Falange Resenha | Dark

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Vinheta da Mãe SerpentePouco tempo depois de popularizar o formato de streaming como um negócio viável, a Netflix passou a investir pesado em produções independentes. Com o fim da parceira entre o canal e a Disney, são essas as produções que podem evitar sua falência. Afinal, junto com a Disney saem também quase todos os produtos ligados à Marvel, ao universo de Star Wars, Piratas do Caribe, Indiana Jones e seja lá o que mais a gigante de mídias comprar até 2019. Para multiplicar o número de filmes e séries com o selo Netflix, o canal tem investido em produtoras locais dos países em que atua, de forma a diversificar seu catálogo e consolidar sua posição como empresa de mídia global. É desse esforço que surgiu o primeiro seriado alemão original da Netflix: Dark.

Com a primeira temporada disponível na íntegra desde a última sexta-feira, Dark gira em torno do desaparecimento misterioso de uma criança, em um crime que atravessa gerações, e envolve, desde o início, elementos da ficção científica. Ao mesmo tempo um drama policial e um tratado sobre viagem temporal, Dark constrói bases sólidas ao longo de sua primeira temporada. Infelizmente a aposta pesada em uma continuação faz com que o roteiro não se preocupe em criar uma temporada suficiente por si mesma. Dark, no fim das contas, faz jus a seu nome, e deixa os espectadores no escuro, apenas com a promessa de um esclarecimento futuro, que só irá acontecer com um sucesso improvável e o aval da Netflix para a continuação da produção.

Dark | Não, não é Stranger Things

À primeira vista, Dark tem muito em comum com outro sucesso recente da Netflix: Stranger Things. Ambas as séries se desenvolvem a partir do sumiço de uma criança, possuem elementos de ficção científica, e eventos paranormais fazem as luzes e aparelhos elétricos piscarem pela cidade. As duas séries também têm como cenário uma cidade pacata, onde nada acontece. E há mesmo uma grande empresa no centro de todas as suspeitas, um laboratório em uma, uma usina elétrica em outra. Entretanto, a sensação de semelhança que transparece ao longo dos primeiros episódios de Dark não demora para sumir.

Enquanto Stranger Things é recheada de humor e diversão, apesar de seus momentos tensos, Dark cria uma atmosfera densa, em que é difícil vislumbrar qualquer esperança. As tomadas valorizam pontos únicos de luz no meio da escuridão impenetrável, e mesmo no meio do dia, na cidade de Winden, a fotografia não permite ao espectador vislumbrar qualquer possibilidade de um desfecho feliz para a estória. O objetivo dessa narrativa passa longe, como em Stranger Things, de um arco de aventura, onde um grupo de amigos vence desafios e pode desfrutar de um futuro melhor. Dark, ao contrário, dispensa qualquer clima de união, e todas suas personagens são suspeitas, guardam segredos e desconfiam umas das outras.

Imagem da série alemã Dark, da Netflix. A imagem mostra um garoto ruivo amordaçado e preso em uma cadeira metálica.
Experimentos bizarros com crianças é só mais uma comparação possível com ‘Stranger Things’

Dark é uma experiência apoiada por completo na desconfiança. A desconfiança do espectador quanto ao desenrolar da narrativa, e a desconfiança das personagens com o mundo a seu redor. Esse é um sentimento necessário para uma série de mistério, principalmente quando Dark faz questão de sempre sugerir viradas e revelações, que nem sempre se concretizam. Isso porque, para além do rapto de uma criança, o conceito central da produção é a percepção humana do tempo, e como presente, passado e futuro são momentos simultâneos, de uma perspectiva física.

