Falange Resenha | Doentes de Amor

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Vinheta do Professor Lumière
Olá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumiére, seu correspondente de cinema no QG. Hoje vou falar sobre Doentes de Amor (The Big Sick, 2017), comédia romântica que foi sensação no Festival de Sundance e tem feito fãs apaixonados por onde passa. A produção é também um dos filmes independentes mais bem-sucedidos do ano, pois custou 5 milhões de dólares e já arrecadou mais de 53 milhões ao redor do mundo. Kumail Nanjiani (o Dinesh de Silicon Valley) escreveu e protagonizou o longa, inspirado por eventos da própria vida. Assista ao trailer abaixo:

As comédias românticas certamente formam um dos gêneros mais saturados do cinema. Curiosamente, isso não tem a ver com a quantidade de filmes produzidos por ano – se comparados com os filmes de ação, por exemplo, as comédias românticas praticamente inexistem em quantidade. O problema é que os roteiristas do gênero raramente buscam inovar em suas técnicas, se entregam a convenções sem nenhuma resistência e se conformam em seguir a receita de bolo que garante sempre o mesmo tipo de público. Felizmente, Doentes de Amor é um respiro de originalidade de comédias românticas em Hollywood, que prova que ainda há muitos caminhos para se contar histórias diferentes – e ótimas.

Doentes de Amor… pelo roteiro

Um dos grandes méritos de Doentes de Amor é que o roteiro de Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon entende e reproduz com naturalidade as esquisitices de início de relacionamento.  O melhor exemplo disso é um momento em que Emily acorda na casa de Kumail às 3 da manhã com um desejo incontrolável de tomar café… mas com condições estranhas. As primeiras cenas são bastante eficientes em construir as personalidades de Kumail e Emily e, através de diálogos rápidos e espertos, estabelecê-los como pessoas com as quais o espectador não se importaria de conversar um pouco. Diálogos esses que se beneficiam enormemente do fato de que os Kumails (real e fictício) são stand-up comedians, o que se traduz em um personagem que sempre tem algo engraçado a dizer – mesmo nos momentos em que deveria ficar calado.

A diversidade também contribui muito para o tom de originalidade do filme. Em seu núcleo se trata de uma história comum de um cara conhecendo uma mulher, mas só o fato de mudar a nacionalidade do protagonista já adiciona diversas camadas às relações entre os personagens, em especial nas diferenças culturais. Kumail é membro de uma família paquistanesa que passa longe de qualquer caricatura. O divertido entrosamento do elenco familiar, inclusive, é fundamental para que não os vejamos como o “inimigo” de Kumail, uma vez que sua mãe tenta manter as tradições paquistanesas de casamentos arranjados – algo que Kumail não tem o menor interesse em perpetuar. Ainda assim, é possível entender a motivação dos pais de Kumail e até valorizar o seu empenho: as meninas paquistanesas selecionadas por eles são, em sua maioria, descoladas e bastante amigáveis.

Imagem de Doentes de Amor mostra os pais de Kumail sentados num sofá
Os pais de Kumail divertem bastante sem serem caricatos

Outro mérito de Kumail ao utilizar sua nacionalidade como um adereço é que isso o permite incorporar todo tipo de comentário preconceituoso que ouviu na vida de uma forma que exponha a imbecilidade de quem o faz. Em um determinado momento do longa, um personagem tem a péssima ideia de falar sobre o atentado do dia 11 de setembro com o objetivo de quebrar o gelo, e Kumail dá uma das melhores – e mais engraçadas – respostas do filme.

Além dos diálogos inspiradíssimos, a química de Kumail com Kazan é contagiante, razão pela qual o filme ganha contornos muito mais dramáticos quando a menina se torna vítima de uma misteriosa doença. Nós aprendemos a gostar dela tanto quanto Kumail, e sofremos junto com ele à medida que o estado de saúde da menina piora. A doença de Emily também abre espaço para que seus pais, Beth e Terry (vividos por Holly Hunter e Ray Romano), entrem na história, e eles servem como as evidências definitivas para provar que não houve absolutamente nenhuma escolha ruim de elenco durante a produção.

Imagem de Doentes de Amor mostra Kumail e Emily conversando diante de uma estante de livros
A química entre Emily e Kumail é contagiante

Como se não fosse o bastante, os pais de Emily adicionam uma camada extra ao roteiro que vem acompanhada em doses iguais de leveza e preocupação. Hunter e Romano em nenhum momento deixam o espectador pensar que não são um casal que convive há décadas: as pequenas brigas, as menções a problemas antigos (que jamais ficamos sabendo quais são) e a forma como se conhecem bem (“ele vai beber duas taças de vinho e apagar no sofá”) fornecem um interessante contraste à forma como Kumail enxerga os relacionamentos. Já na dose de preocupação, é impossível não se comover ao assistir a Terry e Beth temerem pelo destino da filha e fazerem de tudo para tentar acreditar que a doença da menina é algo passageiro, ao mesmo tempo que tentam de tudo para entender o que se passa com a menina através de anotações e pesquisas.

Foi com um pouco de surpresa que eu descobri, nos créditos finais, que Doentes de Amor trata de uma história real (com algumas alterações, logicamente). Como gosto de conferir um filme sabendo a menor quantidade de informação possível, a informação confere um peso ainda maior aos acontecimentos da trama. Ao mesmo tempo, não saber o desdobramento da história real (o que é o caso de muitos dos espectadores, já que Kumail Nanjiani ainda é bastante desconhecido, especialmente no Brasil) é ótimo, pois te coloca no mesmo lugar que Kumail, Tery e Beth: desesperados diante de uma virose qualquer que de repente ganha proporções catastróficas e se transforma em um pesadelo que parece jamais acabar. Por isso, o equilíbrio nas tramas cômicas e dramáticas funciona tão bem que não fiquei muito chocado quando me peguei secando lágrimas ao perceber que, assim como aqueles personagens, eu poderia estar prestes a testemunhar o fim de uma pessoa que se tornou muito querida por mim.

Imagem de Doentes de Amor mostra Terry (Ray Romano) e Beth (Holly Hunter) em uma sala de espera. Beth está tricotando.
Ray Romano e Holly Hunter são uma atração à parte

Isso é tudo que posso dizer sem dar spoilers, é claro. O que posso revelar é que o destino de Emily é bastante coerente com a narrativa, de forma que o final ganha uma ótima rima verbal e visual com uma situação que acontece no começo do filme – o elemento que faltava para que Doentes de Amor ganhasse um lugar permanente em meu coração.

O que aprendemos com Doentes de Amor? Ainda há esperança para as comédias românticas!

Lição de casa: Assistir à série Silicon Valley para mais doses de Kumail Nanjiani e ficar de olho na carreira dele.