Falange Resenha | Corra! (Get Out)

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Mãe Serpente
A indústria cinematográfica muitas vezes é cruel. Isso é ainda mais verdade no Brasil. Enquanto filmes considerados blockbusters ocupam quase que a integralidade das salas de cinema, obras fantásticas nem chegam a ter um lançamento planejado em terras tupiniquins. Moonlight (2016) só ganhou uma breve exibição, depois de meses de estreia, devido à sua indicação ao Oscar. E não fosse o burburinho gringo em torno de Corra! (Get Out), poderíamos nem mesmo tomar ciência dessa obra fantástica, que chega amanhã, dia 18 de maio, por aqui, depois três meses de seu lançamento inicial. Por coincidência, ambos os longametragens tratam, cada um a seu modo, da questão racial. Uma questão essencial no Brasil. Corra!, no entanto, trabalha o conflito racial a partir de uma perspectiva inédita: o medo. Não é à toa que, de uma maneira um pouco sensacionalista, a imprensa estrangeira tenha cunhado o termo “terror racial”.

Medo e racismo

Apesar de não ser propriamente um filme de terror, Corra! consegue um efeito muito invejado pelo gênero. A todo instante, o espectador em frente à tela permanece tenso. A competência em induzir o suspense é tão grande, que se torna quase inacreditável que o diretor e roteirista do filme, Jordan Peele, seja um novato na indústria. Claro, Peele é um ator há muitos anos. Mas sua área de atuação sempre foi o humor.

Se a direção do filme é tão importante para induzir um estado de alerta constante, o incômodo maior deriva, certamente, do roteiro. Ou, mais precisamente, do conceito que baseia a estória. Na trama, Chris, negro, viaja com sua namorada Rose, branca, para conhecer seus sogros. “Eles não são racistas”, garante Rose. E realmente não são, se a definição de racismo mais usual parte do pressuposto do ódio. Apesar de todo um plano de fundo macabro, a base dos conflitos, e do medo, é justamente a percepção da diferença entre as personagens. Chris, negro, só encontra pessoas de sua cor no papel de serventes. A família de Rose, e os amigos da família, brancos, tratam Chris o melhor que podem. Exaltam sua naturalidade em se tornar um grande lutador. Interrogam sobre suas proezas sexuais. Fazem questão de afirmar a admiração por qualquer esportista negro que já tenha tido um destaque. O racismo, então, deixa de ser entendido apenas como o ódio e o nojo explícitos, uma faceta muito mais próxima da sátira do que da realidade. As entranhas de uma sociedade racista se desdobram justamente nos pequenos atos, que colocam o outro como objeto, ao invés de ser.

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A cena de subúrbio, com a família branca e a empregada negra, já é uma imagem fácil de ser reconhecida. E expor isso é contribuir para a crítica pretendida.

A problemática central do racismo é justamente essa objetificação, que passa muitas vezes por elogio. E passa longe de qualquer possibilidade de punição, legal ou moral. É considerado natural apontar o negro como mais apto a esportes, e valorizar sua aptidão física. E isso ajuda a reduzir o papel do negro ao trabalho braçal. É considerado natural reduzir também a negritude ao fetiche sexual. Também se sente a necessidade constante de reafirmar a empatia, ou mesmo o carinho direto, por figuras públicas ou próximas que sejam negras, como forma de afastar a ideia incômoda de que sejamos racistas.

A genialidade de Corra! está justamente em transformar esse tratamento recorrente na fonte do medo. No medo do protagonista, isolado em meio a uma branquitude que reforça a diferença e a separação, mesmo quando pretende elogiar. E mesmo o medo, e a excitação, da branquitude em lidar com o negro, exótico e distante, só válido pelo seu corpo superior, e não pela sua mente. Como um tigre, uma fera selvagem. Bela, mas distante, reduzida à condição de fera e, por isso, privada de sua humanidade. Apesar de todos os elementos teoricamente absurdos presentes em Corra!, o filme assusta mais pela sua semelhança com a realidade.

Muito mais que um diretor

Para funcionar, Corra! precisa de verossimilhança. Sob o risco de se tornar caricato, e perder o impacto sobre as questões raciais que pretende ter, o filme precisa que todos seus elementos técnicos contribuam para o realismo. O maior desafio, nesse tipo de projeto, é garantir que o elenco seja capaz de realizar o feito. Não é um problema que Corra! possua. Por conta de sua trama, todas as personagens estão sujeitas a mudanças de humor, feição e trejeitos. E isso é algo que acontece com frequência, e que é conduzido com maestria, sem que ocorra nem um momento suspeito na atuação impecável da equipe.

Chris Washington tem o fantástico Daniel Kaluuya, que realizou uma performance inesquecível na primeira temporada de Black Mirror (2011 -), no episódio Quinze Milhões de Méritos (Fifteen Million Merits). Contracenando com Daniel, Allison Williams também dá uma profundidade inesperada a Rose Armitage, inicialmente apresenta apenas como a desculpa para que Chris entre em confronto com a família branca da namorada. Outros destaques são Betty Gabriel, como a empregada doméstica Georgina e Marcus Henderson, como o caseiro Walter. Todos nomes sem grande notoriedade. O que é uma completa injustiça, e serve apenas para reforçar o argumento de como os canais usuais de distribuição cinematográfica muitas vezes inibem que grandes talentos sejam reconhecidos.

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Há também alguns nomes um pouco mais conhecidos, como Lakeith Stanfield. Stanfield será L na versão da Netflix de ‘Death Note’.

Para além do maravilhoso elenco, Corra! também tem uma excelente montagem de som e trilha sonora. A maior parte das faixas de som são originais, compostas por Michael Abels, e chegam a incluir músicas em suaíli, a língua bantu com o maior número de falantes. Jordan Peele também faz referência a outras obras clássicas, principalmente do horror, como O Iluminado (The Shining, 1980) e A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968). sobra espaço também para cenas que remetem diretamente a Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971). Cada parte de Corra! é tão bem planejada e executada, que descobrir que as gravações duraram apenas 28 dias é surpreendente.

Corra! no contexto da produção de horror

É digno de nota que os melhores filmes de horror, ou que passem próximo ao gênero, produzidos nos últimos anos não tenham criaturas grotescas e demônios de outro mundo como fonte do medo. Essa é uma tendência da qual já falamos quando lançou A Bruxa (The Witch, 2015), mas o mesmo se aplica também a O Homem nas Trevas (Don’t Breathe, 2016). E se não fossem algumas escolhas muito duvidosas, mesmo A Cura (A Cure for Wellness, 2016) poderia compor essa lista.

Não é o trabalho mais fácil, o de olhar para o humano e dali extrair a motivação para o medo. Certamente é mais cômodo jogar a culpa em um ser fantástico, irreal, e, no fim das contas, irreconhecível, incapaz de prolongar a sensação de pavor por mais que alguns minutos após o término de um filme. Idealizadores de estórias que fujam do clichê, então, precisam de coragem para produzir seus filmes. Principalmente quando, na maior parte das vezes, não contam com as mesmas oportunidades de divulgação.

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