Falange Resenha | A Guerra dos Sexos

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Vinheta de BastilleBonjour! A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes) chega aos cinemas em dia 19 de outubro. Nada a ver com a novela da Globo. O filme trata do jogo de tênis de 1973 que ficou famoso como “Batalha dos Sexos”, e em que a campeã de tênis Billie Jean King enfrentou o ex-campeão Bobby Riggs, com o objetivo de provar que mulheres podem ser tão competentes e interessantes de assistir do que homens. Uma discussão que continua sendo atual.

Billie Jean King e Bobby Riggs

Em 1973, com 29 anos, Billie Jean King é número um do circuito de tênis feminino nos EUA e vencedora de Wimbledon. Além de ser uma excelente tenista, ainda defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres, principalmente nos esportes. E com razão: mesmo quando atraem tantos espectadores quanto homens, mulheres recebem muito menos do que eles recebem. Além disso, King é defensora dos direitos LGBT, sendo ela mesma lésbica – algo que descobriu em 1968, embora estivesse casada com um homem.

Enquanto isso, Bobby Riggs já está com 55 anos e aposentado. Antigo campeão do circuito masculino, ele é muito famoso por sua autopromoção e por misturar tênis com apostas; costumava participar de jogos promocionais, e, muitas vezes, apostava em si próprio, ganhando muito dinheiro desta forma. Extremamente à vontade com a mídia, gostava de chamar a atenção com frases impactantes, principalmente sobre o tênis feminino, que considerava como muito inferior.

Essas provocações de Riggs ao tênis feminino criou uma grande discussão sobre a qualidade de esportistas homens e mulheres, e a maior parte das pessoas concordava com Riggs: mulheres são menos competentes. Isso o levou a chamar Billie Jean, melhor jogadora dos EUA, para o primeiro jogo misto da história, com o objetivo de provar que nenhuma mulher, por melhor que seja, poderia vencê-lo, mesmo ele estando aposentado. Após ela recusar o convite, ele desafiou a australiana Margaret Court, número 1 mundial, que aceitou e perdeu o desafio. Foi então que King decidiu enfrentá-lo, com o objetivo de mostrar o valor das mulheres no esporte.

A Guerra dos Sexos e as batalhas do cotidiano

O filme gira em torno deste grande evento esportivo. Mas sua abordagem é extremamente humana. Ao mesmo tempo em que se preparam para afrontar um ao outro, tanto Billie Jean King quanto Bobby Riggs estão enfrentando problemas pessoais que são tão complicados quanto a partida, ou  ainda mais.

King descobre sua atração por mulheres em uma época em que homossexualidade era menos tolerada do que hoje (e olhem que hoje não está boa a situação). Ela inicialmente tenta deixar esse aspecto de sua vida em privado, o que se torna difícil pelo fato dela ser muito midiatizada. Além disso, tem que lidar com a reação de seu marido à notícia. Enquanto isso, Riggs também tem dificuldades em seu casamento, já que a esposa ameaça pedir o divórcio caso ele continue a apostar. E parar com o vício é uma tarefa árdua, apesar de sua tentativa de entrar em um grupo de apostadores anônimos para salvar seu casamento.

Cena de A Guerra dos Sexos em que Marilyn, a amante, e Larry, o esposo de Billie Jean King, se esbarram em um elevador.
À esquerda, Marilyn, a cabeleireira e amante de King. À direita, Larry, o esposo da tenista.

É claro que, durante o filme todo, ficamos do lado de King. Se para Riggs a Guerra dos Sexos é apenas mais uma aposta e uma forma de fazer com que falem dele, para King trata-se de iniciar um processo de valorização do trabalho de todas as mulheres, especialmente as jogadoras profissionais. Mas Riggs não é o verdadeiro vilão da estória. Ele é retratado com uma pessoa que tem conflitos como qualquer outra, e é apenas um exemplo de como o machismo é um obstáculo para a sociedade, muito mais do que algo individual. Bobby Riggs não acredita verdadeiramente, no fundo, que mulheres são inferiores. É só ver sua relação com a esposa. Mas ele usa esse pensamento comum para chamar a atenção de mídia e público e obter sucesso.

