Falange Resenha | Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema da Falange. Hoje vou falar sobre Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, thriller político estrelado por Liam Neeson e sua peruca tenebrosa. A cinebiografia conta a história de um agente do FBI que, conhecido como “Garganta Profunda”, ajudou jornalistas a revelarem para o mundo o escândalo de Watergate, que acabou com a carreira do então presidente Richard Nixon. Assista ao trailer abaixo:

Thrillers políticos frequentemente servem de tema para filmes com bastante potencial. Eles
podem vir com um tom satírico como o ótimo Recontagem (Recount, 2008), abordar uma trama fictícia mas convincente como em O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010), expor as hipocrisias do mundo da política como em Tudo Pelo Poder (The Ides of March, 2010), ou até ter tons mais apocalípticos como em V de Vingança (V for Vandetta, 2005). As possibilidades são infinitas e o resultado, mesmo que não reinvente a roda, acaba ensinando o espectador sobre algo ou fazendo-o refletir sobre as figuras que nos representam.

Mark Felt e sua peruca

A trilha sonora que acompanha os primeiros minutos de Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca sugere que a trama do filme seguirá o caminho de longas como O Homem Mais Procurado do Mundo (Seal Team Six: The Raid on Osama Bin Laden, 2012), em que a trama envolve algum tipo de conspiração que vai ganhando contornos perigosos a cada nova curva – razão pela qual a frustração foi grande ao constatar que se trata de uma biografia genérica que pouco tem a acrescentar sobre o escândalo de Watergate além do nome de um dos envolvidos na exposição do caso.

Mark Felt, ou o Garganta Profunda, em uma entrevista ao lado de sua esposa Audrey. Mark Felt foi essencial para as investigações de Watergate que depuseram o presidente Nixon.
Mark Felt, identificado apenas como garganta Profunda durante as investigações, agiu junto de jornalistas para expor o esquema de vigilância indevida chamado de Watergate. Ao seu lado está sua esposa, Audrey.

O primeiro indício de que Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca (que a partir daqui vou chamar só pelo primeiro nome, pois ninguém jamais vai se referir ao filme por esse título enorme) poderia ser um exercício de falta de cuidado foi a peruca grisalha que colocaram na cabeça de Liam Neeson, que involuntariamente atrai atenção para si mesma. Esse tipo de descuido já é difícil de ser ignorado quando o filme é bom – taí Trapaça (American Hustle, 2013) que não me deixa mentir –, mas quando se trata de um filme que pouco faz para compensar seus erros, um elemento pequeno como uma peruca acaba se tornando só mais um motivo para distrair o espectador.

Não que a caracterização de Felt seja tenebrosa: Liam Neeson sempre foi um ótimo ator, e aqui sua performance representa o que talvez seja o único mérito do filme. O problema é que o irlandês faz o que pode para sustentar um personagem que o diretor e roteirista Peter Landesman parece não ter se esforçado para pintar como uma figura tridimensional. O Mark Felt do filme é um homem sem nenhum defeito e que todos parecem gostar bastante, mas o roteiro se contenta em explicar a popularidade de Felt com um personagem dizendo “É por isso que todos gostam de você”, mesmo que as atitudes do agente no filme todo sugiram o contrário.

Além disso, não deixa de ser curioso acompanhar Neeson viver um personagem que tem acesso a uma conspiração e tenta resolvê-la com a cabeça em vez de com os punhos, o que parecia ser o único recurso dos personagens que viveu nos últimos quase dez anos. Isso indica que o melhor aspecto de Mark Felt tem a ver com fatores externos: o retorno de Neeson à sua melhor forma, já sinalizado com Silêncio (Silence, 2016) e Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, 2016). Se esse tiver que ser o preço a se pagar para ter um dos melhores atores de Hollywood de volta, tudo bem.

No entanto, Neeson parece ser a única escolha coerente do elenco, cujo casting varia de bons atores mal aproveitados a esquecidos/desconhecidos que entram e saem de cena sem relevância. Landesman insistiu em entrevistas que Diane Lane, que vive a esposa de Felt, teve uma performance “elétrica” no filme e que ficou muito triste de ter que cortar a maioria de suas cenas para que o filme ficasse com uma duração apropriada. Isso só mostra mais falta de habilidade do cineasta, que além de só deixar os momentos irrelevantes de Lane no corte final, acabou dando preferência a diversas frases de efeito que sem tornam mais frequentes à medida que a trama avança.

“Isso é um assunto de segurança nacional!” e “Quantas crianças teremos que perder?” são algumas falas ditas em tons que ficariam bem à vontade em diversos outros filmes de ação estrelados por Neeson. Aqui, no entanto, só conferem uma urgência artificial à narrativa que, não satisfeita, adiciona uma contagem regressiva para o dia das eleições – outro elemento que, quando chega ao fim, acaba não tendo nenhum impacto na trama.

Imagem do filme Mark Felt, com Liam Neeson; filme autobiográfico sobre o Garganta Profunda do caso Watergate. A imagem mostra Liam Neeson atendendo a um telefone.
A peruca de Liam Neeson, atendendo um telefone. Liam Neeson está logo abaixo.

Como se não fosse o bastante, Landesman parece ter se dado conta no terceiro ato que não adicionou nenhuma camada a Felt que lhe garantisse alguma profundidade como personagem. É aí que surge uma trama de desaparecimento aleatória que envolve a vida pessoal do agente do FBI, mas é tão tardia que não contribui em nada para o envolvimento do público com Felt. A subtrama tem até um certo potencial, mas falha como elemento dramático por não ter sido incluído na história desde o começo. No fim, fica a terrível sensação de que a participação de Felt no escândalo de Watergate foi tão mal explorada pelo filme que, além de ser tedioso, não traz nenhuma informação que não possa ser encontrada em outros filmes ou livros que certamente seriam experiências bem mais informativas e interessantes.

O que aprendemos com Mark Felt – O Homem Que Derrubou a Casa Branca? Qualquer figura ou evento interessante pode acabar esvaziado de sentido se conduzida por um roteiro ruim.

Lição de casa: Assistir a outros filmes de Peter Landsman e descobrir se Mark Felt foi um ponto fora da curva.