Falange Resenha | Jogos Mortais: Jigsaw

0

Vinheta da Mãe SerpenteJogos Mortais (Saw) se tornou uma franquia tão significativa para o horror que durante sete anos seguidos, de 2004 a 2010, um novo filme era lançado todo Dia das Bruxas. Apesar de inúmeras falhas com o elenco, roteiro e até mesmo montagem e edição de som ao longo de sete filmes, Jogos Mortais acumulou um bilhão (BI-LHÃO) de dólares em bilheteria porque baseou todo seu sucesso em filmes de baixo orçamento direcionados para fãs; espectadores ansiosos para ver que novo e criativo jeito o assassino Jigsaw encontrou de torturar suas vítimas.

Depois de um recesso de sete anos, a ideia de reviver a franquia era perigosa. O cinema de tortura já não tem o mesmo prestígio que há uma década, e reutilizar uma mitologia querida é sempre um risco por si só. Existia, então, dois caminhos que Jogos Mortais: Jigsaw poderia seguir para garantir seu sucesso. O primeiro seria retomar a mesma estrutura utilizada à exaustão pela franquia, na retomada e ressignificação de cenários e eventos já conhecidos. Repetitivo, mas funcional para atender os seguidores de Jogos Mortais. Outra opção seria reinventar a fórmula e assim, quem sabe, conquistar um público novo. Infelizmente, Jigsaw fica no meio do caminho, sem ser diferente o suficiente para se sustentar por conta própria, nem igual o suficiente para respeitar as escolhas estéticas e narrativas dos filmes anteriores.

Diferente do original…

Em todos os sete filmes anteriores, era comum ver cenas inteiras utilizando uma única paleta de cores, o que ajudava a construir o aspecto fechado e obscuro da franquia. Mudanças bruscas na velocidade de algumas cenas e a repetição de frames específicos também se tornaram marca registrada, independente da mudança de diretores que a série passou ao longo de anos. Inicialmente confusa, a forma de explorar ângulos pouco usuais, repetir cenas e retomar imagens logo se tornou característica de Jogos Mortais. Até agora. Os diretores de Jigsaw, os irmãos Spierig, não parecem muito preocupados com a tradição visual.

Com uma tela muito mais limpa e ações mais claras, os Spierig se preocupam menos com os truques de câmera e mais com a nitidez de cada cena. Na visão dos diretores, é necessário que todos os acontecimentos fiquem tão claros quanto possível para os espectadores. Uma escolha duvidosa, já que a confusão é necessária para que a fórmula de Jogos Mortais funcione, especialmente para fãs acostumados às viradas dos filmes, e preparados para identificar de que forma detalhes fora do lugar servem de pista para a revelação derradeira no final de cada filme. A clareza das imagens permite que indícios demais sejam mostrados, e Jigsaw é o filme menos surpreendente da franquia também por culpa da direção.

Imagem de Jogos Mortais: Jigsaw, que mostra Billy, the Puppet em uma gravação em VHS.
Outro erro da produção é mudar a identidade visual de Billy, the Puppet. Principalmente sem nenhum tipo de justificativa. Se o objetivo é atrair fãs, é necessário ter cuidado com símbolos já consagrados.

Apenas a título de exemplo, pela primeira vez em oito filmes, sentiu necessidade de incluir uma explicação narrada por uma personagem no momento final do filme, como se o público fosse incapaz de juntar por conta própria as peças do quebra-cabeça. E se a exposição é um recurso dispensável do cinema, chega a ser ofensiva em uma franquia que se propõe a brincar com personagens e espectadores ao mesmo tempo, subvertendo verdades consolidadas e mostrando que a resposta estava sempre na frente de olhos mais atentos. Se todas essas mudanças indicassem uma abordagem original para a mitologia de Jigsaw, as escolhas poderiam ser justificadas. Mas o novo Jogos Mortais não consegue se desprender dos filmes antecessores em nenhum momento, e sem se preocupar com a verossimilhança, até mesmo as armadilhas se tornam menos interessantes.

