Falange Resenha | Extraordinário (Wonder)

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Vinheta de BastilleBonjour! Hoje estreia nos cinemas brasileiros o filme Extraordinário (Wonder). Adaptado do livro de 2012 do mesmo nome, Extraordinário conta a estória de Auggie, um garoto pré-adolescente que sofre de uma síndrome que resulta em deformações em seu rosto. Assistam a essa fofura de trailer:

Uma doença, várias vidas afetadas

Boa parte do filme foca no primeiro dia de aula de Auggie, mas o filme vai do primeiro ao último dia letivo. A particularidade de Extraordinário é que vários acontecimentos do ano são mostrados através de diversos pontos de vista. Começa pelo próprio Auggie e seu primeiro dia de aula, em seguida o de sua irmã Via, e até os pontos de vista de seu amigo Jack Will e de Miranda, amiga de Via, são explorados. Desta forma, é possível perceber como a doença de uma pessoa pode afetar a vida de muitas outras.

E, de fato, a deficiência de Auggie é algo muito importante na vida dos outros. Via, sua irmã mais velha, muitas vezes se sente solitária, já que toda a atenção dos pais é voltada para Auggie, e as pessoas costumam sempre querer falar com ela sobre a particularidade de seu irmão. Por sua vez, Miranda tem inveja da família unida de Via e Auggie, e chega até a fingir que Auggie é o irmão dela para chamar a atenção das pessoas. Os pais de Auggie, por sua vez, se dedicam tanto ao garoto que parecem não ter vida própria. Tanto que, para dar uma educação para o filho, a mãe dele deixou de lado sua tese por uma década. Quanto a Jack Will, o garoto da turma de Auggie tem dificuldade de assumir sua amizade com Auggie. Por um lado quer seguir seu coração, porém será mal visto na escola; por outro, cortar vínculos com Auggie significa ser aceito pelas crianças populares.

Bullying e refúgio

Na turma de Auggie, quem lidera o grupo dos populares é Julian. O garoto também é um dos principais bullies da escola, por mais que ele tenha uma ótima reputação com os adultos, a ponto de ter sido designado pelo diretor para dar um tour da escola para Auggie. Julian e seus colegas fazem de tudo para que Auggie se sinta isolado. As atitudes vão de contar para outras crianças que correm o risco de pegar “a praga” ao se aproximar de Auggie, até mandar recados escritos aconselhando ele a se matar.

Muitas vezes, o bullying funciona; Auggie é atingindo pelos comentários e se sente solitário pela falta de amigos na escola. Isso se manifesta de diversas formas: perda da vontade de ir às aulas, desejo de ser invisível e, principalmente, o uso constante de um capacete de astronauta que esconde seu rosto. Além disso, por ter sempre suas diferenças apontadas, Auggie acaba por se identificar com figuras conhecidas por suas diferenças, como Chewbacca, personagem da franquia Star Wars. A personagem aparece em vários momentos – e muitas outras referências a Star Wars são feitas ao longo do filme. Além dessas, Auggie descobre uma outra forma de se proteger do bullying: a ciência. Seu interesse por matérias científicas é tamanho que Auggie se torna o melhor aluno da turma nelas, e consegue fazer com que algumas pessoas enxergam nele muito mais de um rosto deformado, e mesmo sintam admiração. Sua família é outra fonte de motivação para seguir em frente e mostrar a todos que ele é mais do que o garoto doente da escola.

Imagem do filme Extraordinário (ou Wonder). Na imagem, Auggie usa uma roupa e capacete de astronauta e anda no meio dos outros alunos da escola, que o aclamam.
A imaginação de Auggie também é uma arma contra sua exclusão: quando tem que enfrentar o pátio cheio de alunos olhando para ele, ele imagina que é um astronauta sendo aclamado.

É triste observar que, por mais que a situação de Auggie seja bem singular, muitas crianças com diferenças menos drásticas em sua aparência também sofrem com comentários malvados na escola, e acabam sendo vítimas de bullying. Crianças, muitas vezes sob a influência de adultos, costumam reparar muito nas distinções e transformar qualquer detalhe singular em uma desculpa para atacar os colegas. Na escola de Auggie, Julian é punido pelos seus atos, como deve ser. Porém, de forma geral, Extraordinário procura dar uma explicação por trás de comportamentos inadequados como o desse garoto. E realmente, para lutar contra atitudes nefastas, é preciso entender o que as causa; a comunicação é essencial. Mas entender não deve ser o mesmo que apagar ou diminuir a importância do mal causado. A posição do filme em relação a isso é um pouco problemática, já que dá a entender que todo opressor tem motivos, o que nem sempre é o caso, e o que não justifica fazer os outros sofrerem.

Vale a pena assistir a Extraordinário?

Ao longo das quase duas horas de filme, Auggie, sua família e amigos passam por diversas situações e emoções. Se o tema principal de Extraordinário é o bullying e a auto-aceitação, outros temas tais como a amizade e o luto também são abordados, e com eles um monte de emoções, às vezes contraditórias, são vivenciadas pelos protagonistas, sempre de uma forma verossímil. A ótima atuação do elenco, principalmente de Jacob Tremblay como Auggie, e de Julia Roberts e Owen Wilson como os pais do garoto, contribui muito para que os espectadores se identifiquem com as situações por quais passam. Extraordinário acerta muito em emocionar – você vai chorar durante esse filme, talvez mais de uma vez – sem que fiquemos necessariamente presos em um sentimento específico. Não choramos porque o filme é triste, ou porque é feliz. Mas sim por conta de sentimentos diversos e misturados, que também incluem a preocupação, a satisfação, a pena, o orgulho. E é o fato desses sentimentos não serem fáceis de identificar imediatamente que torna a emoção mais verdadeira.

De forma geral, Extraordinário tem uma mensagem que se situa entre o realismo e o otimismo. O mundo não é sempre um lugar fácil, agradável, pode muitas vezes nos obrigar a passar por situações péssimas. As pessoas não são todas gentis, e quase sempre vão olhar torto para o que for diferente. Mas é possível, através de persistência e de atitudes pequenas, tornar o mundo em um lugar melhor. E é possível, com muita comunicação e abertura, ensinar as pessoas a serem melhor. Uma mensagem de esperança que combina perfeitamente com a época do ano em que estamos, e que pode nos incentivar a adotar como resolução de Ano Novo aceitar a si próprio para julgar menos os outros.

Imagem do filme Extraordinário (ou Wonder). Na imagem, Auggie é levado para a escola por seus pais e sua irmã.