Falange Resenha | Esquadrão Suicida

Nem mesmo uma boa trilha sonora é capaz de salvar uma péssima montagem

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Vinheta da Mãe SerpenteBatman vs Superman foi, no mínimo, decepcionante. Apesar da beleza da fotografia, efeitos especiais e figurinos impecáveis, a falta de cuidado com roteiro, montagem e desenvolvimento de personagens teve um resultado aquém do esperado. Esquadrão Suicida, por tratar de um time desconhecido do grande público, tinha o potencial de ser melhor. Afinal, sem toda a pressão por representar personagens muito conhecidos, era de se esperar que a equipe criativa do filme tivesse mais liberdade para construir uma estória com mais zelo.

Mas foi aí que começou o problema; devido ao que foi considerado um fracasso de bilheteria para Batman vs Superman, Esquadrão Suicida sofreu uma mudança completa de produção. Ao invés do tom pesado e sério prometido pelo primeiro logo, imagens e entrevistas, decidiram transformar a campanha publicitária em uma piada colorida. As idas e vindas da produção, e toda a indecisão do controle criativo, afetaram de maneira extremamente negativa um material bruto que poderia ter sido excelente. O resultado, no entanto, é uma montagem confusa, perdida entre a tragédia e a comédia, que não consegue entregar nem a seriedade nem a leveza.

Um grande slideshow

A primeira parte do filme desaponta muito mais pelo potencial. A estratégia de Batman vs Superman, de reunir apresentações desconexas de personagens em uma série de vídeos curtos, aqui é utilizada em maior escala. Para ser justo, Esquadrão Suicida tem várias cenas empolgantes e bem construídas. O problema não é tanto das cenas em si, ao menos no início do filme, mas do corte seco e desconexo entre cada cena. Durante quase uma hora, temos uma sobreposição de personagens, cenários e eventos, sem qualquer ligação entre eles, tudo com o propósito de construir o background para um elenco extenso. Esses backgrounds, quando apresentados de forma paralela à narrativa, soam distantes e sem objetivo.

Suicide-Squad

A tentativa de dar profundidade ao grupo de mercenários é muito prejudicada por esta estratégia, já que, assim como Batman vs Superman, Esquadrão Suicida quer colocar tantas subtramas dentro de um mesmo filme que acaba por esquecer que, ao contrário dos quadrinhos, uma produção cinematográfica deve contar com um roteiro coeso, e uma linha narrativa central capaz de unir as diversas pontas soltas de personagens individuais.

Mais uma vez, a Warner repete o mesmo erro: sem saber lidar com o potencial em mãos, regrava, remonta, muda o tom da obra, até que finalmente se perde e entrega uma versão medíocre do que poderia ter sido uma experiência fantástica.

A segunda (ofensiva) parte

A montagem ruim da primeira metade do filme poderia ser perdoada, principalmente para fãs dos quadrinhos. Ainda que o roteiro seja mal conduzido, as cenas empolgantes poderiam transformar Esquadrão Suicida em um blockbuster. A segunda metade do filme, no entanto, não dá qualquer chance para seu. A Força Tarefa X é um grupo de vilões, sem escrúpulos, sem moral, muitas vezes completamente insanos. As estórias do Esquadrão são divertidas justamente pela potencial surpresa. Todos os membros podem trair uns aos outros sem aviso prévio, já que cada um deles pensa apenas em seu ganho pessoal. E não é preciso procurar o material de base para chegar a essa conclusão, a mensagem é repetida diversas vezes no filme.

Isso até que, depois de uma única missão, de poucas horas, os membros do Esquadrão criem laços de amizade profundos, e formem uma grande família. Não, isso não é um exagero. Não, eu juro, não estou brincando. Mesmo sem qualquer possibilidade de ganho, todo o grupo decide se colocar em risco para salvar o mundo, contando apenas com o apoio uns dos outros. Esse clima amistoso e feliz destoa por completo do resto do filme, até o momento patético do conflito final. Depois de martelar repetidamente o quanto a Arlequina é dependente do Coringa, a resolução do conflito final cai justamente na escolha da personagem entre ter seu grande amor ou salvar seus mais novos amigos. A escolha pelos amigos soa falsa, desconexa e completamente fora de contexto. O que não é uma surpresa, visto o péssimo desempenho do casal de palhaços.

