Falange Resenha | Colossal

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Mãe SerpenteColossal estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira. Nove meses depois de sua primeira exibição em festivais, e dois meses depois do filme ter chegado aos cinemas comerciais no exterior. O atraso é motivado pela estrutura de distribuição brasileira. Infelizmente, somente blockbusters garantidos são valorizados em terras tupiniquins. Foi necessário uma nomeação ao Oscar para assistir Moonlight (2016) por aqui. E sem o frenesi da crítica estrangeira, talvez nem fosse possível conhecer filmes como A Bruxa (The Witch, 2015) e Corra! (Get Out, 2017). Mais uma vez é o barulho que vem de fora que abre espaço para um filme, e mesmo assim em poucas e escassas salas. O que é uma pena, visto que Colossal já é brilhante em seu conceito: misturar drama e comédia cotidiana com filmes de monstros japoneses.

Do clichê ao inesperado

A estória de Colossal tem um ponto de partida realista, comum, e até mesmo reconhecível. Gloria (Anne Hathaway) mora com o namorado em Nova Iorque, está há um ano desempregada, e a falta de sentido geral em sua vida a torna cada vez mais dependente do álcool. Um término abrupto do relacionamento, no entanto, força Gloria a retornar para sua cidade natal, confrontar suas escolhas de vida e repensar seu futuro.

O retorno à pequena cidade de sua infância faz com que Gloria reencontre um antigo colega, Oscar (Jason Sudeikis). Sempre solícito e interessado na companhia da amiga perdida, Oscar oferece a Gloria um emprego em seu bar. O que, obviamente, não a ajuda com seu alcoolismo. A situação ainda se torna mais difícil de lidar para a jovem quando ela se vê diante de seu interesse afetivo por Joel (Austin Stowell), um dos companheiros de bar de Oscar. Comédia romântica? Drama francês? Não exatamente. Porque, ao mesmo tempo, um monstro gigante destrói a cidade de Seul, na Coréia do Sul. E o monstro está ligado a Glória.

Colossal
Anne Hathaway dá verosimilhança à personagem de Gloria. Mas Jason Sudeikis brilha em sua performance como Oscar.

O roteirista e diretor Nacho Vigalongo é extremamente feliz em sua mistura de dois gêneros tão distintos. Colossal permite uma abordagem inédita ao kaiju, colocando o monstro destruidor sob controle direto da ação humana. Não se trata de uma força da natureza, como é King Kong, ou a vingança do mundo pelo uso de armas nucleares, como é Godzilla. Sem explicações desnecessárias, Vigalongo deixa claro, nos primeiros minutos da trama, que Gloria é responsável pela aparição da criatura. E por toda a destruição causada por ela. A destruição de uma cidade no outro lado do mundo, e a responsabilidade por essa destruição, se liga diretamente à responsabilidade que falta a Gloria em seu dia a dia. Essa mudança de escala, entre o gigantesco e o minúsculos é o que será explorado em Colossal, na narrativa e na estética.

Colossal e intimista

Não falta tomadas criativas em Colossal. Vigalongo aproveita toda oportunidade que pode para fazer sobreposições entre Gloria e o monstro, e brincar com a percepção de distância que a personagem tem do epicentro da destruição. A tela de computadores e televisões são elementos essenciais para o desenvolvimento das cenas, e permite mesmo discutir o quanto é possível humanizar vidas do outro lado do globo. Colossal é recheado de pequenas discussões, desde o cuidado com o sofrimento alheio à posição internacional das nações em momentos de perigo. O foco, no entanto, sempre retorna para Gloria, já que o objetivo é tratar a grandeza da questão a partir de uma perspectiva individual. Embora a escolha não prejudique o filme em si, a existência de oportunidades perdidas de discutir essas questões incomoda em algum momento.

Colossal
Sem amenizar nenhuma situação, ‘Colossal’ trata também do abuso de drogas e da necessidade de autocontrole. Fala, por meio de personagens e eventos, da capacidade destrutiva do álcool.

O foco em Gloria e Oscar, na relação e no conflito de ambos, também é tão centralizado, que personagens secundários são pouco explorados. Tim, o namorado (Dan Stevens); Joel, o interesse sexual; Garth, o companheiro de bebidas excêntrico (Tim Blake Nelson). Todos são subaproveitados, apenas com aparições pontuais que justifiquem a progressão das duas personagens principais. Garth, por exemplo, desaparece na metade do filme, para nunca mais ser visto ou mencionado. E, considerando a excelente atuação de Tim Blake Nelson, sua ausência faz falta.

A intenção de contrapor a magnitude de monstros destruidores de prédios com a aparente simplicidade dos problemas rotineiros, apesar de falhas, é muito bem sucedido. O roteiro inclui reviravoltas e descobertas, e, por incrível que pareça, os trailers não revelam todas as surpresas. No fim das contas, Colossal é um filme sobre monstros interiores, e como lidar com o impulso destrutivo (e auto-destrutivo) que é possível ter dentro de si. Uma perspectiva experimental para a ficção científica, gênero que muitas vezes se repete, quando deveria ser a fonte principal de mudança e criação.

Gênero e inovação

Ainda que com óbvios pontos negativos, Colossal merece o reconhecimento por sua criatividade e potencial de subversão. Gêneros – como comédia, horror ou filmes de herói – servem para orientar o espectador. Mas o que cabe ou não em uma comédia romântica? Quais os limites de um drama? Quando um filme deixa de ser aventura para se tornar outra coisa? O uso excessivo das barreiras criadas por uma nomenclatura abafam a inovação. Pior, criam uma zona de conforto nociva para a renovação da indústria.

Ainda que bem recebido pela crítica em outros países, Colossal ainda não recebeu a atenção que merece no Brasil. Seja a atenção do público, seja de veículos especializados. O que é uma pena. A tentativa, e o erro, devem ser estimulados para a criação de coisas novas. E o maior erro de Colossal é justamente não ousar tanto em alguns momentos. Talvez, quem sabe, pela falta de estímulo a experiências pouco usuais.

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Quem quer mais filmes experimentais?