Falange Resenha | Ninguém Está Olhando

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Vinheta do Professor Lumière
Olá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema do QG. Hoje vou falar sobre Ninguém Está Olhando (Nadie Nos Mira, 2017), drama argentino dirigido por Julia Solomonoff que foi vencedor nas categorias Melhor Filme, Melhor Montagem e Melhor Ator no Cine Ceará e também na categoria Melhor Ator no Festival de Tribeca. O filme acompanha a rotina de Nico (Guillermo Pfening), um ator que abandona tudo e todos na Argentina e vai para os Estados Unidos após o término de um relacionamento turbulento. Assista ao trailer abaixo:

Os traumas podem surgir em nossas vidas de diversas formas. Existem os traumas mais óbvios e palpáveis – aqueles que têm a ver com tragédias familiares ou catástrofes –, mas existem ainda os traumas pessoais que, desconhecidos pelas outras pessoas, podem nos empurrar para um isolamento literal ou psicológico por medo da incompreensão alheia.

Nico fugiu de tudo e de todos. Apesar de ter uma carreira razoavelmente bem-sucedida na Argentina, ele se mudou para Nova York após um amargo término de relacionamento com Martín (Rafael Ferro). Seu distanciamento do ex – e de seu país – é bastante compreensível, mas as situações a que Nico se submete em território norte-americano não são tão fáceis de engolir.

Afinal, quando deixamos tudo e todos para trás, o objetivo é apenas um: ter uma nova vida com novas pessoas e novas experiências. No entanto, Nico se encontra num estado tão inexplicável que aos poucos fica claro que o filme de Solomonoff será sobre o isolamento, sim, mas também sobre outros temas.

Ninguém Está Olhando e seus temas

O primeiro tema mais evidente é a forma como nós parecemos esperar a vida toda por uma oportunidade que, surgindo ou não, pode não justificar tamanho embargo em nosso crescimento. Desde as primeiras cenas, a habilidade de Nico para lidar com as crianças fica bastante clara: ele cuida dos bebês com tanta desenvoltura que acaba chamando a atenção das demais babás no playground, a ponto de algumas delas sugerirem que muitas mães pagariam uma grana por babás masculinos. No entanto, Nico se mantém livre de vínculos empregatícios por estar à espera do início das gravações de um filme que teoricamente mudará sua vida. O problema é que, no meio tempo, a falta de dinheiro o leva a cometer pequenos delitos para conseguir pagar por suas necessidades básicas.

Imagem de Ninguém Está Olhando Mostra Nico com uma criança apoiada nos ombros
Apesar de ter um ótimo relacionamento com crianças, Nico jamais considera ser babá para ter alguma renda.

Então, a primeira pergunta que Ninguém Está Olhando levanta é: vale mesmo investir tempo e esperar por uma oportunidade duvidosa? Muitas pessoas são definidas pelos seus empregos, e ainda outras o consideram uma extensão das próprias vidas. Mas, no fim das contas, um emprego é só um emprego. Qual seria o problema de trabalhar com algo que se faz bem e ganhar um dinheiro decente que pague por suas contas e pelo lazer? Assim como Nico não quer assumir oficialmente o posto de “babá”, muitos de nós achamos depreciativo assumir cargos como “faxineiros”, “ajudantes”, “garçons” só pela subordinação que vem atrelada aos títulos. No entanto, não pensamos que o único problema desses cargos é que geralmente são mal remunerados, e ninguém teria nenhum problema em assumi-los caso rendessem o dinheiro suficiente para que mantivéssemos algum status.

Status também é outro tema discutido por Ninguém Está Olhando. Ainda que mal tenha dinheiro para sobreviver em uma cidade norte-americana, Nico faz de tudo para que os colegas da Argentina acreditem que ele está praticamente de férias nos Estados Unidos. Não por acaso, ele sucumbe a extremos como enrolar a dona de um apartamento do AirBNB (que ele deveria limpar e arrumar) para poder fingir que está morando no local. Esse tipo de atitude contribui para que cenas como a que Nico “decora” o apartamento – se preocupando até em deixar camisas jogadas em cadeiras para sugerir um desleixo planejado – sejam tragicamente engraçadas, pois é possível enxergar a nós mesmos nos esforços do protagonista, e como às vezes nos esforçamos para fazer parecer que nossa vida é melhor do que realmente é.

Imagem de Ninguém Está Olhando Mostra Nico diante da cidade de Nova York
O isolamento de Nico é constantemente mostrado através de planos abertos que o diminuem.

Esses dois temas são muito bem dosados por Solomonoff que, junto com a roteirista Christina Lazaridi, se preocupa em pintar Nico como uma figura trágica e inconsequente mas também amável, razão pela qual nós – e alguns personagens do filme – estamos dispostos a perdoar alguns de seus excessos à medida que a situação em que ele se encontra vai ficando clara. Além disso, tudo isso é incorporado à rotina de Nico, em que contemplamos o vazio constante de sua vida e conseguimos entender melhor como ele se sente derrotado dia após dia. Solomonoff faz bom uso das cenas contemplativas, pois, ao contrário de Invisível, inclui alguns diálogos e pequenos acontecimentos aqui e ali para que a contemplação não se transforme em tédio uma vez que o contexto da vida do protagonista já foi entendido.

Por fim, Ninguém Está Olhando trata de seu tema principal – o isolamento que mencionei no início do texto. A forma como o roteiro aos poucos explica (mas nunca justifica) as atitudes de Nico em outro país surgem quase como uma epifania. Quando Nico finalmente ganha a chance de confrontar Martín, o responsável pelo seu exílio, podemos vislumbrar o buraco negro que o homem representa e a forma como suas atitudes influenciam as decisões de Nico. Como se Solomonoff não tivesse acertado em temas suficientes, o encontro dos dois acaba revelando também um outro problema recorrente na vida: o fato de que muitas vezes nós somos capazes de sabotar nossos próprios planos a fim de culpar terceiros por aquilo que percebemos como “derrotas”.

Imagem de Ninguém Está Olhando mostra Nico e Martin em um momento íntimo
O poder de Martín sobre Nico fica evidente assim que ele aparece em cena.

Pois Nico é nada mais do que isso: um amontoado de decisões erradas que estabeleceu um certo patamar de vida para si mesmo e que, por alguma razão, acha que só será aceito e bem recebido se fizer de tudo para manter ou se adequar àquele patamar. O que ele não sabe – e o que nós mesmos não sabemos – é que muitas vezes não importa, pois as pessoas que nos amam não ligam para nada disso. E que também não faz sentido querer impressionar ou mostrar algum tipo de vantagem para as outras pessoas, porque, no fundo, ninguém está olhando.

O que aprendemos com Ninguém Está Olhando? Seu trabalho não te define, a não ser que você permita ou queira.

Lição de casa: Conferir outros vencedores do Cine Ceará, que homenageia diversos filmes íbero-americanos.