suicide squad friends

O pior do filme

Não há nenhuma dúvida quando digo que o filme já seria bem melhor se apenas excluísse Arlequina e Coringa de seu roteiro. Quando as primeiras imagens da versão de Jared Leto para o palhaço do crime foram divulgadas, a reação nas redes foi negativa. As tatuagens destoam completamente da personagem, pois algo que o Coringa nunca precisou foi se autoafirmar. A produção, perdida, retirou as tatuagens, para depois colocá-las de novo. Ninguém esperava um resultado positivo, a depender da produção. O ator escolhido, porém, tinha o potencial de entregar uma personificação satisfatória, e as esperanças quanto ao mais novo Coringa recaíram sobre Leto.

Esquadrão Suicida Coringa

Pois bem, Leto fez o pior papel de sua vida, e entregou um Coringa péssimo. Entre o visual destoante e as rosnadas (sim, o Coringa rosna…), fica impossível de imaginar que aquele é o principal inimigo do Batman. Nada de genialidade, nada de desenvolvimento psicológico. Apenas um gangster genérico baseado no estereótipo mais raso de rapper norte-americano.

A relação do Coringa com Arlequina é um dos fios condutores de toda a trama, e é sofrível. Margot Robbie faz apenas caras e bocas, e assume por completo a posição que lhe deram no filme: a de ser apenas um corpo bonito para atrair adolescentes. A relação problemática com o Coringa fica em segundo plano; pelo contrário, ao invés do abuso, vemos um Coringa bobão e apaixonado, o que tira toda a atenção para a violência da submissão forçada da Arlequina.

Achou ruim? Fica pior. Em uma das cenas finais do filme, Magia tenta desestabilizar o Esquadrão, criando para cada um a ilusão de seu desejo mais intenso. A Arlequina sonha com uma vida normal. E o que é uma vida normal para uma doutora em Psicologia? Ser dona de casa e cuidar dos filhos enquanto o marido trabalha… Com direito a bobes nos cabelos.

Menções Desonrosas

A atuação de Will Estrelinha Smith também merece um destaque. A produção nunca deveria ter atendido aos caprichos do ator, pois não utilizar a máscara do Pistoleiro e exigir mais tempo de tela em nada contribuíram para o filme.

Esquadrão Suicida Pistoleiro

E não importa quanta maquiagem você coloque, e como a estética de uma personagem seja interessante. De nada adianta criar uma Magia bela aos olhos se é para colocar Cara Delevingne no papel, com mais um desempenho medíocre.

O Amarra morre. Mas todo mundo já sabia disso. Era tão previsível a morte do Amarra que os produtores nem mesmo se deram ao trabalho de criar mais do que uma frase para contar seu passado. Amarra é o único membro do Esquadrão que não tem uma cena própria ao longo do filme.

E parabéns à equipe de edição de som. Nunca imaginei que com uma seleção maravilhosa de músicas fosse possível não ter uma trilha sonora impactante. A introdução aleatória e forçada de canções não foi suficiente para salvar o filme.

Esquadrão Suicida | Vale a pena ver?

Com ingressos de cinema cada vez mais caros, talvez haja uma opção melhor para seu fim de semana do que Esquadrão Suicida. O 3D do filme não justifica a ida ao cinema, já que não acrescenta nada ao filme. Então talvez o melhor seja esperar uma versão em Blu-Ray. Se estiver animado para assistir bons filmes da DC, escolha qualquer animação lançada nos últimos anos, e aproveite a excelência que a editora é capaz de entregar. Infelizmente o universo live-action ainda não achou seu tom, e sem o desejo da produção de arriscar uma única direção para seus filmes, dificilmente veremos uma adaptação digna de algumas das personagens mais fantásticas já criadas pela ficção.

Bastille e Jano foram comigo ao cinema, mas nenhum deles teve coragem de escrever um texto e relembrar o filme. Jano chegou mesmo a passar mal. E com duas bocas, nem sempre é possível acertar o vaso. E eu estou fora do mutirão de limpeza hoje! Preciso me recuperar.