Apesar de sua excelente direção e montagem, o maior problema de Dark acaba por ser justamente suas grandiosas intenções. Trabalhar com o conceito de tempo não é tarefa fácil, e a maior parte das produções audiovisuais falha miseravelmente em manter qualquer coerência interna. Além de ser coesa, Dark aproveita a temática para desenvolver tomadas belíssimas e criativas, em que mais de um momento histórico surge na tela ao mesmo tempo. No entanto, depois de dez episódio, que variam de 45 minutos a uma hora, a sensação que fica é de uma introdução longa e lenta. Preocupada em explicar ao máximo o conceito complexo por detrás de sua narrativa, Dark falha em desenvolver um enredo que seja capaz de justificar sua duração. O desenrolar verdadeiro da trama termina como uma promessa para a segunda temporada. Uma escolha ousada, considerando que a Netflix já cancelou séries maiores pela falta de público proporcional aos gastos de produção.

Perdido no grande plano de fundo

Sem se preocupar com o desenvolvimento de suas personagens, Dark apresenta um elenco vasto já nos primeiros episódios. Não há, no entanto, um conjunto de protagonistas; todos os rostos dividem o pouco tempo em tela de forma mais ou menos equilibrada. Isso torna difícil acompanhar quais são as relações que as personagens mantêm entre si, e de que forma cada uma delas é responsável por aspectos específicos do mistério principal. Conforme a narrativa avança, e novos cenários são introduzidos, com cada vez mais rostos e nomes a serem memorizados, o espectador precisa se esforçar se quiser compreender todas as nuances de uma estória complexa e cheia de detalhes importantes.

Esse efeito não é culpa dos atores. Sem espaço suficiente para estruturar relacionamentos com os quais o espectador possa se identificar, Dark investe todo seu esforço em explicar seu contexto. O que inclui diálogos que não servem para nada além da exposição de explicações, e longas tomadas direcionadas a locais e objetos recorrentes. O plano de fundo da série é mais importante que o desenvolvimento de arcos porque, com uma trama não-linear, Dark precisa garantir que o espectador compreenda uma estória que desafia sua percepção sobre o passar do tempo.

Para o público em geral, pouco habituado com essa abordagem temática, a lentidão é necessária para a compreensão, mas desestimulante. Já para amantes do mistério e da ficção científica, a estrutura de Dark prejudica as surpresas potenciais. Mesmo as viradas mais drásticas de roteiro são previsíveis, já que partem de lugares comuns do gênero, e sem personagens interessantes por quem torcer, só resta utilizar toda a atenção para resolver os mistérios antes mesmo do andamento da série.

Nenhum desses problemas retira o mérito da excelente fotografia e montagem da Dark, e um roteiro que trate de viagem temporal por mais de oito horas seguidas sem furos merece aplausos apenas por esse feito. Infelizmente, Dark aposta tudo em uma segunda temporada, a ser confirmada, e não dá um início real à sua trama. Como uma introdução a figuras e conceitos, Dark é instigante, reflexivo e perturbador. Mas falha na adequação ao formato seriado.

Imagem da série alemã Dark, da Netflix. A imagem mostra um adolescente com capa de chuva amarela na frente de uma caverna; o fundo da imagem está duplicado como um espelho.

  • Miguel Rezende

    A resenha abordou alguns aspectos que eu não havia notado e realmente enriquecem a obra, mas bom, eu faço parte da parcela que conhece um bocado sobre viagem no tempo. Algo que particularmente não me agradou, apesar de realmente manter uma coerência interna, é a abordagem da viagem no tempo na série. Além de tentar misturar conceitos bíblicos e da mitologia grega à viagem no tempo, a série parte do princípio de que os universos paralelos não existem. Se você observar, a maior parte dos seriados atuais que tratam da temática tenta se adequar a essa teoria, o que acaba agregando mais à série. Além disso, a escolha do último episódio foi um fracasso, porque pessoas que não tem muita noção de viagem no tempo não entenderam nada, não é possível a partir da série em si, e entusiastas de viagens temporais provavelmente conseguem abstrair a partir de teorias externas. Eu cheguei à essa como uma conclusão obvia a partir do final: De que eles adequaram a história de John Titor à série, o que leva ao ponto negativo de juntar muitas teorias de viagem no tempo.