O humor para denunciar o absurdo

O vilão da estória, e com quem King tem uma briga real, é o jornalista e antigo tenista Jack Kramer. Este sim não tem o menor respeito por mulheres. Ao ponto de, quando King pede uma revalorização salarial das mulheres, ele fazer com que todas que apoiam King nesta luta sejam expulsas da maior associação de tênis. Por mais que Riggs tenha falas marcantes – e ridiculamente divertidas – os diálogos entre King e Kramer são os mais interessantes do filme. Isso porque os dois têm ideias profundamente opostas.

King defende que não há uma diferença qualitativa entre o jogo masculino e o feminino, e por isso não deveria haver uma diferença salarial. Kramer acreditava que existe uma diferença biológica entre homens e mulheres que faz com que homens sejam não só mais fortes, e por isso melhores, mas mais interessantes de se ver. Se essas discórdias acontecem quase sempre em tom leve e de piada, o fato de Kramer usar falácias e King usar fatos para provar seu ponto situa o filme do lado da campeã.

Cena de A Guerra dos Sexos em que Riggs presenteia King com um pirulito da marca Sugar Daddy. Em troca, King ofereceu um porco, símbolo do chauvinismo masculino.
No início da partida, Riggs presenteia King com um pirulito da marca Sugar Daddy. Em troca, King ofereceu a ele um porco, símbolo do chauvinismo masculino.

A Guerra dos Sexos é abertamente feminista. Feminista mesmo, não defensor da supremacia feminina. O objetivo de King e do filme é defender a igualdade. King nunca combate a ideia de que homens são superiores ao dizer que a verdade é o inverso, que mulheres são superiores. Ela apenas afirma que mulheres são tão boas quanto homens e por isso devem ter os mesmos direitos. Algo aparentemente tão simples, mas que hoje em dia muitos ainda não conseguem entender.

Um filme para todos

A Guerra dos Sexos brilha por vários motivos. Todo o elenco oferece performances de qualidade – [a maravilhosa] Emma Stone e Steve Carell se destacam particularmente. O filme constrói personagens e relações complexas, como a dos protagonistas, é claro, mas também de coadjuvantes. Alguns exemplos são Larry, o esposo de King, que lida com a perda do amor da esposa, mas continua a apoiá-la por acreditar em seu talento e no que ela pode acrescentar à luta feminista; Marilyn, a amante de King, que apesar de não criar segredo em torno de sua sexualidade tem que viver esse amor de forma escondida em respeito à vontade da companheira; ou ainda Priscilla, esposa de Riggs, que se vê obrigada a se separar dele para proteger sua família do vício em jogos que cerca o homem que ama.

Além dos atores e personagens, o bom humor, assim como a música geralmente empolgante, contribui para a leveza do filme, apesar do tema ser muito sério e importante. E se A Guerra dos Sexos aparentemente é sobre uma partida de tênis, na realidade não há necessidade de entender do esporte para apreciar a estória de Billie Jean King.

Em resumo, temos com A Guerra dos Sexos um filme excelente, que aborda, através de uma estória real, um assunto extremamente importante até os dias de hoje, e que usa uma linguagem clara para que sua mensagem possa ser entendida por todos, independentemente da idade ou do interesse no tênis. Algo bem necessário, principalmente porque hoje em dia ainda nós deparamos com discursos tão machistas quanto na década de 70, muita desigualdade entre homens e mulheres no ambiente do trabalho, e índices de violência contra mulheres assustadores. Eu não ficaria surpreendida caso A Guerra dos Sexos seja nominado ao Oscar de Melhor Filme.

Billie Jean King e Bobby Riggs, tenistas que protagonizaram a partida de tênis que 'A Guerra dos Sexos' conta.
Billie Jean King e Bobby Riggs. Billie continua defendendo os direitos de mulheres e LGBT. Bobby faleceu em 1995. Após a Guerra dos Sexos e até a morte de Bobby Riggs, os dois mantiveram uma relação amistosa.