Falange Resenha | Malasartes e o Duelo com a Morte

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Mãe SerpenteO cinema brasileiro tenta, nos últimos anos, recuperar o fôlego perdido ao longo de décadas de comédias derivadas de esquetes da Globo. Não é à toa que tivemos, agora em 2017, O Rastro, primeiro filme de horror a chegar ao grande circuito em muito tempo. Tivemos também o excelente drama Soundtrack, e, mais recentemente, O Filme da Minha Vida (que ainda não tem resenha na Falange, mas a Mãe vai tentar resolver isso em breve). É uma tentativa de diversificar nosso catálogo, e levar ao grande público produções que, infelizmente, acabam reduzidas a festivais. Malasartes e o Duelo com a Morte ganha seu espaço de inovação a partir de sua proposta de usar mais cenas com construção digital do que qualquer outra produção nacional. E, apesar de problemas, consegue ser mais do que um filme bonito, no fim de sua empreitada.

Pedro Malasartes

Pedro Malasartes é um nome folclórico, utilizado primeiro em contos populares portugueses, e importado para protagonizar estórias no Brasil. Esperto e imoral, Malasartes é a personificação do anti-herói popular, capaz de enganar a todos em benefício próprio, mas com carisma suficiente para nunca se tornar um vilão. A personagem faz parte de um arquétipo específico, já utilizado na literatura com Tom Sawyer, ou nos quadrinhos com John Constantine, por exemplo. Preguiçoso, ao invés de trabalhar Malasartes prefere enganar os inocentes em busca de ganho particular, e sempre busca atalhos para sair de situações complicadas. O sucesso da personagem no imaginário popular brasileiro talvez esteja ligado justamento ao jeitinho brasileiro, tão glorificado como conduta moral.

A esperteza de Malasartes, nas estórias populares, é sua característica mais admirada. Não à toa, ele é comumente retratado como alguém capaz de enganar figuras sobrenaturais, como o Demônio, ou a Morte. É justamente a partir desse conceito que o novo filme de Paulo Morelli irá se desenrolar. Na trama, a Morte roubou das Moiras o poder de controlar o fim das vidas dos mortais. As Moiras são entidades gregas, que cuidam do nascimento, do destino e da morte dos seres humanos, e sua inclusão mostra o quanto a mitologia grega resistiu aos séculos, passando pelos mitos romanos, até influenciar contos populares portugueses que seriam depois abrasileirados.

Após milhares de anos como senhor do submundo, a Morte, entediada, decide que precisa encontrar um substituto para assumir suas funções. Esse substituto, no entanto, precisa ser o mais esperto dos homens, de modo que as tarefas da Morte sejam bem cuidadas em sua ausência. É assim que a Morte vira padrinho de Pedro Malasartes, e espera seu aniversário de 21 anos para tentar enganar o rapaz e fazê-lo ocupar seu lugar. O duelo, então, é um duelo de esperteza, entre a Morte, que põe seu plano em ação, e Malasartes, que luta para controlar seu destino acima de qualquer vontade.

Imagem do filme Malasartes e o Duelo com a Morte, com Júlio Andrade no papel da Morte - Foto de André Brandão
No submundo, a Morte reina, entediada. Foto de André Brandão.

Caipira digital

Malasartes e o Duelo com a Morte tem dois cenários principais, por onde a trama se desenvolve. O primeiro é o submundo, construído quase que completamente a partir da modelagem digital. O resultado é realmente impressionante, e não é à toa que a campanha de marketing do filme aposte tão alto na divulgação de efeitos especiais. O trabalho da equipe de efeitos especiais foi realizado a partir da tentativa e erro, ao longo de dois anos, e o resultado é perceptível. Os tons escuros do além se contrastam com milhares de velas, pontos de luz que representam a vida de cada humano. Ao mesmo tempo, os fios do destino trançados pelas Moiras ganham movimentos delicados e realistas. Mesmo que, por motivos óbvios de financiamento, a qualidade da modelagem não represente o ápice do cinema contemporâneo, tudo é muito belo de ver.