…Mas incapaz de ser novo

Os sete filmes originais têm a vantagem do tempo a seu lado. Cada nova produção, melhor ou pior que a anterior, introduzia elementos sutis para que fossem retomados em obras futuras. É assim que, com um novo filme por ano, a franquia Jogos Mortais construiu um grande roteiro, único, cheio de retomadas e viradas bruscas de roteiro. Sete anos depois é impossível reproduzir o mesmo efeito com precisão, mas é isso que o roteiro de Jigsaw pretende. A premissa de um retorno de John Kramer, direto do túmulo, não consegue se sustentar, mesmo porque a autópsia do assassino, no quarto filme (2007), ainda é uma das cenas mais brutais da franquia. Além disso, a existência de ajudantes e parceiros sempre foi importante o suficiente para que nenhum suspense surja da ideia de ressurreição.

Imagem de Jogos Mortais: Jigsaw, que mostra um policial segurando um saco plástico com pedaços de pele em forma de peça de quebra-cabeças.
Peças de quebra-cabeças, mortes violentas, policiais incompetentes não são suficientes para um bom ‘Jogos Mortais’. Falta coerência e viradas de roteiro de tirar o fôlego em ‘Jigsaw’.

O maior de todos os problemas de Jigsaw, no entanto, está em suas armadilhas. Mesmo quando o roteiro fraquejava, e atuações medíocres povoavam a tela, o espectador ainda podia se divertir com a genialidade de John Kramer, na criação de máquinas de tortura cada vez mais complexas. As armadilhas e jogos sempre foram interessantes por si próprias, pelo modo como sua temática se relaciona com os crimes de cada vítima, e pela incrível verossimilhança que os jogos mantinham dentro do universo de Jogos Mortais. Já em Jigsaw, assim como Jogos Mortais VII (2010), o funcionamento de cada armadilha é duvidoso, e boa parte dos acontecimentos parece depender inteiramente da sorte e do acaso.

Contando com efeitos de gravidade irreais e escolhas improváveis de suas personagens, o Jigsaw do novo filme é menos brilhante do que já foi, e por isso menos interessante. Ainda assim, é sobre a mitologia de John Kramer que o novo filme se constrói, cometendo, de novo, o erro da franquia de dar detalhes demais sobre o passado do assassino. O uso excessivo de recursos digitais também torna diversas cenas cômicas de forma não intencional; uma pena, já que o sétimo filme já havia mostrado que a violência explícita nem sempre é um recurso enriquecedor para a franquia; a armadilha de urso reversa era mais assustadora no primeiro filme do que quando seu efeito foi mostrado em detalhes.

Imagem de Jogos Mortais: Jigsaw, que mostra uma das vítimas de John Kramer, ao fundo, olhando para uma espingarda em primeiro plano.
Os melhores jogos são os mais simples. A lição de John Kramer parece não ter sido aprendida pelo próprio filme que a retoma.

A herança de Jigsaw

Com claras intenções de se tornar uma nova franquia, Jogos Mortais: Jigsaw talvez não atraia atenção o suficiente para garantir um segundo filme. Reboots leves só funcionam quando é possível se desprender do material original e utilizar uma abordagem criativa, o que o filme não faz. E continuações diretas dependem demais do carinho e da memória de fãs, que certamente se sentirão decepcionados ao ver que, assim como no capítulo final, a coerência interna foi completamente abandonada em troca de um espetáculo vazio de mortes sem sentido.
O filme ainda é capaz de ser um bom entretenimento para aqueles que realmente gostam de sangue e de violência, mas é necessário um exercício de suspensão maior do que nos melhores capítulos da franquia. E considerando o grande tempo de produção que a equipe teve a seu dispor, talvez seja melhor rever outros capítulos da saga de Jogos Mortais.