Falange Resenha | Castlevania – 1ª Temporada (Netflix)

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Mãe SerpenteAo longo de mais de trinta anos, Castlevania (Konami) deu origem a 31 jogos, em inúmeras plataformas diferentes, do Nintendinho ao PlayStation 4. Por um lado, isso significa que uma adaptação fiel da franquia para a televisão é extremamente difícil. Por outro, essa fidelidade não é necessária, já que mesmo grandes fãs dos jogos dificilmente acompanharam toda a saga. A série animada da Netflix, Castlevania, encontrou um meio termo perfeito. Mantém elementos centrais aos jogos em geral, mas tem a preocupação em criar algo novo, atraente para o público leigo. E o resultado é maravilhoso.

Castlevania | Direto do Nintendinho

Conforme anunciado, é Castlevania III – Dracula’s Curse (1989) que serve de maior inspiração para a adaptação. Assim como no jogo, vemos Trevor Belmont, último descendente do Clã Belmont, vagar por Wallachia enquanto forças das trevas destroem a humanidade. Fica a cargo de Trevor, então, seguir o destino de sua família de caçadores de vampiros, e lutar contra o fonte de todo o mau: Drácula. Assim como nos videogames, temos a presença de coadjuvantes como Alucard, o filho de Drácula, e Sypha Belnades, uma bruxa elemental. No jogo, esses eram dois dos três personagens que poderiam acompanhar o herói em sua jornada, desbloqueando finais diferentes.

Apesar de uma fonte específica de inspiração, existem também mudanças significativas, e influências de outras entradas da franquia. A personalidade de Trevor, por exemplo, cabeça-dura, prepotente e explosivo, só seria explorada em outros jogos de Castlevania. Mesmo porque, na época do Nintendinho, os jogos eram mais simples, de uma perspectiva narrativa. O passado de Drácula também é de extrema importância para o seriado, incluindo sua afinidade com a ciência e sua eterna rixa com a humanidade. O que inclui a presença da segunda esposa do vampiro, Lisa Tepes. Já Sypha deixou de ser uma representante da Igreja, e passou a fazer parte de uma ordem de sábios chamada de Speakers. Isso é necessário, pois a Igreja, na série, assumi uma característica mais fundamentalista, incompatível com o uso de artes místicas.

Drácula, em close, aparece encoberto em chamas, na série Castlevania, da Netflix.
Mais do que um vampiro, o Drácula dos jogos ‘Castlevania’ é um mestre da alquimia e da magia. Essa faceta já é mostrada na 1ª temporada da série, em que Drácula já possui poderes além do mito clássico do vampiro.

Existem diversos easter-eggs, preparados para que os maiores fãs da franquia encontre menções a lugares específicos em placas vistas apenas de relance. Ou mesmo o padrão de cores de cada personagem que respeitam os sprites em 8 bits do Nintendinho. A arma principal de Trevor, como não poderia ser diferente, é o chicote Vampira Killer, e o uso de sal e água benta é trazido como elemento da trama. Quem jogou Dracula’s Curse irá também reconhecer algumas batalhas clássicas contra mestres, e ataques retirados de outros jogos, como Symphony of the Night (1997), também surgem nesses combates. Fãs de longa data, então, estão mais do que bem servidos. Isso não significa que quem desconhece os jogos não irá aproveitar a série.

Fantasia obscura

A produção da série começou em 2005, muito antes da Netflix assumir o financiamento e distribuição da série. Na época, não existia precedente para uma aventura medieval com um tom sombrio. Isso mudou muito nos últimos anos, graças, principalmente, à produção televisiva de Game of Thrones (2001-, HBO). Conforme o gênero se consolidou no imaginário popular, a oportunidade de que séries como Castlevania fossem desenvolvidas se tornou maior. É por isso que Castlevania aposta em uma narrativa com personagens realistas, cada um com códigos morais dúbios, apesar de compreensíveis. Temos o Clã Belmont, representado por Trevor, exilado pela Igreja por utilizar as mesmas ferramentas profanas que as criaturas das trevas. Temos Drácula, em sua tentativa, frustada, de se conectar com a humanidade por meio de sua esposa, Lisa. Seu filho, Alucard, que tenta corresponder às lições da mãe de ajudar o próximo. Por fim, a Igreja, do jeitinho que ela era na Idade Média.

A mudança mais brusca em relação aos jogos é também a mais bem vinda na série. A Igreja, no século XV, ainda era extremamente hostil à diferença. A perseguição, tortura e assassinato de inimigos da Igreja era prática comum, e qualquer suspeita da relação de um indivíduo com forças das trevas era desculpa suficiente para sua condenação. No limite desse comportamento, clérigos confundiam ciência e bruxaria, o que ocasionou a morte de milhares de inocentes por simples medo do desconhecido. Essa faceta histórica da Igreja está bem representada na série, e é essencial para a construção do cenário narrativa em que a trama se desenvolve.

Demônios vampirescos pousam no topo de uma catedral, na série Castlevania da Netflix.
Em ‘Castlevania’, seres se esgueiram nas sombras para se aproveitar da virtude humana e saciar seus desejos. E além da Igreja, há também os demônios.

Mais do que violência, Castlevania se sustenta pela relação crua que desenvolve entre as personagens. A partir de temas como vingança e fanatismo religioso, a série consegue ultrapassar os limites curtos de uma estória de heróis e vilões, e constrói, em poucos episódios, a base para um desenvolvimento futuro complexo, e cheio de nuances. Poucos episódios mesmo, porque a primeira temporada de Castlevania só possui quatro capítulos, cada um com uma média de 22 minutos. Mais uma introdução do que uma temporada completa, a série serve para testar a recepção do público e apresentar a narrativa da franquia para novatos. Fica expectativa de que a segunda temporada, encomendada para 2018, possa dar vida a todo esse potencial.

Influência estética

Não seria possível encerrar essa resenha sem fazer menção à estética utilizada na série. Em primeiro lugar, a trilha sonora mistura elementos de heavy metal à orquestra sinfônica, mais uma referência direta aos jogos clássicos do Nintendinho. Já o traço se inspira em produções japonesas, como Berserker (Berserk: Kenpū Denki, 1997-1998), tanto na composição das personagens quanto na movimentação dessas personagens em relação ao cenário. A animação japonesa já permite há décadas o uso da violência para contar estórias, já que os animes são, muitas vezes, criados para um público adulto. Essa associação entre animação e crianças é coisa ocidental. Logo, nada mais acertado do que buscar uma fonte que já domine os efeitos pretendidos para basear Castlevania.

E, realmente, não falta sangue na série. O realismo dos confrontos exige o derramamento de sangue. Cenas cruas e diretas do ataque de monstros a cidadãos de Wallachia também são importantes para demonstrar a gravidade da situação, e os perigos reais enfrentados pelos protagonistas. Sem nem mesmo flertar com o público infantil, Castlevania abraça por completo sua natureza sombria. E é por isso que, talvez, termine por ser a melhor adaptação de videogames já produzida pelo audiovisual.