Falange Resenha | Dunkirk

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vinheta Mãe Serpente BastilleChristopher Nolan é um diretor consagrado tanto na bilheteria quanto pela crítica. Isso significa que a cada novo projeto existe uma grande expectativa de público e mídia especializada. Mais acostumado com o mistério e o suspense, em 2014 Nolan se arriscou na ficção científica com Interestelar (Interstellar). Agora, com Dunkirk, Nolan tem seu projeto mais ousado em mãos. Filmes de guerra, pela limitação do gênero, inibem reviravoltas fantásticas e a tomada de direções inusitadas pelo roteiro, características presentes em todos os filmes anteriores do cineasta, para o bem e para o mal. Ainda assim, Nolan consegue produzir um dos melhores filmes do ano, sem abrir mão do padrão estético que já se reconhece em sua obra.

Bonjour! Bastille, aqui. Como @s falangeir@s mais assíduos já sabem, irei usar parágrafos azuis como este para fazer algumas observações sobre Dunkirk, a mais recente obra de Christopher Nolan, que aborda a guerra com uma perspectiva incomum.

Alinearidade

Uma das maiores contribuições de Nolan para o cinema é, sem dúvida, sua abordagem única do tempo. Um filme é um produto cultural que coloca imagens em sequência; e, na maior parte dos casos, essas imagens representam acontecimentos que também se encontram em sequência. De forma a brincar com a percepção do espectador, Nolan se esforça para quebrar essa linearidade, o que dá origem a abordagens extremamente criativas.

Ainda que, como um filme de guerra, Dunkirk não traga muitas surpresas, mais uma vez a abordagem temporal de Nolan é um dos aspectos que tornam a narrativa única. Ao longo de suas duas horas, Dunkirk foca em três pólos narrativos distintos, cada um com sua própria temporalidade. Nas praias de Dunkirk, na França, o exército inglês tenta encontrar um jeito de escapar do cerco inimigo e voltar à Grã-Bretanha; os acontecimentos que se passam ali se estendem por uma semana. Já na costa da Inglaterra, um homem e seu filho tentam chegar à costa francesa para resgatar soldados; uma trama que dura um dia. Por fim, três pilotos de caça têm a missão de proteger o Canal da Mancha do céu, em uma sucessão de eventos que dura uma hora.

Solo, mar, céu. Exército, Marinha, Aeronáutica. Uma semana, um dia, uma hora. Cada trama precisa ser manipulada de forma diferente para que caiba em um filme de duas horas. Principalmente quando todas essas estórias giram em torno do mesmo evento, e estão conectadas. A relação entre cada pólo narrativo é revelada aos poucos no filme, mas o domínio da edição e montagem é, certamente, um dos motivos para que Dunkirk seja uma experiência tão bem sucedida.

Imagem de 'Dunkirk', do diretor Christopher Nolan, filmado em 70 mm, que se passa na Segunda Guerra Mundial.
Amontoados, centenas de milhares de soldados esperam alguma fuga pelo mar, enquanto o inimigo se aproxima às suas costas.

A Batalha Fuga de Dunkirk

Ao contrário do que se pode esperar de um filme de guerra, Dunkirk não narra uma batalha. Os dois pólos que primeiro aparecem no filme – no terra e no mar – apresentam personagens que estão fugindo da guerra. Os soldados esperam na praia pelos barcos que irão levá-los de volta para a casa (no caso, a Inglaterra). Já o terceiro pólo – no ar – mostra batalhas aéreas, mas ainda assim mantém a ideia de fuga, já que os pilotos ingleses estão apenas engajando com o objetivo de proteger os soldados que estão na praia e nos barcos, para permitir sua fuga.

E como o filme todo mostra uma fuga ao invés de batalhas, essa escolha se encontra também nos personagens que acompanha. Ao invés da coragem que é comum ver em filmes bélicos, o sentimento que mais se expressa em Dunkirk é o medo. O medo de morrer, de não conseguir voltar para a casa, de decepcionar o país. Decorrentes desse sentimento, há também o egoísmo e a falta de confiança nos outros. Todos querem sobreviver e enxergam os outros como um possível obstáculo a esse objetivo.

É uma inversão da narrativa padrão, e que, no fim das contas, consegue traçar um panorama realista da guerra, e do pior que ela pode despertar na natureza humana. É por isso também que nenhum inimigo possui um rosto. Uma única cena do filme mostra a silhueta dos soldados alemães. Durante o resto do tempo, os soldados do Eixo estão presentes apenas pelo número de corpos espalhados pela areia, e pelas explosões ocasionais que suas máquinas de guerra causam.

