Falange Resenha | Liga da Justiça

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema do QG. Hoje vou falar de Liga da Justiça (Justice League), nova aventura dos super-heróis da DC que o Náusea ainda não viu porque ficou com preguiça de acordar cedo. Eu evitei deliberadamente entrar em contato com qualquer material promocional do filme para ser surpreendido por qualquer coisa, mas se você não for tão paranoico quanto eu, assista ao trailer abaixo:

Há pouco mais de um ano, o legado da DC nos cinemas tinha um problema. Não que alguém tenha esquecido, mas Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman vs Superman: Dawn of Justice, 2016) dividiu as opiniões da pior forma possível, além de ter arrecadado muito menos do que os estúdios da Warner esperavam. Os principais erros do filme eram o excesso de subtramas mal aproveitadas, a necessidade de se estabelecer uma franquia sem se preocupar com o desenvolvimento dos personagens e o tom soturno que sugeria uma trama densa que jamais aconteceu. O anúncio das refilmagens de cenas de Liga da Justiça e adição de Joss Whedon à produção só provaram que toda a má publicidade doeu no bolso do estúdio, que tomou medidas mais que imediatas para que a galinha dos ovos de ouro da vez não morresse.

As mudanças na abordagem à trama já ficam claras logo na primeira cena de Liga da Justiça: em um flashback, crianças filmam Superman com um celular e fazem perguntas bobinhas que logo ganham o público. Afinal, quem não gosta de vídeos de crianças fofas no celular? O meu medo, é claro, era que o filme acabasse dependendo demais desses artifícios só pra cair nas graças do público, mas, para a surpresa de ninguém, a mão de Joss Whedon no roteiro foi o elemento que o Universo Estendido da DC precisava para decolar.

Imagem de Liga da Justiça mostra Barry Allen com o uniforme de Flash
Flash (Ezra Miller) é um alívio cômico eficiente

Liga da Justiça tem bem mais piadas que Batman vs Superman, como era de se imaginar, mas é importante enfatizar que o longa não peca pelo excesso e também não prefere que a piada ganhe prioridade sobre algumas cenas mais sérias, como acontece frequentemente na Marvel e o tempo todo em Thor: Ragnarok (2017). Melhor ainda, o filme se sente confortável em colocar Flash (Ezra Miller) como alívio cômico para não forçar todos os personagens a serem engraçadinhos. Isso é um grande mérito que, apesar de diminuir bastante a importância de Flash, não o descarta completamente como um personagem que não se deve levar a sério. Isso acontece porque Barry Allen é representado como um jovem que ainda se empolga com banalidades e não sabe a extensão dos próprios poderes.

Mulher-Maravilha e a Liga da Justiça

Além disso, Whedon e Chris Terrio compreenderam que tanto O Morcego quanto Filho de Kypton perderam o protagonismo com a chegada da Mulher-Maravilha (Gal Gadot), que não só é a personagem com mais espaço na narrativa como estrela (novamente) as melhores cenas de ação do filme. Não que Bruce Wayne (Ben Affleck) e Clark Kent (Henry Cavill) não sejam importantes para a trama, mas Clark tem limitações óbvias (relacionadas ao fim de Batman vs Superman) e Bruce acaba não sendo muito mais do que o cara que reuniu os heróis que precisam lutar contra o vilão que deseja reunir as Caixas Maternas.

Mas precisamos falar sobre esse vilão. Snyder, juntamente com sua equipe, tomou a decisão que se tornou o ponto mais fraco de Liga da Justiça: compor um vilão que é inteiramente digital. Não que a tecnologia CGI não tenha evoluído o suficiente para que um personagem computadorizado seja parte do elenco, mas a técnica aqui nem de longe é tão bem usada quanto na trilogia recente do Planeta dos Macacos, por exemplo, em que César é mostrado em primeiríssimo plano para que o espectador tenha a chance de analisar cada detalhe da composição. Em contrapartida, não existe um único frame em que o espectador tenha dúvida de que Steppenwolf (voz de Ciarán Hinds) é um boneco digital, e isso prejudica bastante a credibilidade de sua ameaça, ainda mais quando seus diálogos acabam se parecendo com cutscenes de um jogo de videogame.

