Falange Resenha | Hob

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Vinheta da Mãe Serpente
Depois de ganhar o mundo com a série de RPG de ação Torchlight, a Runic Games lança o terceiro jogo de sua carreira. Hob, ao contrário dos jogos anteriores do estúdio, é um jogo de ação e aventura, e todos os elementos que consagram o gênero estão presentes. Um mundo vasto e cheio de vida. Habilidades novas que ajudam a transpor obstáculos. Dezenas de itens colecionáveis espalhados pelos quatro cantos do mapa. Longe de ser um jogo genérico, no entanto, Hob encontra uma maneira única de construir seus cenários, adiciona elementos de plataforma, e cria uma experiência cheia de charme. E apesar de alguns problemas óbvios, Hob certamente irá agradar todos os jogadores que apreciam séries clássicas como The Legend of Zelda (Nintendo) e Okami (Capcom).

Um mundo em pedaços

O aspecto mais interessante de Hob, e aquele que o diferencia de outros jogos similares, é a forma como o mundo se desdobra diante do jogador. Ainda existe um mapa vasto, e cada área do mapa se torna acessível com o tempo, conforme o jogador avança em sua aventura. Porém, ao invés de locais prontos, esperando para serem visitados, o mundo de Hob funciona como um gigantesco quebra-cabeças. Planícies, florestas, desertos, montanhas. Cada pedaço do mundo é uma peça gigantesca, uma mistura de matéria inorgânica e engenhosidade tecnológica. Cabe ao jogador, então, deslocar essas peças, de modo a desbloquear novos caminhos.

Imagem de Hob, novo jogo da Runic Games, que mostra um animal pacífico em uma floresta.
Vida, animal e vegetal, recobre cada pedaço da máquina-mundo. E boa parte dos animais é pacífica, aceitando até mesmo carinho do jogador. Mas sim, você pode ser um monstro e matar essas criaturas indefesas.

O mesmo local, dessa forma, pode servir de rota diferente em dois momentos distintos do jogo. Depois de ativar a corrente elétrica de uma seção do mapa, por exemplo, é possível fazer com que parte do cenário mude de nível. Vales se tornam montes, e a nova disposição das peças permite que o jogador chegue a um novo lugar. O movimento de cada uma dessas partes é extremamente bem planejado, e é possível entender por que o período de produção de Hob foi tão alongado. Ao invés de seções separadas, foi necessário pensar em todo o mundo como uma única coisa, cheia de partes móveis que se recombinam para modificar os caminhos.

Como um jogo de aventura, Hob depende da exploração dos cenários pelo jogador. E é inevitável no gênero que o mesmo local seja visitado múltiplas vezes. A mecânica de modificação do espaço, então, ganha ainda mais importância. Isso porque elimina por completo a sensação de redundância que retornar a um lugar conhecido pode causar.

Lá e de volta outra vez

Da mesma forma que o mundo, em geral, os pequenos elementos de Hob também se inspiram na mesma construção por peças de quebra-cabeças. O braço biônico, origem dos poderes utilizados pelo protagonista, ganha pedaços adicionais ao longo do jogo, que desbloqueiam novas habilidades e mudam a aparência da ferramenta. A espada, arma principal contra inimigos, também pode sofrer alterações, se tornando mais poderosa. Mais uma vez, o incremento é representado visualmente por um novo agrupamento de peças móveis.

Além de melhorar o ataque e adquirir habilidades opcionais, o jogador também pode coletar expansões para a barra de vida e de magia. Existem também duas moedas de troca diferentes, a mais rara utilizada para desbloquear roupas com vantagens e desvantagens diferentes. Além disso, pontos específicos espalhados pelo mapa permitem vislumbrar um horizonte cheio de detalhes, e funcionam como outro colecionável. Por fim, salas secretas, muito bem escondidas, permitem que um novo pedaço da estória de Hob seja descoberto, sem diálogos ou textos, assim como o restante do jogo. Tudo em Hob é contextual, sem a barreira de uma língua, e aberto para que o jogador participe da construção do sentido global da narrativa.

