Falange Resenha | O Assassino: O Primeiro Alvo

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Vinheta de BastilleBonjour! Saiu na quinta-feira passada, dia 21, nos cinemas brasileiros O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin). O filme junta duas ameaças cada vez mais presentes no mundo ocidental: terrorismo e armamento nuclear. E – obviamente – coloca os EUA como a salvação do mundo frente a esses perigos.

Ação e espionagem

Mitch Rapp (Dylan O’Brien) tinha acabado de pedir Katrina (Charlotte Vega) em casamento quando esta foi morta em um ataque terrorista. A partir deste momento, Rapp só pensa na sua vingança, e sua vida consiste em se preparar para chegar perto o suficiente do homem que assassinou a sua namorada para matá-lo. Para isso, ele chega a infiltrar um rede do Estado Islámico, o que atrai a atenção da CIA. A vice-diretora da agência Irene Kennedy (Sanaa Lathan) vê em Rapp um extraordinário agente potencial, recruta ele para o programa anti-terrorista Orion e o envia para ser treinado durante um mês pelo veterano da Guerra Fria Stan Hurley (Michael Keaton).

A partir disso, o filme mostra o treinamento de Rapp por Hurley, e acompanha ambos em uma missão que tem como objetivo impedir o início de uma nova guerra mundial. O Primeiro Alvo conta com boas cenas de ação, uma fotografia interessante e um elenco que faz o trabalho corretamente. Apesar de não trazer nada de novo ao gênero, trata-se de um bom filme de ação. Mas será que não dava para ser mais do que isso?

Matar quem precisa ser morto

O terrorismo islâmico está muito presente no mundo ocidental. Atentados são cometidos regularmente, traumatizando quem os presencia. E o início do filme mostra isso da forma mais crua possível. Enquanto estão se divertindo e relaxando em uma praia de Ibiza (Espanha), Rapp, Katrina e centenas de outros turistas veem suas férias interrompidas por um grupo de terroristas que, fuzis em mãos, atiram para todos os lados. Balas atravessam peitos e cabeças, e o silêncio e a imobilidade dos mortos contrastam com o desespero de quem ainda está vivo e à procura de um esconderijo. Uma cena muito bem executada, que se aproxima do que se vê nos jornais televisivos nos últimos anos.

Cena de O Assassino: O Primeiro Alvo, em que o protagonista Rapp pede a namorada em casamento, em uma praia de Ibiza.
O momento de felicidade do casal Mitch/Katrina será rapidamente interrompido.

Quem sobrevive a algo assim não tem como não ficar com algum trauma. Pior ainda é sobreviver depoir de ver quem ama perecer com uma bala na cabeça. O que é o caso de Rapp, para quem matar terroristas se torna uma obsessão após o ocorrido. Para ele, essas pessoas precisam morrer. E o dever dele se torna matar quem precisa ser morto. Não que eu defenda terroristas, mas esse tipo de pensamento é bem complicado, já que é subjetivo. E o filme não problematiza isso como deveria. Em alguns momentos, a capacidade de Rapp de deixar o ódio pessoal de lado em prol do bom desenrolar da missão é questionado. Entretanto, como a subjetividade e a desobediência dele acabam sempre por trazer algo de positivo – alguma informação importante, uma vida salva –, Rapp é sempre tratado como um herói. E seu pensamento é tratado como uma verdade absoluta.

De uma perspectiva particular, a ideia de que terroristas têm que morrer é totalmente compreensível. De uma perspectiva mais ampla, é uma questão muito complexa, e os problemas não se resolvem apenas matando quem mata, mas sim entendendo o fenômeno e agindo na raiz do problema. Uma pena que o filme adota, através do apoio que a CIA dá a Rapp, apenas a perspectiva do personagem.

O poder de matar milhões

Além da questão do terrorismo, O Primeiro Alvo trata de armamento nuclear. Desde seu uso pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki em 1945, a armas nucleares são algo que assustam. Uma simples bomba é capaz de destruir tudo em um raio de alguns quilômetros, fazendo centenas de milhares de mortos caso seja ativada em alguma grande cidade. O poder de uma arma nuclear assusta porque sabemos bem de seus efeitos, e porque não há o que fazer depois dela ser ativada. É por isso que muitos países buscam obtê-la.

Cena de O Assassino: O Primeiro Alvo, com Michael Keaton e Dylan O'Brien.
A equipe liderada por Stan Hurley (2º partindo da esquerda) visa acabar com os planos do terrorista Ghost.

Em O Primeiro Alvo, um terrorista apelidado de Ghost (ou Fantasma) detém uma dessas bombas e precisa ser impedido de ativá-la. Essa é a tarefa da equipe liderada por Hurley. Mas o líder, que sempre insiste que a missão importa mais do que os indivíduos e que nada deve ser levado para o lado pessoal, se vê obrigado a lidar com sua relação passada com Ghost. O terrorista, um antigo membro da marinha que agora acredita que treinamento militar transforma homens em monstros, tem como alvo uma frota estadunidense. As imagens mostram bem a violência do impacto causado pela bomba nuclear. Mas, como em muitos filmes do gênero, o que importa no final não é o que foi destruído, mas o que o herói americano impediu de acontecer.

Vale a pena assisir a O Assassino: O Primeiro Alvo?

Como eu disse mais acima, O Primeiro Alvo é razoável como filme de ação. Uma boa diversão. As atuações contribuem para isso – Keaton é bom, como sempre, e O’Brien é surpreendente em um papel diferente dos que fizeram ele famoso (em Teen Wolf e Maze Runner: Correr ou Morrer). O maior problema do filme é que ele aborda vários assuntos que poderiam dar lugar a discussões interessantes: o trauma causado por um atentado terrorista, a obsessão pela vingança, os perigos do treinamento militar, a questão do armamento nuclear. Mas não aprofunda nenhum deles, e acaba sendo apenas um filme de ação genérico. Pelo que a última cena do filme mostra, a possibilidade de uma sequência é real. Uma oportunidade de corrigir os erros deste primeiro filme?