Falange Resenha | Divórcio

0

Vinheta de abertura de postagens do Professor Lumière, personagem do site Falange.netOlá, queridas e queridos membros da Falange. Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema no QG. Hoje vou falar sobre Divórcio, comédia brasileira estrelada por Murilo Benício e Camila Morgado. O filme acompanha Noeli e Júlio, um casal que fica rico após inventar uma maravilhosa receita de molho de tomate. Mais de uma década depois, os dois se distanciam e, ao pedirem o divórcio, começam uma ferrenha batalha para decidir quem ficará com o patrimônio da empresa que criaram juntos.

Imagem divulgação Divórcio mostra Camila Morgado apontando uma arma para o canto da tela enquanto Murilo Benício aparece assustado atrás dela.

Divórcio é a nova comédia de Pedro Amorim

Durante boa parte do primeiro ato de Divórcio é difícil acreditar que não se trata de uma comédia pastelão que não vai sair da mesmice. Quase todo tipo de exagero está lá: um personagem que dispara uma arma e acerta um alvo impossível, piadas escatológicas e algumas atuações caricatas. Tudo isso serviria como um grande indício de que a comédia já falharia nos primeiros minutos, mas alguns elementos colocados pelo diretor Pedro Amorim (o mesmo de Mato Sem Cachorro, de 2013 e Superpai, de 2015) acabam sugerindo que a trama tem um pouco mais de ambição do que aparenta.

Imagem de Divórcio contém três latas do molho de tomate "Juno", que foi criado por Noeli (Camila Morgado) e Julio (Murilo Benicio)
O molho de tomate ilustrado por Noeli (Camila Morgado) movimenta a trama.

A sequência que ilustra a passagem de tempo após o casamento de Noeli e Júlio, por exemplo, é eficiente não só em mostrar como a vida adulta aos poucos vai eliminando nossos sonhos e inspirações (os quadros e pôsteres nas paredes desaparecem aos poucos), mas também como o casal foi se afastando ao longo dos anos – e é especialmente interessante reparar que, se a dupla vivia colada em um pequeno sofá aconchegante no início do relacionamento, quando estão perto do divórcio os dois se sentam nas duas extremidades de um sofá enorme e sem personalidade.

No entanto, o filme segue cometendo erros que às vezes beiram o ridículo. Algumas cenas pavorosas acabam se contrastando com outras de pura inteligência, como se Amorim quisesse ilustrar no mesmo filme o que um diretor deve e não deve fazer. Em determinado momento, quando o divórcio começa a se tornar a principal trama, Noeli e Júlio vão a um bar e, enquanto ela conversa com outro cara, Júlio fica posicionado exatamente no centro de dois chifres que não passariam despercebidos nem ao mais distraído dos espectadores. Mas, por alguma razão, Amorim decide inserir uma luz digital nos chifres, como quem diz para o público “Vocês repararam? Ele é corno!”. Em contrapartida, mais tarde Júlio acaba se vendo em uma situação de cheque-mate e isso resulta em um dos planos mais geniais do filme, quando ele fica diante de um cartaz com duas mãos enormes que sugerem manipulação, enquanto uma foto da esposa aparece sorridente no canto da tela.

Imagem de Divórcio tem Júlio (Murilo Benício) sorridente no centro de um alvo de prática de tiros.
Enquadramentos óbvios contrastam com outros acertos da direção.

Assim como o filme, as atuações de Benício e Morgado ganham mais camadas à medida que a história avança. Se no começo a composição de Júlio só parece uma caricatura com uma prótese dentária, mais tarde fica claro que ele é uma figura que sempre esteve disposta a adaptar a personalidade – e até as próprias crenças – em prol de conseguir investidores para o seu negócio, o que o transformou em uma espécie de boneco Ken: vestido com tons pastéis, um sorriso artificial e os maneirismos de uma pessoa que não sabe lidar com nenhum tipo de conflito. Noeli, por outro lado, raramente é vista em um figurino que não tenha tons de vermelho e rosa, já que a invenção do molho de tomate representou sua independência e lhe garantiu tudo que queria na vida.

Mas Divórcio ganha força de verdade no terceiro ato, quando Amorim parece finalmente acertar o tom e encontrar o potencial das gags dentro da história que construiu. Uma das melhores sequências é protagonizada por Pardalzinho (Robson Nunes), que resulta em uma piada repetida que funciona melhor da segunda vez (“morar no interior é um cu”). Essa sequência logo é seguida por outra em que Júlio observa as câmeras de segurança da própria casa a fim de encontrar algo que possa ser usado contra a esposa no tribunal, mas acaba se deparando com uma série de mini-gags hilárias. Daí pra frente o filme só acerta, mesmo mudando um pouco o ritmo e indo parar em uma subtrama de prisão (e aqui, destaco a competência da direção de arte e roteiro, que retratam a prisão de forma nada caricata e ainda alfinetam o sistema carcerário brasileiro).

Imagem de Divórcio mostra Noeli e Júlio felizes diante de uma mesa cheia de potes do molho de tomate que acabaram de inventar. No fundo, há um quadro com a foto do astro do rock Kurt Cobain.
Direção de arte é um dos grandes méritos do filme.

As comédias no estilo de Divórcio tendem a seguir uma escalada de exageros que podem afastar uma parte do público, às vezes por forçar certos acontecimentos impossíveis no universo daquele filme. O roteiro de Paulo Cursino e Angelica Lopes, no entanto, se aproveita do background de sua dupla de protagonistas (eles são milionários) para fazer com que qualquer plano mirabolante seja sustentado pelo fato de que o dinheiro banca suas loucuras – o que torna momentos como aquele em que Noeli resolve metralhar o carro do marido ainda mais divertidos.

Com coadjuvantes que não se destacam muito – Sabrina Sato passa despercebida e as filhas de Júlio e Noeli, assim como a ótima Sofia (Luciana Paes) acabam esquecidas -, Divórcio acaba depositando todas as suas fichas em suas duas estrelas, que carregam o filme sem maiores problemas e quase conseguem fazer com que as derrapadas de direção e roteiro no começo sejam esquecidos.

O que aprendemos com Divórcio: nunca desistir de um filme no primeiro ato, por pior que seja – ele pode te surpreender.

Lição de casa: procurar filmes que começam mal, mas depois melhoram consideravelmente.