Falange Resenha | Kingsman: O Círculo Dourado

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange. Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema no QG. Hoje vou falar sobre Kingsman: O Círculo Dourado, continuação de Kingsman: Serviço Secreto, que é estrelada por Taron Egerton, Colin Firth, Julianne Moore, Mark Strong, Pedro Pascal, Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges e Elton John. A aventura manda Eggsy (Egerton) para os Estados Unidos quando o quartel general dos Kingsman é destruído e uma nova vilã excêntrica faz o mundo de refém.

imagem de Kingsman 2: O Círculo Dourado mostra Eggsy (Taron Egerton) de terno e olhando para a câmera em um cenário de bar

Um dos elementos que mais destacou Kingsman: Serviço Secreto (Kingsman: The Secret Service, 2014) na época da estreia foi a forma casual com que o roteiro jogava piadas irreverentes na tela, sem se preocupar com o fato de que isso restringiria o acesso de uma parcela mais jovem do público. Ainda assim, a aventura arrecadou mais de 400 milhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo, um número que surpreendeu tanto o estúdio quanto os fãs.

Uma continuação acabou se tornando inevitável, ainda mais considerando que o material de origem é uma série de quadrinhos – uma das grandes minas de ouro do cinema atual. Então, se você faz parte do grupo que achou que as sequências de ação e as piadas fizeram do primeiro um grande filme, Kingsman: O Círculo Dourado vai te agradar bastante.

Kingsman | Em time vencedor não se mexe?

O diretor Matthew Vaughn (que ressuscitou a franquia X-Men nos cinemas e fez Kick-Ass acontecer) se juntou à roteirista Jane Goldman para apostar numa trama que basicamente repete o que deu certo no filme original em uma escala um pouco maior (cortesia de 20 milhões de dólares a mais injetados no orçamento). A boa notícia é que o repeteco da fórmula funciona na maioria das vezes – a sequência de ação mais fraca é a primeira, que, num carro em movimento, ganha contornos tão cartunescos que, a certa altura, não é possível temer pelo destino de nenhum dos personagens envolvidos. A notícia ruim é que, em termos de franquia, a trama não avança muito.

O único personagem que ganha algum desenvolvimento, na verdade, é o próprio Eggsy, que no primeiro ato tenta levar uma vida normal apesar de ser um Kingsman e ter ajudado a salvar o planeta uma vez. Além disso, em um dos raríssimos momentos tocantes do filme, ele é forçado a segurar a emoção quando a namorada menciona Harry (Firth), seu mentor e figura paterna.

Imagem de Kingsman 2: O Círculo Dourado mostra Harry (Colin Firth) fazendo a barba diante de um espelho e usando um tapa-olho no olho esquerdo.
Retorno de Harry (Colin Firth) trouxe mais problemas do que soluções.

Harry, inclusive, é o maior problema de Kingsman: O Círculo Dourado. A energia de Colin Firth na tela contribuiu imensamente para que o primeiro filme funcionasse, mas é exatamente por isso que a morte dele foi tão impactante. Nem Eggsy nem o público esperava por aquilo, o que servia ao mesmo tempo como arco dramático e uma evidência da imprevisibilidade da trama. No entanto, o retorno de Harry (revelado nos trailers) não só apaga uma das melhores decisões criativas da história como inclui uma explicação “científica” risível que acaba se tornando uma muleta narrativa desagradável. Como se isso não fosse ruim o suficiente, o roteiro não sabe o que fazer com Firth, que ganha uma divertida mas irrelevante subtrama envolvendo sua visão, que é esquecida quando conveniente.

E de esquecidos o roteiro de Kingsman parece entender bastante. A Statesman, que é a versão americana da Kingsman, representa uma ideia divertida de como a agência secreta se estabeleceu na América do Norte – e as piadas com nomes de bebidas funcionam todas as vezes que são mencionadas. O competente design de produção também não hesita em incluir na tela um prédio em forma de garrafa gigante e decorar os escritórios com a madeira que remete aos barris de vinho. O problema é que 75% dos integrantes da Statesman são esquecidos! Channing Tatum é logo descartado (mesmo que sua ausência seja mal justificada na cena final), Jeff Bridges passa quase despercebido e Halle Berry, apesar de estar em cena com frequência, não contribui em absolutamente nada para a trama. Só quem se destaca de verdade é Pedro Pascal, que, além de ser uma das figuras mais divertidas do filme, protagoniza com seu laço e chicote as sequências de ação mais inventivas e eletrizantes da aventura.

imagem de Kingsman 2: O Círculo Dourado mostra pedro pascal frente a frente com uma mulher loira
Pedro Pascal protagoniza as melhores cenas do filme.

O que nos traz à verdadeira estrela de Kingsman: o Círculo Dourado – quando Elton John surge na primeira cena, tudo sugere que sua participação seria apenas uma alusão ao primeiro filme, em que uma estrela da música também é sequestrada. No entanto, Elton surpreende ao ganhar cada vez mais espaço na trama e revelar um timing cômico inesperado, de forma que lá para o terceiro ato ele acaba se tornando mais importante que Tatum, Berry e Bridges juntos.

É também no terceiro ato que as loucuras da trama funcionam de forma mais orgânica (uma rosquinha gigante que passa rolando no meio de uma sequência de ação é recebida com bastante normalidade) e revela que, no fim das contas, o saldo da aventura foi positivo. Apesar do roteiro não saber muito bem o que fazer com a maioria de seus personagens, os grandes atrativos que são as cenas de ação frenéticas e a irreverência narrativa estão todos lá e raramente decepcionam. As risadas e a diversão surgem em boas doses, e são exatamente os elementos que conquistaram o público da primeira vez – e conquistarão de novo.

O que aprendemos com Kingsman: O Círculo Dourado? Não adianta ter um elenco estelar se você não sabe o que fazer com metade dele.

Lição de casa: Procurar outros filmes em que grandes atores são desperdiçados.