Imagem de Liga da Justiça mostra Flash, Batman e Mulher Maravilha lado a lado
Excesso de CGI é o maior problema do filme

Não que o resto do filme se saia melhor com o uso do CGI. Snyder utiliza a técnica como quem não teve orçamento para construir pelo menos alguns elementos de verdade ou no mínimo algumas maquetes – o excesso de computação chega a distrair em vários momentos, principalmente nas cenas de luta, nas quais o cineasta faz a triste escolha de utilizar planos fechados que não só deixam os divertidos combates confusos como também pouco exploram o cenário (que com certeza deve ter uma aparência melhor no storyboard). Isso tudo pode ser o resultado das refilmagens que levaram os atores de volta para o estúdio para que atuassem diante de telas azuis/verdes, mas pouco importa. Snyder mais uma vez erra a mão em utilizar o recurso como carro-chefe e o resultado é que nenhuma ameaça parece real o suficiente para nos fazer temer pelo destino dos personagens.

Isso, contudo, não impede que a trama seja divertida de se acompanhar. As Caixas Maternas são um ótimo plot device pois garantem cenas de ação em pontos estratégicos e que escalam de importância à medida que os artefatos são perseguidos. A primeira delas já é ótima: a sequência em que as amazonas defendem a Caixa com unhas e dentes definitivamente é uma das melhores do filme. Só incomoda um pouco o fato de a terceira Caixa ser ofuscada pelo surgimento de um personagem importante, mas fica claro que Whedon e Terrio tiveram que escolher entre duas cenas de ação e optaram pela mais dramática, que é também a única que traz alguma emoção e conflito moral no filme todo.

Isso é especialmente importante quando o espectador percebe que os conflitos morais não são o ponto forte do roteiro de Whedon e Terrio. Em determinado momento, a Liga é forçada a tomar uma decisão que pode trazer sérias repercussões para o mundo e, de todos os envolvidos, Diana é a única que parece querer debater as implicações da arriscada decisão. Para piorar, ela rapidamente muda de lado sem que ninguém tenha que convencê-la de que estão executando o melhor plano e fica por isso mesmo.

Por outro lado, o roteiro acerta em cheio na estrutura: se os subplots deixaram Batman vs Superman sem foco nenhum, Liga da Justiça fornece um pouco de contexto rápido e objetivo dos personagens para que os espectadores tenham uma ideia do que se passa na cabeça de cada um deles – e do segundo ato em diante a trama se foca nas Caixas Maternas e nada além disso, o que garante uma trama enxuta que (olha que surpresa, Zack Snyder), funciona super bem e de forma bastante clara em duas horas que passam voando.

Zack Snyder sendo Zack Snyder

Apesar dos meus problemas com Zack Snyder, é preciso enfatizar que suas manias como diretor surgem de forma bem mais contida dessa vez. Mais uma vez, o cineasta revela seu talento para criar boas sequências de créditos iniciais, além de planos evocativos que, por mais que tenham como objetivo agradar à fanbase, não são jogados de forma gratuita na tela como em Batman vs Superman. Dessa vez, os planos são orgânicos e incluídos no filme de uma forma que, se você identificar a referência, ótimo. Caso contrário, o filme seguirá sem que a cena pareça estar fora de lugar. São só às câmeras lentas que Snyder não consegue resistir: elas surgem aqui novamente aos montes, mas a pior – e mais brega – delas é uma em que um determinado personagem desvia de uma bala como se o bullet time de Matrix (1999) ainda estivesse em alta.

Imagem de Liga da Justiça mostra Mulher Maravilha tomando a dianteira com Aquaman e Ciborgue ao fundo
Zack Snyder consegue criar planos icônicos mais orgânicos que em “Batman vs Superman”

No fim das contas, Liga da Justiça tem muitas piadas óbvias (“É tipo uma batcaverna!“), mas elas funcionam na maioria das vezes. A fotografia está bem mais clara, mas ainda assim num tom que dá pra se levar a sério (eu só dispensaria as constrangedoras flores que nascem em diversos lugares em certo momento do filme). Alguns elementos deixam claro que o roteiro foi mexido mais do que deveria, como uma narração em off de Lois Lane (Amy Adams) que surge aleatoriamente só pra conferir um tom mais dramático a uma cena. Mas mesmo com seus problemas, o longa termina como um filme muito mais bem resolvido que Batman vs Superman, com uma narrativa minimamente coesa, objetivos claros e uma lição importante: cenas pós-créditos devem ser colocadas depois dos créditos, não durante o filme. Vivendo e aprendendo, tio Snyder. Vivendo e aprendendo.

O que aprendemos com Liga da Justiça? Existe salvação para a DC nos cinemas!

Lição de casa: Procurar filmes de ação em que os efeitos digitais ajudem na credidibilidade ao invés de atrapalhá-la.