Falange Resenha | Invisível

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema do QG. Hoje eu vou falar sobre Invisível, drama argentino de Pablo Giorgelli, cineasta que ganhou destaque no circuito independente logo em seu longa-metragem de estreia, o drama As Acácias (Las Acacias, 2011). Em Invisível ele conta a história de Ely, uma menina de 17 anos que não se comunica muito e tem a vida drasticamente alterada ao descobrir que está grávida de um homem muito mais velho. Assista ao trailer abaixo:

Eu não sou grande fã do cinema contemplativo. Não porque eu ache que não há nenhum mérito em simplesmente mostrar um determinado personagem calado e reagindo – ou não – ao ambiente ao seu redor. Meu problema com esse estilo de filmagem é porque às vezes funciona, às vezes não. Tudo depende do quanto você entende a realidade vivida por aquele personagem, e a falta de diálogos pode ser um grande empecilho quando a maioria das cenas de um filme consistem em acompanhar um personagem sem grandes ambições narrativas.

Inclusive, um dos meus filmes favoritos é A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), de Terrence Malick, que na época do lançamento teve uma recepção dividida entre os que amaram e os que odiaram. Quem amou considerou uma obra-prima, e quem odiou acusou o drama de ser uma longa apresentação de slides misturadas com um pouco de Brad Pitt e quase nada de Sean Penn (que inclusive reclamou de sua escassa participação na história). No meu caso, eu consegui me relacionar – e me emocionar – com a forma que o longa traz, com pouquíssimos diálogos, uma reflexão sobre a efemeridade da vida e uma espécie de relato sobre a paternidade.

Invisível em muitos sentidos

Esse tipo de identificação seria fundamental para que Invisível funcionasse. As diversas sequências que ocupam boa parte do primeiro ato são majoritariamente contemplativas, e sem dúvidas são eficientes em estabelecer que Ely é realmente invisível. Ela transita pelos corredores da escola e pelas salas de aula de forma quase imperceptível tanto para colegas quanto para professores. Depois, faz um longo e silencioso trajeto de volta para casa, onde vive com a mãe mas parece viver sozinha, já que a mesma mal interage com ela. Os momentos um pouco mais vivos de Ely são quando ela está na pet shop onde trabalha, mas, ainda assim, só comunica o necessário com seus colegas de trabalho.

Imagem de Invisível mostra Ely no chuveiro e de cabeça baixa
Ely leva uma vida bastante solitária

Ao mesmo tempo que é possível sentir que Ely é uma jovem com sério risco de entrar em depressão, seus motivos de isolamento nunca ficam claros. O estilo contemplativo é eficiente em mostrar o vazio de sua rotina e a forma como é basicamente ignorada por todos ao seu redor, mas, uma vez que isso fica estabelecido, o espectador é “presenteado” com mais sequências contemplativas que só servem para martelar a mesma informação. Eu entendo que Pablo Giorgelli pode ter insistido nas sequências a fim de realmente levar o público para o marasmo que é a vida de Ely, mas existe uma linha tênue que separa o contemplativo do tedioso e, com o perdão do trocadilho, para o roteiro de Giorgelli essa linha parece ser invisível.

A trama ganha alguma força no segundo ato, quando Ely descobre estar grávida (não é spoiler, a informação está no trailer) de um cara muito mais velho. A revelação acaba abrindo a porta para que os planos contemplativos ganhem um pouco mais de significado, mas aí surge outro problema de Invisível. A jovem atriz Mora Arenillas não parece ser capaz de deixar esse novo conflito transparecer em seu rosto – ou Giorgelli não conseguiu extrair isso da performance dela. Ora, se a menina é de classe pobre, está grávida de uma figura que não pode revelar e começa a contemplar o aborto, até as cenas sem diálogos (que continuam existindo aos montes) deveriam passar para o espectador o tamanho do problema que uma jovem de 17 anos tem nas mãos. No entanto, as expressões de Arenillas são basicamente as mesmas que se viram desde o começo do filme, como se nem a gravidez tivesse causado algum tipo de catarse na personagem.

Não que a intenção do filme seja sugerir isso. O roteiro vai no caminho contrário da falta das expressões faciais – depois da gravidez, Ely tem uma discussão com a mãe, toma atitudes diferentes no trabalho e com sua única amiga, o que sugere que a menina passou a ter uma perspectiva um pouco diferente da vida – e isso fica ainda mais reforçado nas cenas finais. No entanto, o potencial desses conflitos se perde na falta de expressão de Arenillas e na falta de diálogos que poderiam pelo menos revelar algumas das angústias de Ely, já que a atuação não trouxe isso para os espectadores.

O melhor elemento de Invisível acaba sendo a fotografia de Diego Poleri, que, cinza do começo ao fim, é eficiente em retratar o universo de Ely e de todos que convivem nele, além da falta de perspectivas futuras de todos. A paleta de cores dessaturada ilustra a pouca vida que há na escola e na casa de Ely para se viver, e a pouca cor que surge no filme é quando a menina se relaciona com alguém. O figurino de Laura Donari também complementa com eficiência a fotografia ao colocar basicamente todos os personagens vestidos de diversos tons de cinza. Essa decisão ganha ainda mais força quando um bebê aparece vestido de vermelho – talvez o único figurino com alguma cor vibrante do longa – e um determinado momento que representa a mudança definitiva de Ely, em que ela veste branco em uma sala branca e tudo representa um recomeço na vida da menina.

O que aprendemos com Invisível? Ou você coloca diálogos para expor alguns conflitos, ou escala atores que consigam expressar tudo que se passa na cabeça do personagem apenas com expressões faciais.

Lição de casa: Assistir As Acácias, filme anterior de Giorgelli, que tem o mesmo ritmo mas foi elogiadíssimo pela crítica.