Falange Resenha | Corrente do Mal (It Follows)

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Vinheta da Mãe SerpenteCorrente do Mal, também conhecido como It Follows, foi um dos maiores sucessos do horror em 2014. Um sucesso em relação à crítica, que ficou fascinada pela forma simples e eficaz com que o filme personifica o medo de doenças sexuais de uma geração habituada ao sexo ocasional. Sucesso também de bilheteria, já que o filme independente, que contava com um orçamento de apenas 2 milhões de dólares, arrecadou mais de 20 milhões nos cinemas. Dez vezes mais do que seu custo inicial. O que não deveria ser muita surpresa, considerando a produtora que apostou no projeto: a Blumhouse. A mesma produtora que garantiu arrecadações milionárias com Fragmentado (Split) e Corra! (Get Out) esse ano. E que segue muito bem com a A Morte Te Dá Parabéns (Happy Death Day). Para começar esse Especial Mês das Bruxas, a Mãe, então, quer reapresentar um filme já conhecido. Porque se você ainda não viu Corrente do Mal, precisa ver. E se já viu Corrente do Mal, a Mãe espera que você possa assistir ao filme novamente, sob um novo olhar.

Corrente do Mal | Uma tradução… do mal!

Antes de falarmos propriamente do filme, é necessário abrir um parêntese sobre a tradução de títulos de filmes de terror. O último Mesa Para Três já rendeu uma discussão sobre os filmes de comédia, mas o terror também não escapa das traduções infelizes. Na dúvida? É só colocar um “do mal” em algum lugar! O título original, It Follows, realmente não soa bem em português. Isso segue. Ainda assim é uma opção mais original e instigante do que um genérico Corrente do Mal. Um título que se perde em meio a tantos outros. É um fenêmeno que recentemente custou à franquia The Conjuring, simplesmente A Invocação, o título de Invocação do Mal. Podemos citar também Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, 2017). Ou quem sabe Boneco do Mal (The Boy, 2016). Tudo apenas considerando os últimos anos!

Em nome do direito à liberdade de expressão, e depois dessa reclamação ranzinza, a Mãe irá escolher utilizar It Follows para se referir ao filme, ao invés de Corrente do Mal. Náusea, lide com meu anglicismo.

It Follows | Sexo e cinema de horror

Na década de 70, os slashers deram início a uma longa tradição de punir a libido adolescente com mortes horrendas nas mãos de um assassino psicopata. O primeiro grande mérito de It Follows, então, é subveter essa fórmula, reproduzida à exaustão pelo cinema hollywoodiano. Usualmente, a intenção é fazer o público vibrar com cada morte brutal, logo depois de corpos desnudos sugerirem cenas de sexo que vão contra a moral ocidental, de preservação do corpo para o matrimônio. O sexo, em It Follows, não é uma ação pervertida, no entanto. É uma prática natural, casual em todos os sentidos da palavra. Isso não faz com que o prazer seja livre de perigos.

A trama de It Follows segue Jay. Depois de um encontro amoroso, a jovem de dezenove anos contrai uma DST pouco usual: uma aparição passa a perseguí-la onde quer que ela esteja. No entanto, não se trata de um castigo qualquer, que determina que o sexo é uma prática proibida. Pelo contrário, a forma que Jay tem de se livrar de seu perseguidor é transar com outra pessoa, e passar a maldição adiante. A prática sexual, então, é incentivada, e não reprimida. E os jovens de It Follows são apenas um grupo inocente diante de uma realidade perturbadora, e não mais exemplos pervertidos de marginais que devem ser extirpados da sociedade.

Imagem do filme Corrente do Mal, ou It Follows. A imaem motra uma jovem parada em uma porta, enquanto um homem muito alto se aproxima por trás.
A aparição é ainda invisível para quem nunca foi perseguido por ela. Mais uma menção interessante para a forma como DSTs são invisíveis para quem não as possuem.

A inteligência do filme também está em construir seu conceito ao redor de um medo que se tornou recorrente entre jovens apenas em anos recentes: o medo de contrair uma doença depois de fazer sexo sem a devida proteção. Cada vez mais as consequências devastadoras das doenças sexuais se tornam um conhecimento compartilhado à exaustão com adolescentes, desde o colégio. Por mais que se ignore ao máximo as cenas grotescas que ilustram livros escolares, é fácil entender como esse é um medo que se assenta aos poucos no subconsciente das novas gerações. É assim que It Follows se torna uma metáfora extremamente interessante de determinadas relações sociais; um espelho de receios que existem também fora da tela. E a maior potência do terror está aí: em fazer refletir sobre a sociedade, em seus vícios, problemas e medos.

Terror psicológico

It Follows também possui uma outra diferença gritante em relação aos slashers. Quase não há cenas de violência explícita ao longo do filme. O filme se enquadra no que se costuma chamar de terror psicológico. Ao invés de sangue, tripas e sustos forçados, It Follows aposta na construção de uma atmosfera densa. A aparição que persegue Jay se move a passos lentos, mas constantes, sempre em direção à sua vítima, independente de onde ela estiver. É fácil, então, correr e fugir dessa aparição. Mas cada vez que Jay para para descansar, ou mesmo dormir, fica a certeza de que existe algo que se arrasta sem parar, com o único desejo de matar seu alvo.

Apesar do baixo orçamento, e da inexperiência do diretor e roteirista David Robert Mitchelll, It Follows é minuciosamente construído, quadro a quadro. A certeza de que algo sobrenatural pode surgir a qualquer momento faz com que cada plano se torne extremamente significativo também pelo que ele não possui. O espectador compartilha da ansiedade da protagonista, ao tentar prever a chegada da aparição, e procurá-la em algum canto qualquer das tomadas, quem sabe escondida em meio à multidão.

Cena do filme Corrente do Mal, também conhecido como It Follows. A cena mostra uma prato de comida sobre uma mesa preta.
Mesmo cenas mais simples de ‘It Follows’, como uma tomada de um café da manhã, tem uma preocupação com o enquadramento e o uso da cor.

Esse jogo de antecipação e ansiedade é agravado pela capacidade da aparição de assumir a forma de qualquer pessoa, sem aviso prévio. Assim, atores que já são identificados em papéis determinados podem ser reutilizados como a aparição em alguns momentos, e a dúvida de Jay quanto à identidade de alguém ultrapassa a tela e chega a quem assiste a trama se desenrolar.

O ritmo de It Follows é mais lento do que o de filmes de terror mais contemporâneos, principalmente quando consideramos a proliferação de filmes baseados em jumpscares. Ainda assim a espera gratifica o espectador, que aos poucos se envolve com a tensão sentida pelas personagens. Cheio de referências à vida sexual humana, It Follows também é um clássico recente do horror por seu conteúdo, que não se limita a uma fonte sobrenatural de horror, mas trabalha com medos reais, principalmente de gerações mais jovens. E, para melhorar, o filme está disponível na Netflix.