Falange Resenha | Byzantium – Uma Vida Eterna

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Vinheta da Mãe SerpenteA Mãe havia prometido um texto por dia nesse especial de Mês das Bruxas. Mas os vampiros são um figura tão importante para a cultura pop ocidental que merecem mais de um filme na nossa lista. Se mais cedo falamos de comédia e sátira com O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows, 2014), é hora de voltar ao clima depressivo e dramático que caracterizou os vampiros desde que Bram Stoker escreveu Drácula, em 1897. O filme escolhido, Byzantium – Uma Vida Eterna, é recente, de 2012. E seu diretor, Neil Jordan, já havia feito enorme sucesso com outro filme sobre vampiros, em 1994: Entrevista Com o Vampiro (Interview with the Vampire). Entretanto, apesar do sucesso internacional de Byzantium, o filme ecoou pouco no Brasil. E seus muitos méritos fazem com que o filme merece ser revisitado pelo público brasileiro.

Byzantium

A jornada de Byzantium segue mãe e filha através de estórias paralelas, afastadas por mais de dois séculos. É aos poucos que os contornos da estória das duas se desvelam, bem como as regras do vampirismo válidas para esse universo particular. A transição entre passado e presente se dá por meio do desejo constante de Eleanor de registrar seu testemunho biográfico. Presa para sempre em seus 16 anos, Eleanor sente que a passagem dos anos não representa verdadeiramente a chegada de um futuro, pois, como vampira, é necessário sempre esconder seu passado. Já Clara, sua mãe, foge de segredos enterrados pelos anos, enquanto vende seu próprio corpo para garantir o sustento das duas.

Essa construção de um presente estagnado pela omissão do passado é uma forma belíssima de trabalhar a maldição do vampirismo. Sim, é uma perspectiva que já foi adotada em outras obras, como o próprio Entrevista Com o Vampiro, especialmente pela pequena Claudia, privada de uma vida adulta por sua transformação enquanto criança. Mas em Byzantium o fardo da imortalidade se torna o elemento central da trama. Mãe e filha estão confinadas dentro de uma realidade que insiste em se repetir, não importa que décadas voem como pedaços de papel ao vento. E enquanto Eleanor, em sua eterna juventude, quer quebrar o ciclo e buscar paz com seu passado, Clara, marcada pela violência da vida, insiste em priorizar a segurança à liberdade.

Imagem do filme Byzantium - Uma Vida Eterna. A Imagem mostra Eleanor, interpretada por Saoirse Ronan, em primeiro plano, com dedos ensaguentados nos lábios, e um capuz vermelho cobrindo sua cabeça;
A construção da personagem de Eleanor, interpretada por Saoirse Ronan, passa também por sua relação particular com o consumo de sangue. Como o anjo da morte, a menina procura idosos e doentes, e solicita a autorização para levá-los ao outro lado.

Apesar de seu conteúdo fantástico, Byzantium é um retrato realista de relações humanas. Para além do sangue e das mortes, que são poucas e distantes ao longo da trama, vemos o convívio conflituoso de mãe e filha esbarrar em outras figuras, ganhando contornos e nuances tão delicados e significativos quanto aqueles encontrados na própria vida. O realismo de Byzantium, seu grande trunfo como filme, perpassa as escolhas visuais, um trabalho conjunto do diretor Neil Jordan e do diretor de fotografia Sean Bobbit. Um trabalho que demonstra o potencial impacto que imagens na tela podem causar, mesmo sem o uso extensivo de efeitos especiais, cada vez mais uma muleta para o cinema contemporâneo.

Clube do Bolinha

A temática de vampiros, de modo particular, não se limita quando o objetivo é demonstrar a sensualidade das criaturas como uma forma de caça. Vampiros são essencialmente elegantes e belos, e seu resplendor atrai presas desavisadas. Mais do que uma característica natural da espécie, a elegância normalmente é derivada de um passado rico, muito ligado a grandes famílias e à classe nobre. Em uma subversão rara do gênero, Clara e Eleanor são miseráveis desde antes de suas transformação; Clara já era uma prostituta, e Eleanor foi criada em um orfanato. Isso faz com que Byzantium seja original ao tratar da sociedade vampírica a partir de uma perspectiva de subalternidade, a perspectiva daqueles que vieram de baixo, e não estão acostumados a ser o centro das atenções. A sensualidade de Clara ainda é uma arma, mas de uma origem diferente. Mais explícita e direta, sem sutilezas. Uma sensualidade de quem tem fome e pressa, ao invés de tradições e bons costumes.

Imagem do filme Byzantium - Uma Vida Eterna. A Imagem mostra Clara, interpretada por Gemma Arteton, parada na sacada do hotel Byzantium, de noite.
A equipe de maquiagem e figurino tem grande mérito em realçar a presença marcante de Gemma Arteton como Clara. Clara carrega sua própria sexualização como forma de forçar um espaço no mundo de baixo para cima, e sua escolha de vítimas por homens atraídos pelo seu corpo é uma forma de inverter a suposta fragilidade causada pela sensualidade que exibe.

É com seu corpo, e com a certeza de ser desejada, que Clara consegue esconder Eleanor e a si própria, fugindo pelas cidades irlandesas sempre que sua identidade pode ser descobertas por pessoas indesejadas. Mãe e filha, com atritos agravados pela condição da imortalidade, vagam entre lugares, sem que a paisagem, e as condições de suas vidas, mudem verdadeiramente. Mãe e filha. A escolha de figuras femininas não é aleatória em Byzantium. Em um universo onde homens costumam ganhar protagonismo ou posições de liderança, as duas figuras femininas representam na tela o que acontece na vida real. A sociedade vampírica de Byzantium se revela uma organização estritamente masculina, e seu gênero fará com que Clara e Eleanor entrem em conflito com outros membros de sua espécie.

A maior falha de Byzantium é não explorar de maneira mais incisiva o princípio de gênero da organização vampírica criada. Essa é a maior potência do filme, pois parte de uma leitura crítica sobre a produção cinematográfica ao mesmo tempo que é inédita ao cinema. O filme permanece com todos os devidos méritos apesar da exploração tímida desse conceito. E quem sabe num futuro qualquer a narrativa de Byzantium possa ser melhor aproveitada para esse fim. Mais como inspiração para outras e outros cineastas do que como uma continuação.