ainda é um longa metragem interessante. Não só pela temática, mas por seu cuidado e atenção com os detalhes técnicos. E mesmo que existam grandes falhas em seu roteiro, e nem todo o elenco realize performances inesquecíveis, O Círculo é um bom filme para se pensar o uso da internet. E sobre todas as questões de fundo, podem esperar um texto especial da Mãe, sobre Tecnologia, até o início da próxima semana. Até lá já deu tempo de conferir o filme nos cinemas, e já vamos poder ficar mais relaxados com spoilers.

O Círculo