Falange Resenha | Mãe!

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Mãe SerpentePor mais diversos que filmes possam ser, a maior parte das produções pode ser medida de forma similar. Seja porque se enquadra em um gênero específico, seja porque utiliza de forma sistematizada os componentes mínimos do audiovisual: roteiro, elenco, fotografia, direção de som. Mãe! (Mother!), o novo filme de Darren Aronofsky, representa um desafio porque propõe uma abordagem única. Um desafio não só para a crítica, mas também para o público, e até mesmo para toda a gama de pessoas que trabalham ao redor da divulgação de um filme.

Não é à toa que o material publicitário de Mãe! cita de forma direta Cisne Negro (Black Swan, 2010), um filme dirigido por Aronofsky que utiliza a estética de horror para tratar da esquizofrenia. E os trailers, internacionais e nacionais, focam sua atenção em um mistério com elementos sobrenaturais. A melhor forma, então, de começar honestamente essa resenha é falar sobre o que está além do filme. Colocar no centro da discussão aquilo que Mãe! não é. Mãe! não é um filme de terror. Mãe! não é um filme de suspense. E por mais que esteja longe de possuir uma construção realista, Mãe! não é uma obra que lida com o sobrenatural. O filme é uma alegoria, e o fato de não ser tratado como tal cria o risco de um público decepcionado, o que, por sua vez, se desdobra em um fracasso de bilheteria.

Meramente ilustrativa

Quem não é fã de cinema ao ponto de acompanhar seus bastidores pode se surpreender com a informação: quem produz o filme, na maioria das vezes, não produz o trailer. As distribuidoras são responsáveis pela divulgação, e muitas vezes chegam a terceirizar o serviço. E se todo mundo sabe que o objetivo do trailer é mostrar o que há de melhor no filme, para vender ingressos de cinema, é extremamente problemático quando a campanha ganha vida própria ao ponto de vender o produto errado. E vender um filme como um terror falso é receita certa para fracasso.

A Vila (The Village, 2004) sofreu muito com a quebra de expectativa do espectador, e milhares de brasileiros até hoje falam orgulhosos que o filme é péssimo. Pelos motivos errados, já que foi prometido horror onde ele não existia. O mesmo aconteceu com A Colina Vermelha (Crimson Peak), de Guilhermo del Toro, mais recentemente. Era para ser um romance gótico, foi vendido como o ápice dos sustos. Se essa resenha perde tanto tempo para discorrer sobre a campanha publicitária, é porque o aviso é necessário. Porque os trailers da Paramount não representam o que se irá encontrar na sala de cinema. Então, para decidir se Mãe! é adequado para você, outras coisas precisam ser levadas em consideração.

Mãe! | Uma alegoria

Quando a Mãe diz que Mãe! é um filme alegórico, isso significa dizer que existe um tema central por detrás do filme. Mas, ao invés de contar a estória de maneira literal, Aronofsky decide construir uma metáfora. O interesse pela alegoria, dessa forma, é compreender de que se trata a metáfora, e como os detalhes do que se mostra na tela estão relacionados com esse sentido secreto. Embora muito pouco possa ser dito sobre a narrativa de Mãe! sem que se estrague a surpresa, é bom apontar que duas reações opostas parecem se desenhar na saída dos cinemas em todo o mundo. De um lado, há quem louve a genialidade de Aronofsky, encontrando sentidos múltiplos e incontestáveis em cada uma das cenas. De outro, há quem desdenhe do filme, alegando que tudo não passa de uma sequência sem sentido de acontecimentos desconexos. De uma forma mais realista, o ideal é que se espere algo entre esses dois extremos.

Sim, Mãe! possui um sentido próprio, um significado metafórico por detrás de um roteiro que, à primeira vista, pode parecer intransponível. Isso não faz da alegoria de Aronofsky genial em si. O sentido geral da obra, na verdade, é mais simples do que as primeiras reações podem fazer parecer. E para quem acompanha a obra do diretor, principalmente sua obra mais recente, a chave de compreensão de Mãe! não é tão difícil de encontrar. Encontrada essa chave, toda a trama se explica, e as referências parecem cada vez mais óbvias. De maneira geral, Mãe! é um filme presunçoso, cheio de si, que se esforça para parecer mais complexo e inteligente do que na verdade é. O resultado global não é tão bom quanto as melhores críticas, nem tão ruim quanto as piores. Os elogios e ofensas parecem, na verdade, derivar da incapacidade de compreender a obra.

Javier Bardem e Jennifer Lawrence em Mãe!, ou mother!.
Não se assuste se o filme parecer confuso logo no início. Mantenha a mente aberta, e não se apegue muito a uma teoria logo de cara. E lembre-se: o que parece óbvio, algumas vezes é.

Apesar disso, Mãe! alguma guarda diversas surpresas interessantes, e quando se decompõe o filme em partes menores, Aronofsky reserva uma experiência estética interessante para os amantes da sétima arte.

Partes pelo todo

Não faltam exemplos de filmes em que o todo compensa por algumas partes. Um filme pode ser uma experiência ótima, mesmo que nem todos os atores tenham a mesma qualidade. Ou talvez a trilha sonora não seja tão boa. Quem sabe a fotografia, ou a direção de som. Em Mãe!, o efeito é contrário. Por mais que a alegoria geral seja medíocre, e apenas disfarçada atrás de uma falsa genialidade, os elementos mínimos da obra já podem valer uma ida ao cinema. Primeiro, é necessário falar do elenco. Jennifer Lawrence, como Mãe, e Javier Bardem, como Ele, já dão todo o peso do elenco. A atuação de ambos é tão presente que, em muitas cenas, apenas suas feições guiam o espectador por toda a trajetória emotiva pretendida.

A câmera de Aronofsky auxilia nesse processo. Os cortes fechados nos rostos das personagens serve também para limitar a visão do espectador. Sem saber o que se passa em toda a extensão do cenário, o efeito granulado das imagens e a completa ausência de som em diversos momentos causam desconforto. E esse desconforto é essencial para a compreensão da mensagem final de Mãe!. Se Aronofsky é menos inteligente do que ele próprio se considera, na construção de sua metáfora, sua qualidade como diretor é indiscutível. O movimento da câmera, seguindo de perto a personagem de Jennifer Lawrence, ajuda o público a se identificar com a Mãe da estória, confusa em meio a uma realidade cada vez mais surreal dentro de seu próprio lar.

Cena de bastidores de Mãe!, ou mother!. Jennifer Lawrence é filmada de perto por Darren Aronofsky, que está com uma câmera nas mãos.
Darren Aronofsky dá preferência a um uso próximo e manual da câmera em quase todo o filme.

Por fim, embora não seja um filme de terror, Mãe! possui cenas que podem ser consideradas fortes, e até mesmo indigestas. Nessas cenas, a intenção de tirar o espectador de sua zona de conforto é alcançada com uma qualidade técnica impecável. Mãe!, então, é uma experiência estética brutal, visceral até. Mas deve ser encarado como isso, uma experiência estética, uma tentativa de forçar seu olhar a ver coisas diferentes, uma oportunidade de se abrir para algo novo em uma sala de cinema. E não um filme de suspense, como limita sua campanha publicitária.