Falange Resenha | Invasão Zumbi (Train to Busan)

0

Vinheta da Mãe SerpenteUm especial de Mês das Bruxas não pode deixar de fazer homenagem a monstros clássicos da cultura pop, como os mortos-vivos. Invasão Zumbi é um dos maiores sucessos da história do cinema sul coreano. Lançado em 2016, o filme rapidamente ganhou espaço em cinemas comerciais ao redor do mundo, um evento raro de ocorrer fora do eixo de produção hollywoodiano. E para além do público, Invasão Zumbi também conquistou a crítica, sendo rapidamente aclamado como um dos melhores filmes de zumbi já feitos. O que não é uma afirmação pequena, considerando as centenas, e talvez milhares, de obras criadas em torno desse conceito. Conhecido internacionalmente pelo seu título em inglês, Train to Busan, ou Trem para Busan, esse é um filme que toca mesmo pessoas que não possuam afinidade com o horror. Isso porque, no fim das contas, o que menos importa no longa são os comedores de carne, e é a natureza humana que ganha o holofote central da trama.

A invasão zumbi

Em 1968, George Romero uniu a tradição de zumbis ligados ao controle mental e rituais voodoo com a ideia do vampiro, um ser que se alimenta dos vivos. A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead) inaugurou a figura dos devoradores de cérebro na sociedade ocidental, de forma tão marcante e significativa que filmes de zumbi constituem agora um gênero próprio dentro do campo do terror. E já o primeiro filme desse campo não era sobre monstros devoradores de carne: A Noite dos Mortos Vivos é um tratado de Romero sobre consumismo, comportamento de manada, e o poder de alienação da sociedade contemporânea. Isso sem deixar de ser um filme de terror.

Ao mesmo tempo que criou um monstro próprio, Romero também inaugurou a percepção de que filmes de zumbi tratam de relações humanas. E são essas relações o que mais importa nos cenários apocalípticos a que somos apresentados. Embora todos os anos dezenas de filmes dessa temática sejam lançados, poucos conseguem entender o potencial da criação de George Romero. Invasão Zumbi é uma dessas raras exceções, capaz de extrair o máximo de uma situação limite para investir relações afetivas e sociais da humanidade.

Trem para Busan

A ideia é simples, e já foi utilizada à exaustão. Um vírus misterioso se espalha e transforma humanos em criaturas agressivas e irracionais. E no meio da estória existem também os zumbis. Todo filme que antecipa uma situação apocalíptica serve como estudo do comportamento humano, de alguma forma. O objetivo é discutir o quanto nosso instinto de sobrevivência pode sobrepujar aquilo que consideramos humano: nossa capacidade de empatia, e a habilidade de se sacrificar em nome do bem coletivo. Esse conflito entre permanecer vivo a qualquer custo e ajudar a quem precisa é potencializado por uma situação limite, em que regras sociais já não valem, e não existe nenhum poder de repressão, como a polícia, para fiscalizar suas ações.

Imagem do filme Invasão Zumbi, ou Train to Busan, ou Busanhaeng. A imagem mostra um pai com sua filha no colo, fugindo de uma horda de zumbis pelo corredor de um trem.
Seguindo uma tendência contemporânea, os mortos-vivos de ‘Invasão Zumbi’ são tão rápidos quanto um humano pode ser, e seus sentidos tão limitados quanto o de qualquer pessoas. Zumbis não se tornam lentos com o vírus, nem ganham novas habilidades.

Em Invasão Zumbi, essa estória se passa dentro de um trem, que segue em direção ao distrito de Busan, na Coreia do Sul, quando o vírus começa a destruir as cidades e dizimar a população. Por isso o nome original do filme, Train to Busan, ao invés de uma tradução genérica qualquer, como é no caso do português. O ambiente fechado permite que o confronto com as criaturas seja agravado de duas formas. Primeiro, não é possível correr em campo aberto para fugir das criaturas. Depois, como o trem está em movimento constante, os vagões cheios de zumbis se tornam também o único refúgio a curto prazo. Isso faz com que o confronto seja inevitável, em muitos momentos. E também transforma cada vagão livre do vírus em um pólo próprio de resistência.

Nesse ambiente, os espaços seguros serão disputados por pessoas com desejos distintos. Há ainda conflitos pessoais entre entes queridos, amigos e familiares, que desejam se proteger independente de graves consequências. E nas viradas constantes de roteiro, com obstáculos diversos surgindo no caminho, passageiros diferentes tentarão continuar seu caminho para Busan, um distrito que conseguiu resistir ao ataque zumbi.

Imagem do filme Invasão Zumbi, ou Train to Busan, ou Busanhaeng. A imagem mostra três homens com bastões e coberturas amadoras nos braços, preparados para enfrentar os zumbis.
O confronto direto não é o foco de ‘Invasão Zumbi’. Mas isso não quer dizer que as cenas de ação não sejam extremamente bem dirigidas, com poucos cortes e clareza na ação das personagens.

Além de um excelente elenco, capaz de transmitir a intensidade emocional do cenário apesar da barreira da língua, Invasão Zumbi também se destaca de outros filmes de zumbi pelo seu uso da iluminação. É esperado que produções que envolvam mortos-vivos utilizem cantos escuros e tomadas noturnas para aumentar a sensação de medo do desconhecido. Invasão Zumbi, no entanto, se passa quase que inteiramente à luz do dia. É possível, por isso, acompanhar cada ação das personagens, em sua luta por sobrevivência, com ampla iluminação. A escolha de priorizar a luz solar é acompanhada da ausência quase que absoluta de jump scares, um recurso pobre do horror que é utilizado à exaustão. O filme, então, precisa de uma qualidade técnica atenta aos menores detalhes, de um roteiro sem falhas e da construção de personagens complexas para se sustentar em suas quase duas horas. O fato de conseguir diz muito sobre como Invasão Zumbi merece ser lembrado como um marco do gênero.