Falange Resenha | It – A Coisa (2017)

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Vinheta da Mãe SerpenteUma palhaço monstruoso que vive nos esgotos e se alimenta do medo e da carne de crianças inocentes. O conceito poderia ser considerado brega, digno de filmes trash sem nenhuma preocupação com verosimilhança. Stephen King, no entanto, conseguiu escrever um de seus livros de maior sucesso a partir dessa ideia. E isso quer dizer muita coisa, já que Stephen King é um autor de dezenas de grandes sucessos. It, ou A Coisa, foi publicado em 1986. Em 1990 o livro virou uma minissérie, e a interpretação de Tim Curry do palhaço Pennywise é o que tornou a produção um clássico, apesar de suas inúmeras falhas. Agora, It é novamente adaptado, para o cinema, como uma estória dividida em dois filmes. E se o primeiro capítulo de A Coisa é exemplo do que está por vir, provavelmente teremos a melhor adaptação de uma obra de Stephen King.

It, A Coisa de Bill Skarsgård

A primeira coisa que chama atenção no filme é, de imediato, Pennywise, o Palhaço Dançarino. Em 1990, Pennywise roubou a cena, e se tornou o melhor que a série oferecia. Agora, no filme, o mesmo poderia ocorrer, e não haveria problemas comerciais. O novo ator brilha no filme. Bill Skarsgård é mais conhecido como o Roman Godfrey da série Hemlock Grove (2013 – 2015), e atualmente participou da super produção Atômica (Atomic Blonde, 2017). Mas, sem sombra de dúvida, é um palhaço que irá marcar a carreira do ator. A interpretação de Bill Skarsgård é ainda mais aterrorizante que a de Tim Curry. E não dá para duvidar dos relatos de bastidores que dizem que o elenco infantil chorou com a presença de Pennywise durante as filmagens.

O compromisso de Skarsgård com uma persona que se alimenta de medo é notável. Na forma de se mover, no jeito de sorrir, na fala lenta e arrastada do palhaço. Se o filme conta com diversos jumpscares, em que uma imagem perturbadora salta aos olhos do espectador, são as cenas longas com a presença de It que causam uma sensação mais duradoura de medo. Pennywise não é apenas uma criatura genérica do horror, um monstro escondido atrás de maquiagem e efeitos especiais. Skarsgård tranforma o palhaço em uma ameaça crível, e os recursos de pré e pós-produção servem mais como apoio de sua brilhante interpretação do que como uma muleta visual para o filme. Isso é algo extremamente digno de nota, principalmente no cinema de terror.

Imagem do filme It - A Coisa, baseado no livro de Stephen King. A imagem mostra o rosto ameaçador de Pennywise, segurando um balão vermelho e olhando para a tela,
Os closes fechados, as cenas alongadas e os poucos diálogos de Pennywise constroem as cenas mais assustadores de ‘It – A Coisa’.

Pennywise sem dúvida poderia justificar a ida ao cinema por si só. Mas It – A Coisa, tem muito mais méritos que seu palhaço. O elenco, de forma geral, surpreende, principalmente por se tratar, em sua maioria, de atores crianças e adolescentes. E isso em meio a situações extremamente insalubres, como a reprodução de violência doméstica e abuso. Esse é mais um ponto extremamente forte da obra de King, que trata não só do monstro nos esgotos, mas dos monstros espalhados pelo mundo, e que são uma fonte de medo tão ou mais real que o palhaço.

Drama e aventura

É formidável que a nova adaptação de It não se resuma ao seu aspecto de horror. O livro possui uma carga dramática forte, ao tratar do bullying, do assédio sexual, do racismo, da violência doméstica. Parte da força da criatura dos esgotos deriva de todo o medo e miséria que são reproduzidos pela pequena cidade suburbana, causados por pessoas reais. O pai que acredita ter direito sobre o corpo da filha. O jovem que reproduz os espancamentos de sua casa em crianças menores na escola. O menino negro que é perseguido pela sua cor, como um intruso num reduto branco.

Imagem de divulgação do filme It - A Coisa, baseado no livro de Stephen King. A imagem mostra o Clube dos Otários, as sete crianças que lutam contra Pennywise.
O Clube dos Otários, o grupo de crianças excluídas por seu histórico familiar, religião, cor de pele, peso e gostos pessoais. E que no fim das contas se une para enfrentar a ameaça de Pennywise.

Ainda que o drama não seja o foco do filme, as cenas dedicadas aos conflitos entre as personagens, diretos ou sugeridos, são tratadas com a devida importância. Isso ajuda a tornar o cenário mais complexo, capaz de gerar identificação e reconhecimento. Dessa forma, o perigo sobrenatural também ganha maior consistência, já que é direcionado a personagens distintos, com vivências próprias. Não é apenas um grupo genérico de crianças que luta contra a ameaça secreta.

O lançamento de It – A Coisa também irá se beneficiar do sucesso recente de Stranger Things (2016 -), já que as datas em que ocorrem a estória foram modificadas para que o segundo capítulo seja mais contemporâneo. O livro se passa em dois momentos, 1957 e 1984. Já o filme tem seu primeiro capítulo entre 1988 e 1989, o que desloca a segunda parte para 2015 e 2016. Isso significa que o climão dos anos 80, regado a New Kids on the Block e referências à clássicos da cultura pop, pôde ser aproveitado ao máximo. A união de um grupo de crianças em uma aventura sobrenatural, então, escolheu o momento certo de estreia nos cinemas, já que esse modelo de trama está em alta desde o sucesso da Netflix.

Sensorial

O sucesso literário de It – A Coisa vai além de seu conceito, e mesmo de suas personagens. Stephen King é um mestre do horror porque sua linguagem dá conta de um universo interno incapaz de ser reproduzido com fidelidade pelo audiovisual. A descrição sensorial do cheiro de um porão, ou do toque de uma superfície incômoda dificilmente ganham equivalentes na tela. Isso faz com que, ao longo do filme, determinadas decisões das personagens destoem do que se espera como reação em uma situação similar. São os velhos clichês do horror, que incluem a decisão de seguir sozinho para um local escuro, ou investigar por conta própria algo sinistro.

Essas ações parecem incoerentes, quando deslocadas de um processo de pensamento e de percepção sensorial, que o livro faz questão de descrever. Ainda assim, como se trata de crianças e adolescentes, uma certa inocência, ou curiosidade descabida, pode servir como justificativa que auxilie na imersão. O próximo capítulo de It, no entanto, irá trabalhar com as mesmas personagens depois de 27 anos, quando a vida adulta já sufocou a crença no fantástico, e decisões racionais são mais esperadas. É aí que poderemos confirmar se a nova adaptação de It será capaz de dar continuidade ao excelente primeiro capítulo.

Imagem do filme It - A Coisa, baseado no livro de Stephen King. A imagem mostra um quarto cheio de bonecos e manequins de palhaços.
O quarto de palhaços guarda uma homenagem à minissérie de 1990. Quem consegue encontrar a versão de Tim Curry de Pennywise?

A minissérie de 90 se perdeu com a transição das crianças para a vida adulta, principalmente porque a progressão narrativa difere da obra original. O livro transita entre os dois momentos, e intercala os universos infantil e adulto. A minissérie considerou que uma progressão linear seria mais adequada para a televisão. O resultado decepciona. O novo filme segue a linearidade da minissérie, e fica a preocupação de que o segundo capítulo termine por também ser abaixo do esperado. Principalmente quando o primeiro cria expectativas tão altas. De qualquer forma, já podemos ficar ansiosos pelo retorno de Pennywise, algo que, infelizmente, não deve acontecer até pelo menos 2019.