Falange Resenha | Demon

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Vinheta da Mãe SerpenteDepois que O Exorcista (The Exorcist) foi lançado, em 1973, a possessão demoníaca se tornou um subgênero do terror. E em mais de quarenta anos, poucos foram os filmes capazes de deixar uma marca tão grande quanto o clássico. O filme escolhido para falarmos sobre possessão em nosso especial de Mês das Bruxas não poderia estar mais distante da fórmula hollywoodiana. A produção polonesa Demon foi o último filme do diretor Marcin Wrona, e não possui nenhuma cena de exorcismo. Na verdade, a figura do demônio fica apenas sugerida, podendo mesmo ser descreditada pelo espectador. A origem do mal também não é cristã, mas retoma os mitos judaicos dos dybbuks, almas presas no nosso plano que não são necessariamente más, apenas permanecem incapazes de seguir em frente. O formato pouco usual se deve à analogia central de Demon, difícil de compreender para quem não conhece a cultura polonesa, mas essencial para discutir o modo como toda a humanidade preserva sua memória histórica.

Um casamento complicado

O filme Demon se passa inteiramente em um período de dois dias. Piotr, um jovem inglês, chega à Polônia para sua cerimônia de casamento com Zaneta. Lá ele conhece pela primeira vez a família de sua noiva, que denuncia por pequenos gestos seu desconforto com a presença de um estrangeiro. Desagrada também o fato de que a relação de Piotr e Zaneta tenha seguido em um ritmo muito acelerado. Mas, se é impossível evitar a união, que haja festa! É dessa forma que Piotr é recebido, com uma celebração de casamento regada a vodka, música, dança e barulho.

Acontece que, na noite anterior ao casamento, enquanto trabalhava na reforma da casa que pretende ocupar com sua esposa, Piotr desenterra um esqueleto no quintal. Desse ponto em diante, a alma de uma mulher judia chamada Hana se apodera de seu corpo aos poucos. Hana é dybbuk, um demônio judaico criado a partir de uma alma que se recusa a reconhecer sua própria morte. E que por isso se prende ao mundo terreno; nesse caso, à figura de Piotr. A angústia, e mesmo a graça, derivada da estória de Demon se dá na tentativa cada vez mais desesperada da família de Zaneta de esconder a situação do noivo.

Imagem do filme polonês Demon, de Marcin Wrona. A imagem mostra um casal, em frente a um padre, dentro de uma igreja, se casando.
O realismo de ‘Demon’ deriva de suas escolhas de cores e tons, uma estratégia que passa também pela atuação e roteiro.

Primeiro é necessário esconder o achado no quintal, um esqueleto que só Piotr é capaz de ver. Depois, o próprio noivo precisa ser escondido. Sua possessão rapidamente reduzida a acessos de esquizofrenia. Por fim, é necessário embebedar os convidados, e garantir que a festa continue, e que nada de errado seja percebido. A única figura que parece identificar a gravidade da situação é um velho professor, judeu. O mesmo professor que é vaiado no seu brinde de casamento, quando afirma a importância de lembrar do passado. Vaiado por rostos fora de foco, por uma multidão irreconhecível. Vaiado por vozes vinda de todo lugar, e de lugar nenhum. Um estraga-prazeres, que interrompe a celebração e alegria com assuntos desagradáveis. Da mesma forma que muitas vezes ocorre com a História em nossas vidas.

Demon | A estória e a História

O reconhecimento imediato dos críticos quanto à qualidade de Demon deriva da compreensão de que o filme é uma grande alegoria para a forma que o Polônia lida com seu passado, principalmente no que diz respeito aos judeus. Os mesmos judeus massacrados, enterrados e constantemente ignorados pela sociedade. Um esqueleto indigesto no quintal, que pode mesmo provocar o ressurgimento de figuras e vozes de um tempo que todos querem esquecer. A possessão, tão temida, é um reflexo da desconfortável certeza de que o massacre dos judeus na Polônia não foi apenas fruto da invasão alemã. Foram poloneses que também mataram judeus, e os enterraram em seu próprio quintal. E que todos festejem e fiquem bêbados, antes de termos que lidar com descobertas escusas.

Imagem do filme polonês Demon, de Marcin Wrona. A imagem mostra o noivo dançando com uma mulher pálida e de olheiras marcadas.
Enquanto ignorados, os cadáveres escondidos continuarão a formar fantasmas que atormentam as novas gerações.

O esquecimento coletivo da Polônia pode ser expandido para o resto do mundo. E não apenas na questão judaica. Todo país, todo povo precisa lidar com os fantasmas de seu passado. E por mais que lembrar possa ser uma fonte de medo, como uma possessão, sempre ignorar sua existência é o que cria a oportunidade para que esses demônios voltem a assombrar os vivos.

Uma elegia para Marcin Wrona

Para além de sua natureza alegórica, Demon também trata do descontrole emocional. Da degeneração de um homem que, mesmo em um momento que deveria ser feliz, acaba por definhar aos poucos. Nessa tarefa, o ator Itay Tiran é o maior destaque de um elenco de excelência, por provocar uma alteração gradual, mas drástica, na figura de Piotr. Isso em um filme com pouquíssimos efeitos especiais, e uso limitado de maquiagem. Essa perspectiva de Demon, como um estudo da atrofia emocional de um homem, já foi interpretada, muitas vezes, como um aspecto autobiográfico.

Em 2015, ano de lançamento de Demon, o roteirista e diretor Marcin Wrona se enforcou em um quarto de hotel, enquanto comparecia a um festival onde o filme era exibido. Wrona se matou no momento de consagração de seu filme, vítima da depressão, um mal que se esconde atrás de rostos felizes na multidão. Embora Demon, sem dúvidas, carregue fortes traços do turbilhão emocional de seu criador, é importante também reconhecer o filme como uma obra independente, que deve ter seus méritos para além da estória trágica de Marcin Wrona.

É uma pena que um artista com uma sensibilidade incrível na criação estética de um filme tenha morrido depois de apenas três filmes. Mas Demon, e Marcin Wrona, servem também de exemplo recente para o quanto a saúde mental é um problema sem fronteiras e limites nacionais. Um problema para o qual deveríamos estar mais atentos.