Imagem de Hob, novo jogo da Runic Games, que mostra uma grande máquina com alavancas em um cenário desértico.
O estilo cartunesco dos gráficos, cheio de cores chapadas e sombras duras, é agradável aos olhos, e combina perfeitamente com o gênero de aventura.

Quem quiser encontrar tudo o que o jogo esconde certamente irá vagar por mais horas pelos cenários de Hob do que o jogador padrão. Porém, a maior parte dos colecionáveis se encontra ao alcance da visão do jogador, e é possível adquirir a maior parte dos itens sem desviar muito do caminho original. Isso permite que mesmo quem não gosta de encontrar passagens secretas e trilhas alternativas ainda assim pode experimentar todos os recursos que Hob oferece.

Neutralidade e combate

Para ajudar na navegação, além de um mapa detalhado, que mostra a posição de colecionáveis já vistos, o mundo de Hob é rico em sua fauna e flora. A ideia da Runic Games foi desenvolver um local neutro, em que tudo o que representasse perigo fosse apenas uma consequência da tentativa de sobrevivência de diferentes espécies. Isso significa que há criaturas que irão te atacar, enquanto outras são completamente indefesas. E como não há um time inimigo, todos os ataques desferidos por qualquer ser afetam as criaturas a seu redor. É possível, dessa forma, utilizar golpes de inimigos para derrotar outros seres hostis.

O sistema de combate é simples. Ataques que podem dar origem a combos, algumas habilidades especiais, e rolamentos que funcionam como esquiva. Funcional, mesmo que não seja estimulante o suficiente para que o combate se torne um elemento central ao jogo. Por sorte, quase todos os confrontos são opcionais em Hob, e é possível fugir e deixar para trás oponentes. O foco principal é sempre a exploração, a modificação do cenário e a transposição das plataformas que se formam com a ativação de botões e alavancas.

Gif de Hob, novo jogo da Runic Games, que mostra o combate contra um gigante.
O combate é funcional, e pode ser interessante em pequenas doses, como contra inimigos gigantes. Mas não traz novidades a ponto de prender a atenção.

Apesar da pretensa neutralidade, existe uma espécie de fungo que funciona como antagonista principal em Hob. Ao longo do jogo, o objetivo geral é limpar as regiões infectadas, de modo a permitir que a flora habitual volte a seus locais de origem. No fim do jogo, como que para garantir que o mundo é realmente neutro, Hob oferece duas opções de final para o jogador. A escolha, infelizmente, soa artificial, e apenas um dos finais garante uma conclusão verdadeira. O segundo é dispensável. Uma escolha narrativa no mínimo duvidosa. Mas longe de ser o único problema de Hob.

Uma questão de perspectiva

A câmera. Se fossemos listar qual é o maior problema de cada jogo, sem nenhuma dúvida uma câmera ruim estaria no topo do ranking de maiores falhas. A câmera de Hob é fixa, e o jogador não pode controlar nenhum aspecto da visibilidade. Isso significa que o estúdio programou cada mudança de perspectiva que ocorre entre salas diferentes do mesmo cenário. O resultado final não é de todo ruim, e funciona durante a maior parte do jogo. Mas o motivo principal de morte em Hob é a dificuldade de realizar um salto sobre um abismo quando o ângulo de visão não é natural.

Esse problema é sentido principalmente nas últimas seções do jogo, e em algumas áreas opcionais. Isso porque a exigência de precisão aumenta, bem como o número de poderes de deslocamento utilizados. Com a complexidade, vem também a frustração de não conseguir realizar determinado movimento porque a câmera prejudica o entendimento do jogo das direções para as quais o jogador tenta seguir.

