Falange Resenha | Legion – 1ª Temporada

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Vinheta da Mãe SerpenteJá em seu primeiro episódio, Legion prometia uma experiência inédita para a representação de heróis na televisão. Com o uso criativo de luzes, enfoques e cores, a série utilizava a confusão do telespectador como elemento central para a trama. Muito adequado, em um projeto que pretendia utilizar o universo dos X-Men para explorar a loucura e a percepção. Com o final da primeira temporada, já podemos afirmar que a tendência do piloto se manteve presente ao longo de todos os oito episódios. E Legion se prepara para sua continuação como uma das séries mais promissoras dos últimos anos.

Como em nossa resenha do primeiro episódio já foi possível traçar as características e referências de toda a série, a resenha da temporada completa irá necessariamente incluir spoilers. Não quer ter spoilers mas gostaria de saber se a série vale a pena? É só ler a resenha do primeiro episódio.

Legion | Direto dos quadrinhos

A trama desenhada logo no primeiro episódio é a mesma que será desenvolvida ao longo da série. David Haller tem esquizofrenia, mas aos poucos descobre que seus problemas mentais, na verdade, estão relacionados de forma íntima com seus poderes. Isso porque David é um mutante, dotado de habilidades psíquicas sem precedentes. Por conta disso, David acaba por se envolver em uma guerra que não compreende muito bem, entre agentes governamentais que desejam subjugar os mutantes, e um grupo de resistência que deseja acabar com sua perseguição. Essa é uma temática central para os quadrinhos dos X-Men.

A simplicidade desse plano de fundo é extremamente funcional, já que o objetivo da primeira temporada não é desenvolver o conflito em si. A continuidade da trama, ao invés disso, gira em torno do desenvolvimento das personagens, em especial de David. Aos poucos, David precisa aceitar que não está necessariamente louco, e precisa enfrentar seus demônios internos. De forma metafórica e literal. Isso porque o inimigo principal de David em sua primeira aparição nas telinhas é ninguém menos que o Rei das Sombras.

Parte significativa da identidade de David, o Rei das Sombras passou a residir em sua mente quando ele ainda era um bebê. Desde então, o rei das Sombras tem alterado suas memórias e se alimentado de sua enorme energia psíquica.

Para quem só passou a acompanhar o universo de heróis há pouco tempo, pelo cinema, a revelação não tem muito peso. Mas o Rei das Sombras é um dos principais inimigos de Charles Xavier, o líder dos X-Men, e pai de David Haller. A série ainda não deixou claro se a origem de David será similar à dos quadrinhos. Porém, já sabemos que o pai de David é um mutante extremamente poderoso, que utilizou seus poderes mentais para lutar com o Rei das Sombras no Plano Astral. O Rei das Sombras, por sua vez, é uma entidade que invade a mente de outros seres, mutantes com poderes psíquicos, para se alimentar de sua energia, como um parasita.

Legion Rei das Sombras Charles Xavier
A batalha do pai de David com o Rei das Sombras foi vista na forma de animação em giz. Apesar de ninguém ter mencionado o nome de Charles Xavier até agora, aquela careca é suspeita…

Para amarrar todas essas referências, e ao mesmo tempo agradar quem não compreende o vasto, e muitas vezes confuso, universo dos X-Men, a série introduz aos poucos cada um dos elementos. A exposição do vilão, dos poderes mentais de David, e de seu passado, é lenta, gradual, mas extremamente bem conduzida. Mesmo porquê não ocupa o foco principal de cada episódio. A aparente simplicidade narrativa é um recurso utilizado para explorar ao máximo a qualidade estética da série, e, nesse ponto, igualar fãs de quadrinhos, e quem nunca se importou em ler as estórias originais.

Técnica ligada à narrativa

A questão da loucura, e da aceitação da diferença, é um dos eixos principais dessa narrativa, e o modo como cada episódio lida com sua excelente edição de imagem e som serve como reflexo dos temas explorados. O silêncio é utilizado tão bem quanto a trilha sonora, recheada de faixas clássicas do pop e do rock. Cores fortes recheiam algumas cenas, enquanto o preto e o branco compõem outras. A mudança entre passado e presente, e realidade e sonho, são constantes e frequentes, com o uso intenso de ângulos diferenciados, e recursos visuais que vão desde a câmera lenta ou acelerada, à duplicação de personagens.

Entre as cores da série, o azul e o vermelho dominam diversos cenários, muitas vezes indicando dualidade, ou mesmo conflito e perigo.

Cada episódio, e cada cena, é pensada de modo a refletir da forma mais precisa possível toda a confusão causada pela mente de David, em seu confronto interno com o Rei das Sombras. Os personagens secundários também contribuem para as possibilidades criativas da série, já que seus poderes também são extremamente desafiadores de produzir e compreender. Syd Barret (Rachel Keller) troca sua mente de corpo com as pessoas em quem toca; Ptonomy Wallace (Jeremie Harris) acessa e projeta memórias, de si e de outros; Kerry Loudermilk (Amber Midthunder) compartilha o corpo de Cary Loudermilk (Bill Irwin), sendo capaz de ora estar do lado de dentro, ora do lado de fora.

A escolha dos mutantes de Legion é louvável também por fugir dos clichês habituais em produções de heróis. Seus poderes não se resumem a diferentes formas de lançar raios, elétricos, de fogo ou de gelo. Nem apelam para super força, ou velocidade. São sempre ligados a capacidades mentais, de alguma forma, e contribuem para a continuidade temática da série. Como essas personagens também são criadas diretamente para a televisão, ao invés de retiradas dos quadrinhos, a falta de antecedentes dá mais liberdade à equipe, além de possibilitar que fãs de longa data e novatos compartilhem das mesmas surpresas.

Apesar das complicações que esse tipo de abordagem impõe para a verosimilhança, todo o elenco se mostra extremamente capaz de dar vida e coerência para essa diversidade de personagens. Além de David, é necessário também destacar a atuação de Aubrey Plaza, no papel de Rei das Sombras, e Jamaine Clement, como Oliver Bird, um homem que passou tantos anos no Plano Astral que ainda está preso nas décadas de 80/90.

Oliver Bird. Mutante telepata, habitante do Plano Astral e… poeta da Geração Beat.

O formato de série e a continuidade

Legion também tem grandes acertos em relação à sua escolha de formato. O formato de oito episódios é suficiente para concluir o primeiro arco sem excessos ou correria. E Legion utiliza a estrutura de arcos! Como séries costumam ter pausas de muitos meses entre uma temporada e a seguinte, o ideal é que cada temporada seja capaz de concluir um estória própria, mesmo que aponte para a continuidade. Essa imposição temporal muitas vezes resulta em séries extremamente fechadas, que não se abrem para novas estórias e, por isso, não geram uma saudável ansiedade nos fãs. Ou em séries que não se preocupam com conclusões, e simplesmente interrompem uma estória sem desfecho.

O final da temporada representa o fim do confronto inicial entre David e o Rei das Sombras. Também desenvolve com perfeição um desfecho para o conflito entre os mutantes e o governo. Ao mesmo tempo, a série se preocupa em construir um novo mistério, a ser explorado em um arco futuro, e introduz uma cena extra que certamente irá ocupar os fãs em desenvolver muitas teorias enquanto esperam o retorno de Legion.

E já na expectativa que David e Oliver encontrem os outros dois membros necessários, vamos encerrar com um excelente exemplo de Quarteto de Barbearia.

 

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.