Falange Resenha | Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)

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Mãe SerpenteBonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967) representa um marco no cinema ocidental. A estória do casal apaixonado que rouba bancos e mata quem estiver em seu caminho mudou a forma como o cinema hollywoodiano seria pensado na década de 70. Desde então a regra já era clara: blockbusters precisam ser copiados à exaustão. E desde 67 o ocidente se esforçou em produzir filmes sobre o glamour do crime, e a beleza possível de se ver por detrás da violência. Se existe um diretor capaz de compreender o cerne de um gênero de cinema e subvertê-lo, é Edgar Wright. E Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) é mais uma homenagem de Wright aos grandes marcos do cinema. Além de ser um filme excelente, claro.

Dando a partida

Antes de começarmos, essa não pode ser uma resenha silenciosa. Para dar a partida, precisamos de alguma coisa que nos coloque no ritmo exato.

♫ Bellbottoms – The Jon Spencer Blues Explosion

Bem melhor. Edgar Wright se tornou um nome popular quando começou a desenvolver um roteiro de Homem-Formiga, para a Marvel. De alguma forma, o diretor ficou envolvido com o projeto durante oito anos, ao mesmo tempo em que produzia outros filmes. A ideia de Wright era ser fiel ao material, e realmente focar no mundo do crime com Scott Lang. A Marvel, sempre tímida com mudanças, preferiu picotar o roteiro de Wright, o que causou a saída do diretor. Homem-Formiga ainda tem traços do diretor, e, no geral, é um bom filme. No entanto, ao ver Em Ritmo de Fuga, fica um pouco o desejo de ver a versão original do filme. Isso porque Wright, mais de uma vez, provou que entende tão bem o conceito de gênero que é capaz de criar obras-primas com poucos recursos.

É o caso de sua Trilogia do Cornetto, também conhecida como Trilogia do Sangue e Sorvete. Três dos melhores filmes de comédia que brincam com a própria ideia do cinema de zumbis, da estória do policial durão e da invasão alienígena e apocalipse. Respectivamente com Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004), Chumbo Grosso (Hot Fuzz, 2007) e Heróis de Ressaca (The World’s End, 2013). O efeito se repete de novo em Em Ritmo de Fuga. As personagens caricatas dos anos 70 estão de volta, com roupas exagerada que obviamente destacam os criminosos em meio à multidão. Planos mirabolantes, perseguições policiais, a adrenalina e o fascínio que a vida bandida desperta. Mas, principalmente, o que está presente com toda sua força é a música.

Um grupo de assaltantes se prepara no filme Em Ritmo de Fuga, ou Baby Driver, do diretor Edgar Wright
Os preparativos para o assalto incluem, é claro, um mapa desenhado a giz e um grupo de pessoas estranhas.

Em Ritmo de Fuga

Troca o disco!

♫ Easy – The Commodores

A abordagem da vida do crime de Wright se faz em torno de uma personagem, Baby (Ansel Ergot). Daí vem o nome original do filme, Baby Driver, também o nome de uma música da dupla folk Simon & Garfunkel. Não seria possível traduzir o nome do filme de forma satisfatória em português, mas Em Ritmo de Fuga perde completamente a referência original. Uma pena. Baby é um motorista de fuga, sempre envolvido com grandes assaltos de uma forma indireta, não só por estar dentro do carro, mas por estar sempre dentro de seu mundo particular.

Rápido se descobre que a mãe de Baby era uma cantora, e daí vem seu amor à música. Depois de um acidente fatal, provocado por um pai alcoólatra e violento, Baby acaba com problemas auditivos. Um zunido constante atrapalha sua audição. Por isso, Baby sempre está com seus fones de ouvido, escutando principalmente clássicos da década de 70. Para completar o cenário, Baby vive com seu pai adotivo Joseph (CJ Jones), que é surdo. Não, o rapaz não fala muito. Toda a vida de Baby é pautada pela música, e Wright tem um jeito único de demonstrar isso.

Ansel Elgort interpreta Baby, motorista de fuga no filme Em Ritmo de Fuga, ou Baby Driver, do diretor Edgar Wright
Acostumado a utilizar fones com música, Baby não precisa ouvir o plano para entender; sua visão basta, e ele pode continuar imerso em seu mundo particular.

A Mãe vai fazer um raro exercício de futurologia: Em Ritmo de Fuga vai concorrer ao Oscar de Melhor Edição de Som. E se nenhum filme melhor surgir até o final do ano, Em Ritmo de Fuga irá ganhar. Além de uma trilha sonora fantástica, a equipe do filme sabe aproveitar ao máximo os recursos sonoros. Como se relaciona com o mundo por meio da música, Baby precisa da música para pautar suas ações. Um desvio do percurso original obriga o motorista a, compulsivamente, voltar alguns segundos da faixa escolhida para o trabalho, de forma a sincronizar seus movimentos com a canção. E mesmo fora do carro o efeito é demonstrado.

A música que toca ao fundo, em quase todas as cenas do filme, não serve apenas como um panorama sonoro. A música dita as próprias ações. O ritmo de andar, a forma como um maço de dinheiro cai na mesa, o corte seco entre cenas. Tudo é pensado e realizado em torno da música e do andamento de cada canção. O que torna o efeito ainda mais surpreendete é o fato de Edgar Wright ter mesmo incluído diversos planos sequência no filme, mesmo que curtos, o que faz com que até mesmo o trabalho dos atores tenha que ser pautado por um ritmo específico. Um resultado final de edição impressionante, e que por si só já valeria Em Ritmo de Fuga por inteiro.

Reta final

Para terminar, só precisamos agora de uma canção matadora.

♫ Brighton Rock – Queen

Em Ritmo de Fuga conta, ainda, com um elenco de peso. Jon Bernthal, Jamie Foxx, Jon Hamm e Eiza González criam versões extremamente divertidas dos esteriótipos de fora da lei. O durão, o louco, e o casal apaixonado. Kevin Spacey interpreta o homem de terno por detrás de todos os planos. Lily James se torna o interesse romântico de Baby, uma garçonete chamada Debora (outro nome retirado de uma canção, dessa vez de T. Rex). E por mais que a ideia de cada personagem é concretizar um esteriótipo, cada atriz e ator tem a competência de dar fluidez e naturalidade para sua atuação.

Ajuda muito um roteiro redondo, cheio de pequenas viradas e emoção, que acaba por criar situações críveis para o universo do filme. A trama se preocupa até mesmo em criar pequenas idiossincrasias para cada novo rosto de surge na tela, seja tatuagens esquisitas no pescoço, coleções de carrinhos, trejeitos ou mesmo a mania de gravar conversas alheias. Compreendendo todos os elementos que fizeram dos filmes de roubo dos anos 70 um sucesso, Edgar Wright conduz uma trama que não apenas repete um passado qualquer, mas também subverte a própria glamorizarão do crime, tornando-a irônica sem depender de uma representação cômica.

Cena do filme Em Ritmo de Fuga, ou Baby Driver, do diretor Edgar Wright, que mostra uma equipe de assalto em um elevador
Mesmo os apelidos de cada assaltante são pensados de acordo com sua personalidade. Baby, o mais novo; Bats, gíria para louco, em inglês; Darling, a Querida do casal; Buddy, o Amigão do time.

Um último elogio deve ser direcionado diretamente a Ansel Elgort. Por mais que um elenco de peso ajude na condução da narrativa, é Baby que serve para ligar todas as pontas de Em Ritmo de Fuga. E isso não seria possível sem a interpretação fenomenal do ator novato.

Rola os créditos.

♫ Baby Driver – Simon & Garfunkel