Falange Resenha | Detroit Em Rebelião

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange. Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema no QG. Hoje vou falar sobre Detroit Em Rebelião (Detroit), drama dirigido por Kathryn Bigelow – Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008), A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012) – que relata como diversas rebeliões na cidade norte-americana agravaram a brutalidade policial e o racismo no país. O filme certamente estará entre os indicados ao Oscar 2018. Assista ao trailer abaixo:

A diretora Kathryn Bigelow tem uma mão certeira para causar tensão e desconforto. Em Guerra ao Terror, ela fez com que qualquer passo dado em falso pelos personagens fizesse o espectador temer pela própria vida. Já em A Hora Mais Escura, a sequência em que o terrorista Osama Bin Laden está prestes a ser encontrado é um exercício de ansiedade que funciona mesmo que o espectador tenha conhecimento do desfecho da trama. Ao assistir Detroit Em Rebelião, portanto, é natural imaginar que a tensão surgirá em algum momento. Mas este último título tem uma diferença crucial dos dois anteriores: enquanto a noção de viver em uma zona de guerra possa soar distante da realidade da maioria do público, Detroit em Rebelião traz a tensão mais para perto por tratar de um tema bem mais comum em todos os países.

Os primeiros minutos de Detroit Em Rebelião são eficientes em estabelecer o clima da cidade em 1967: a comunidade negra vive e se diverte em isolamento, tentando ao máximo evitar o contato com a polícia, já que praticamente todo encontro entre civis e policiais resulta em agressão (na melhor das hipóteses) e morte. A abordagem de Bigelow ao material não é muito diferente de seus filmes anteriores – a câmera de mão mais uma vez confere à história um tom mais realista e documental, além de nunca parar de se mover para sugerir a forma agitada como os cidadãos de Detroit vivem seu dia a dia.

Detroit Em Rebelião/Rio de Janeiro Em Rebelião

O estresse nas ruas inclusive pode ser comparado com diversas cidades brasileiras, onde a marginalização de uma parcela da sociedade faz com que o clima das ruas seja caótico e estressante. Assim como nas metrópoles brasileiras, o clima nas ruas de Detroit sugere que os cidadãos estão à beira de uma revolta – e isso só se torna ainda mais agravante quando se insere o racismo como combustível para o conflito.

Imagem de Detroit em Rebelião mostra um policial ameaçando um negro visivelmente brutalizado
Conflito entre policiais e negros atinge níveis desconfortáveis

Quem acompanha os noticiários – nacionais e internacionais – sabe que a brutalidade policial é um problema constante ao redor do mundo. Casos de abuso de autoridade são recorrentes, assim como manipulação de cenas do crime e extrema violência, principalmente com cidadãos negros. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil, não é preciso ser um jornalista exímio para abrir o Google e encontrar casos recentes de violência policial que resultaram na morte de pessoas negras inocentes – inclusive crianças menores de 10 anos de idade. Em outros casos, mesmo que as pessoas em questão não tenham sido tão inocentes assim, o crime por elas cometido dificilmente justificaria tortura e execução como punição.

Antes de dedicar tempo a esse tipo de violência extrema, no entanto, Detroit Em Rebelião mostra com eficiência a forma como pessoas negras são tratadas por policiais corriqueiramente. Revistas ”aleatórias” realizadas de forma agressiva e truculenta que, se recebida com indignação, só gera mais truculência; invasão de propriedade e, no caso de Detroit, reações exageradas a figuras que roubam comida para alimentarem suas famílias. O roteiro de Mark Boal nunca romantiza o roubo, é importante ressaltar, mas tampouco julga quem o faz com o propósito de não morrer de fome.

Mas tudo isso só serve como um terrível aperitivo para a sequência mais importante do filme, aquela que evoca a tensão e a eleva a um nível tão surpreendente que, preciso dizer, eu achei que não suportaria assisti-la até o fim e considerei sair da sala de cinema algumas vezes. Não que eu precise descrever a sequência para que você saiba qual é, não é nada difícil identificá-la. Mas trata-se de uma batida policial comandada por um policial racista que invade um hotel e submete os hóspedes a todo tipo de situação humilhante, a fim de conseguir um objeto que ele nem tem certeza se está no local.

Imagem de Detroit em Rebelião mostra batida policial em que os negros são forçados a ficarem contra a parede
Sequência mais tensa do filme não é para os de estômago fraco

A força da sequência – que pode ter durado 20 minutos ou uma hora, tanto foi o meu envolvimento que eu não saberia dizer (e não estou ansioso pra revisitá-la nem para fins de cronometragem) – deriva não só da habilidade de Bigelow em criar conflitos psicológicos. A sequência é também mais poderosa quando o espectador percebe que está “vivendo” uma experiência que acontece rotineiramente em diversas favelas e periferias pelo mundo – a diferença, é claro, é que as vítimas desse tipo de situação não têm a opção de simplesmente levantarem e saírem da situação desconfortável e pararem de pensar nela.

O maior problema de Detroit Em Rebelião está em seu principal antagonista, o policial abertamente racista Krauss (Will Poulter), cuja composição cai num erro bastante comum dos filmes sobre racismo – associar o preconceito a figuras vilanescas e unidimensionais, o que nunca faz o espectador refletir sobre os preconceitos nossos do dia-a-dia. E para transformar Krauss em um vilão, o roteiro ainda comete alguns excessos, começando com a escalação de Poulter, que não tem um rosto amigável. Além disso, logo no começo do filme Krauss atira em um negro que não oferecia nenhuma ameaça a ele pelas costas e depois isso é comentado explicitamente pelos colegas, a fim de deixar claro para o público que ele é mau, muito mau.

Imagem de Detroit em Rebelião mostra o ator Will Pouler de costas em primeiro plano
O antagonista Krauss (Will Poulter) é retratado como uma caricatura vilanesca

Não é como se essas pessoas não existissem, é claro. Como todos sabemos, o racismo ainda está bem vivo e tem discípulos fiéis. O problema é que transformar um personagem racista em um vilão caricato estimula várias pessoas a seguir o raciocínio de que “nossa, eu não sou assim, não faço essas coisas, então não sou racista”. Esse tipo de personagem nos faz esquecer que o preconceito racial está entranhado em todos nós de diversas formas, e muitas delas são tão sutis que nem reparamos até alguém apontá-las para nós. Pessoas mal intencionadas existem aos montes, mas ninguém consegue olhar para si mesmo de forma crítica quando o problema está sendo representado por uma caricatura com a qual ninguém se identifica.

O que aprendemos com Detroit Em Rebelião? Kathryn Bigelow estará novamente no Oscar em 2018.

Lição de casa: Procurar filmes em que pessoas racistas não são retratadas como vilões caricatos, obrigando o público a analisar suas próprias atitudes.