Imagem de Hob, novo jogo da Runic Games, que mostra um corredor subterrâneo iluminado por luzes neon azuis.
A câmera é particularmente desafiadora dentro dos espaços subterrâneos de ‘Hob’, onde um exército de robôs faz a manutenção das partes móveis da máquina-mundo.

Apesar de uma trilha sonora agradável, outro grande problema de Hob é sua edição de som. Nem todos os sons do jogo estão sincronizados com as animações. E quem for como a Mãe, e se irritar com a falta de sincronia entre imagem e som, com certeza vai observar a falha. A falta de sincronia do som foi piorada depois do lançamento, quando o jogo saiu da versão beta e começou a apresentar quedas de FPS e crashes constantes.

A Runic Games já lançou um patch que corrige essas falhas mais graves, e não deve demorar muito para que o jogo alcance seu perfeito estado. Mesmo porque a versão de imprensa funcionava perfeitamente, antes da atualização de lançamento. O evento, no entanto, abriu espaço para comemorações de muitos jogadores, que torcem pelo fracasso de Hob. Será necessário então, antes de encerrar essa resenha, tratar desse grave problema de recepção.

A tentativa de boicote a Hob

Se tem algo que realmente assusta qualquer membro da espécie humana é a mudança. A ideia de que algo possa te retirar à força de sua zona de conforto é insuportável para a maior parte das pessoas. E é justamente por isso que, desde o início de seu desenvolvimento, Hob encontrou uma resistência enorme de fãs do estúdio. A Runic Games foi formada por desenvolvedores envolvidos com Diablo 2 (2000, Blizzard Entertainment). O primeiro jogo do estúdio, então, foi também um RPG de ação. Torchlight (2009) fez um sucesso gigantesco, e sua continuação, Torchlight 2 (2012), é comumente comparada a Diablo 3 (2012, Blizzard Entertainment). Juntos, ambos os jogos Torchlight venderam mais de 3 milhões de cópias. Muitos fãs da série, então, acharam que deveriam se posicionar contra Hob, já que antecipavam um Torchlight 3 depois de anos sem um novo jogo da série.

Por mais apaixonados que sejam, os fãs da série Torchlight perdem muito com a tentativa de boicote a Hob. A indústria de videogames é inundada, ano após ano, de sequências genéricas, criadas apenas para aumentar o ganho de uma franquia já consolidada. Sim, estamos falando da Ubisoft. E da EA. E da Bethesda. As maiores companhias de jogos faturam alto com a estratégia da reciclagem, e os maiores saltos de inovação no mundo dos games têm surgido justamente de estúdios independentes. Que a Runic Games tenha decidido experimentar algo novo, sabendo dos riscos de contrariar os fãs, já é algo louvável por si. E quanto aos jogadores, receber bem qualquer tentativa de inovação é o mínimo que podemos fazer em prol de um mercado cada vez maior, mais variado, e capaz de criar experiências únicas.

Sim, Hob possui falhas óbvias. Mas seus acertos excedem, de longe, seus erros. E mesmo os problemas técnicos mais graves depois do lançamento foram corrigidos em menos de um dia. Isso é um sinal positivo, de que a Runic Games irá continuar a trabalhar para consertar bugs e glitchs gráficos. Quanto às escolhas de design que não deram muito certo, a Mãe só espera que sirvam de aprendizado, para que o próximo jogo da Runic seja ainda mais divergente de tudo o que eles já fizeram. Sem esse ciclo de tentativas, e mesmo erros, a produção de videogames está fadada à estagnação. E nenhum jogador realmente quer isso.

Gameplay da Mãe | Hob

Para entender melhor as mecânicas citadas pela Mãe, você pode assistir aos primeiros 30 minutos de Hob. Nesse tempo, experimentamos diferentes habilidades do braço mecânico, exploramos o mundo e encontramos segredos. Não deixe também de se inscrever no canal de YouTube da Falange, para receber em primeira mão todas as novidades.