Falange Resenha | Figment

0

Vinheta da Mãe SerpenteCom pouco tempo de vida, o estúdio dinamarquês Bedtime Digital Games já criou uma identidade própria. Primeiro pela construção de belíssimos cenários com desenhos feitos à mão. Depois por sua afinidade com puzzles. O estilo visual único garantiu a Chronology a grande atenção que recebeu em seu lançamento, em 2014. Mesmo que com uma narrativa simples, e puzzle fáceis, ter uma identidade própria ajudou no sucesso do jogo. Também de 2014, Back to Bed se apropriava do estilo de ilustração do jogo anterior, e se inclinava de maneira mais definitiva na direção de puzzles complexos. Figment, recém lançado, reaproveita os mesmos elementos para construir um jogo de aventura belíssimo. A narrativa, apesar de leve em seu formato, trata de temas complexos; e o uso da música ultrapassa a trilha sonora para se tornar elemento de gameplay. Tudo isso torna Figment um dos melhores jogos independentes do ano.

Pelos quatro cantos da mente

Em Figment, o jogador toma controle de Dusty, a personificação da coragem dentro de uma mente humana. Esquecido e sem uso depois que a mente caiu no comodismo e parou de se desafiar, Dusty aproveita uma aposentadoria forçada, revendo o recorte de memórias que guarda consigo. Isso até que Dusty seja chamado para o serviço novamente por Piper, uma ave otimista que o acompanha em suas aventuras. Dusty passa, então, a perseguir os pesadelos que surgiram recentemente na mente, e aos poucos descobre o que fez com que medos antigos ressurgissem.

A comparação mais óbvia para Figment é a série The Legend of Zelda (Nintendo). Com apenas uma espada em punho, Dusty precisa explorar locais diferentes, cada um com sua própria temática. Nesses locais, seções de combate e resolução de quebra-cabeças se intercalam, e no fim um mestre precisa ser derrotado para dar continuidade à aventura. Existem também diversos segredos escondidos pelas fases, que podem ser coletados a qualquer momento, a partir da resolução de puzzles secundários ou da interação com os habitantes locais.

Imagem do jogo Figment, terceiro jogo indie da Bedtime Digital Games. Caminhos diversos são bloqueados por fumaça tóxica, e moinhos de vento estão espalhados pela imagem.
De forma geral, os puzzles de ‘Figment’ servem para criar obstáculos nos caminhos que devem ser explorados. Isso não torna os puzzles meros empecilhos, mas cada quebra-cabeças funciona em conjunto com a temática do mundo.

Ao contrário da série Zelda, no entanto, Figment investe mais em puzzles clássicos. Desde blocos que precisam ser posicionados de forma adequada no terreno até botões que precisam ser pressionados na sequência correta. Até mesmo painéis que mudam de cor ao serem pisados, e que precisam estar completamente acessos ou apagados. E se esses quebra-cabeças começam a surgir de forma sutil, logo o nível de experimentação necessária para resolver um problema aumenta. Para aqueles habituados com jogos de puzzle, Figment não oferece grandes dificuldades. O jogador médio do gênero, no entanto, pode esperar alguns desafios em seu caminho.

Uma aventura musical

Figment possui uma qualidade técnica notável. Os cenários são bem desenhados, cheios de detalhes que fazem referência à área do cérebro que é explorada. A mecânica central de gameplay, ainda que não inove em nenhum aspecto, também é sólida e funcional. Mas em um aspecto, Figment extrapola a precisão técnica e se transforma em uma experiência única: o uso da música.

Em sua campanha de marketing, Figment se auto-intitulou como uma aventura musical. A definição não poderia ser mais acertada, nesse caso. A edição de som não apenas é realizada de forma precisa, mas as animações de diversos objetos no cenário se sincronizam ao andamento da trilha sonora. Gotas de água, então, caem de acordo com as notas musicais ouvidas, e inimigos se movem de acordo com a progressão musical. Esse é um elemento explorado de maneira particular nas memoráveis batalhas de mestre.

Cada uma das três grandes regiões da mente possui um pesadelo próprio. A zona da criatividade tem que lidar com o medo da doença. A zona da lógica sofre com a presença do medo de aranhas. Já a seção final, a zona de memórias recentes, abriga a personificação da depressão. Cada um desses pesadelos tem um conjunto próprio de músicas, criadas para refletir sua personalidade. Essas canções têm versos cantados pelos próprios pesadelos, e além de letras bem escritas e inteligentes, guiam as etapas dos confrontos entre jogador e mestres. É um resultado empolgante. As canções permanecem com o jogador depois de sua conclusão, e fica a vontade de ouvi-las de novo.

Imagem do jogo Figment, terceiro jogo indie da Bedtime Digital Games. A imagem mostra o pesadelo Aranha no lado lógico da mente.
Apesar de uma batalha de mestre criativa e inteligente se localizar no final de uma grande área, os pesadelos não poupam oportunidades de aparecerem ao longo das fases, para desestimular o protagonista.

Ainda que o jogo seja construído a partir do inglês, incluindo as canções, Figment já foi lançado com legendas em diversas línguas, que incluem o português. Existem alguns erros de tradução, mas ainda assim o jogo é extremamente acessível. Um ponto mais do que positivo, quando se tem em conta a importância da narrativa para que se possa aproveitar Figment.

Para criança?

Imagens coloridas, criaturas fantásticas, vilões musicais. Todos os elementos estéticos de Figment podem parecer direcionados a um público infantil. Os temas trabalhados pelo jogo, no entanto, estão longe de se resumirem a crianças. Não é à toa que o maior antagonista de Figment é a personificação da depressão. O pesadelo que infecta a mente fala da ausência de sentido em viver, em continuar lutando. O pesadelo também tem a certeza de que nenhuma ação importa, já que o fim é inevitável. A coragem, controlado pelo jogador, precisa superar essas ideias, e não desistir de sua própria luta para alcançar o fim da jornada. É uma forma bela de lidar com uma questão complexa. Principalmente porque, apesar de apelar também para adultos, essa questão é construída de maneira compreensível para crianças.

O maior mérito de Figment é sua capacidade de lidar com temas como depressão, niilismo, trauma e saúde mental a partir de metáforas visuais e sonoras claras. Metáforas capazes de serem compreendidas por qualquer público. O jogo coloca adultos e crianças em meio a uma narrativa otimista, que mostra a depressão como um perigo real, astuto, sempre pronto para destruir a mente. Mas que, com coragem e otimismo, é possível de ser derrotado. No fim das contas é a mensagem de Figment que define seu propósito como jogo. E é essa mensagem, e a maneira como é construída, que faz com que Figment seja, de longe, o melhor jogo da Bedtime.

Imagem do jogo Figment, terceiro jogo indie da Bedtime Digital Games. A imagem mostra o mapa do jogo de aventura e puzzle.
A construção do mapa a partir da ideia de um lado criativo e um lado lógico da mente, por exemplo, é uma simplificação do funcionamento da mente humana. Mas serve como metáfora acessível para como os medos prejudicam todas as esferas da vida.

Gameplay da Mãe | Figment

Para entender um pouco mais sobre Figment, suas mecânicas e seu uso da edição de som, a Mãe publicou na semana passada uma gameplay com os 15 primeiros minutos do jogo. Uma série de vídeos com o jogo completo também será publicada até o próximo fim de semana. Para receber as novidades em primeira mão, não deixe de se inscrever no canal de YouTube da Falange.