Não se trata, então, de uma missão de bravura, em que um conjunto de heróis derrota inimigos múltiplos em busca da vitória. Se trata da derrota, e da luta individual pela sobrevivência em meio ao desespero da batalha, com a certeza de que não há uma saída digna da situação. Conforme bombas de um inimigo invisível caem, ou tiros ressoam sem origem distinta, os soldados na praia esquecem de seus códigos de conduta em troca de uma chance qualquer de ver seu lar. Essa visão humana e complexa dos soldados no campo de batalha faz com que seja impossível para o espectador não compartilhar das mesmas emoções que se produz na tela, numa mistura precisa de grandes e pequenos planos.

Imagem de 'Dunkirk', do diretor Christopher Nolan, filmado em 70 mm, que se passa na Segunda Guerra Mundial.
No mar, qualquer barco de passeio representa a possibilidade de salvação para os soldados ingleses.

Imagem, som e fúria

Se ainda é possível discutir qual roteiro de Nolan seria o melhor de sua carreira, não há dúvidas de que Dunkirk está a frente de qualquer outro filme do diretor em sua excelência técnica. Ao abir mão do uso massivo de efeitos especiais e jogos de câmera, Nolan produz imagens belíssimas, que fazem ao máximo o uso dos filmes de 70 milímetros (um favorito de Nolan e de Tarantino). Além de  imagens em ultra definição, Nolan brinca também com a ideia de centro de gravidade, principalmente em tomadas áreas, e faz com que a tela do cinema não esteja alinhada com o solo, ou com a linha do mar. Em união às tomadas panorâmicas, o resultado é de tirar o fôlego.

Todo o filme acontece no Canal da Mancha, e as tomadas panorâmicas usam a praia, o mar e o céu como cenário. Esse fundo com cores claras permite criar contraste e dar destaque aos homens em uniformes, navios e aviões em ação. O uso de filme em 70mm ainda deixa a fotografia com um grão visível, que se adéqua perfeitamente com a época retratada. Além disso, uma das características de Dunkirk é o fato de não mostrar a morte de forma muito direta. Raros são os momentos em que há sangue na tela. Isso não significa que não há violência, muito pelo contrário. Muitas pessoas morrem; alguns corpos são pulverizados no ar sob o efeito das bombas, outros esmagados entre um barco afundando e o pier. Mas não se usa nenhum close, e às vezes nem se mostra os corpos: o som já é suficiente para captar a violência.

O uso de som e silêncio é justamente algo que merece um destaque especial. Enquanto o barulho dos motores e das bombas caindo representam toda a violência da guerra e o motivo do medo, muitas vezes se usa o silêncio – ou se abafa o barulho de fundo – para demonstrar todo o desespero de quem se encontra no meio dos bombardeios.

Apesar de significativos, os momentos de silêncio não são frequentes. Mesmo cenas menos barulhentas ainda mantêm sons de fundo que tentam, e conseguem, deixar o espectador inquieto. O som de um relógio, indicativo da pressa e do perigo da morte, também foi adicionado a quase todo o filme. Por mais que o panorama sonoro contribua, em grande parte, para a tensão do filme, em salas adaptadas com som de alta resolução, como as salas IMAX, o barulho pode crescer ao ponto de se tornar perceptível. Isso quebra um pouco o misticismo de Dunkirk, já que é possível notar, então, como a edição de som alimenta a inquietação, um efeito mais impressionante quando imperceptível.

Imagem de 'Dunkirk', do diretor Christopher Nolan, filmado em 70 mm, que se passa na Segunda Guerra Mundial.
Os caças ingleses são a única ajuda bélica que os soldados podem ter para tornar sua fuga mais segura.

Dunkirk no Oscar?

A Mãe detesta exercícios de futurologia. Principalmente quando ainda temos muito a ver nos próximos meses. Mas algumas coisas não podem ser negadas: Dunkirk já é candidato certo para o Oscar de Melhor Filme. Não só porque a temática da guerra costuma ser bem recebida pela Academia (e nós já discutimos como o Oscar é uma votação política). Mas, principalmente, porque Dunkirk consegue dar uma leitura extremamente autoral para um gênero cercado de vícios. Talvez até mesmo tão autoral quanto Coppola fez em 1979, com Apocalypse.

Vou com a Mãe nessa aposta. É bem provável que Dunkirk seja nomeado ao Oscar de Melhor Filme – e talvez mesmo ganhe. Além de ter uma temática que agrada a Academia e de trazer algo novo para o gênero, o fato do filme ser tecnicamente excelente – algo que a Academia também valoriza muito – pode lhe garantir uma nominação.

Imagem de 'Dunkirk', do diretor Christopher Nolan, filmado em 70 mm, que se passa na Segunda Guerra Mundial.