O segundo cenário, no mundo dos vivos, segue todos os clichês do mundo caipira. Estradas de terra cortando a mata, casas de barro e sotaques carregados. São estereótipos largamente reproduzidos pela teledramaturgia brasileira, mas que também ganharam uma importância cinematográfica recente depois do sertão nordestino da minissérie O Auto da Compadecida (1999). Por mais que os estereótipos possam incomodar, justamente por não conseguirem quebrar uma visão única do mundo rural brasileiro, eles também são uma estratégia consciente de apelo ao gosto popular, já habituado às novelas da Globo. A inspiração em novelas, no entanto, é também responsável pelas principais falhas do filme.

Imagem do filme Malasartes e o Duelo com a Morte, com Zé Candinho, Pedro Malasartes e Áurea em uma carroça - Foto de André Brandão
A comparação com ‘O Auto da Compadecida’ pode se estender também à composição do núcleo principal de personagens: o esperto, o amigo covarde e o interesse amoroso de um dos dois. O amigo covarde Zé Candinho (Augusto Madeira), no entanto, nunca divide o protagonismo, e permanece como coadjuvante. Foto de André Brandão.

De novela

O primeiro problema óbvio da produção audiovisual brasileira é a necessidade de ter um humorista qualquer envolvido com a trama. Malasartes e o Duelo com a Morte já é engraçado, leve e divertido por conta própria, a partir das voltas e viradas de seu roteiro. A inclusão de Leandro Hassum como alívio cômico, por isso, se torna mais do que desnecessária, mas redundante e, no fim, prejudicial. Apesar de suas qualidades como humorista, não há dúvidas de que Hassum não é um ator, e pode apenas reproduzir a mesma persona que utiliza nos palcos de stand-up comedy em qualquer produção de que participe. É uma inclusão bizarra, que contrasta com performances extremamente competentes de Jesuíta Barbosa, no papel de Malasartes, e Júlio Andrade, no papel da Morte.

Outro ponto necessário de apontar é o tratamento do negro ao longo do filme. Já não é de hoje que a teledramaturgia brasileira é criticada por seu uso estereotipado do negro. Ao reaproveitar a estética do mundo caipira das novelas, Paulo Morelli cai no mesmo erro. Pior do que não possuir atores negros em seu elenco principal, é reduzir os poucos negros convidados a aparecer na tela a posições de inferioridade. Em apenas dois momentos a negritude aparece. Primeiro, com Baco, o dono do bar que serve bebida, e não tem direito a nenhuma fala. Depois com uma personagem sem nome, passado ou objetivo, que é apenas utilizada como objeto do desejo de Pedro Malasartes, e para alimentar o conflito amoroso com seu verdadeiro par romântico, Áurea (Ísis Valverde). Assim, o mundo rural brasileiro continua a ser retratado com tons mais brancos que a realidade, e a mostrar o negro apenas numa posição de subserviência. Se isso já é problemático mesmo em novelas que se passam no período de escravatura, é injustificável em um conto popular sem data certa.

Imagem do filme Malasartes e o Duelo com a Morte, no bar, com o atendente negro Baco - Foto de André Brandão
Mesmo que Baco tenha um correspondente no submundo, onde é literalmente o Deus do Vinho, a falta até mesmo de diálogo mostra a pouca preocupação com a questão racial no filme. Foto de André Brandão.

Apesar desses problemas, Malasartes e o Duelo com a Morte é uma adição interessante ao cinema brasileiro. Ao reaproveitar o sistema de núcleos das novelas, a narrativa consegue dar conta de um número grande personagens cujas ações se cruzam, sem que o espectador fique confuso em relação à progressão da trama. O roteiro é bem escrito ao ponto de, apesar de utilizar elementos já conhecidos, garantir certo nível de surpresa. E ver os créditos do filme e perceber que toda a produção digital foi realizada por nomes brasileiros é também uma vitória para a produção nacional. No geral, Malasartes e o Duelo com a Morte é divertido, bem dirigido, e tem um roteiro sólido. Seus maiores pecados estão justamente na tentativa de reproduzir em bloco a linguagem da teledramaturgia da Globo, em seus acertos e seus erros, ao invés de aproveitar apenas o que ela traz de positivo.