Falange Resenha | Brawl in Cell Block 99

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Vinheta da Mãe SerpenteO Festival do Rio de 2017 terminou, com uma cobertura completíssima feita pelo Professor Lumière. Mas como o primeiro texto do evento foi da Mãe, uma resenha de A Forma da Água (The Shape of Water), a Mãe também quis fechar o Festival. Chegou o momento, então, de falar um pouco sobre um filme que Professor Lumière não teve o tempo de assistir, mas que merece uma resenha completa. Brawl in Cell Block 99 não tem previsão de estreia no Brasil. Mas deveria estar no radar de qualquer pessoa que goste de cinema. Primeiro porque o filme é um drama que também utiliza recursos do terror ligado à tortura. Segundo porque Brawl in Cell Block 99 é impecável em seus aspectos técnicos, da edição de som à fotografia. E, por fim, porque, se houver justiça no mundo, Vince Vaughn, que vive o protagonista Bradley Thomas no longa, é um candidato mais do que certo para o Oscar de Melhor Ator no próximo ano.

Vai ter briga

O argumento de Brawl in Cell Block 99 é simples: depois de diversos problemas que tomam seu ganha pão e ameaçam sua família, Bradley Thomas decide trabalhar como um entregador para seu amigo traficante. O resultado dessa decisão é, em grande parte, denunciado pelo próprio título. A estratégia do filme é utilizar seu nome para antecipar a trama. Brawl in Cell Block 99 poderia ser traduzido como Porrada no Bloco de Celas 99. Por isso, desde o primeiro minuto se espera que o cenário mude para o interior de uma prisão. E já dentro do presídio, o espectador procura ansioso pelo Bloco 99, tentando adivinhar de que forma a briga prevista irá se desenrolar. Ao invés de tornar o longa previsível, esse recurso, na verdade, faz com que seja possível focar na construção complexa da personagem de Bradley.

Como o evento principal do filme já é conhecido, sobra espaço para trabalhar com atenção todos os detalhes da personalidade do protagonista. É raro encontrar personagens complexas no cinema, de uma forma geral; por isso as nuances de Bradley se destacam ainda mais em Brawl in Cell Block 99. Ao mesmo tempo em que se envolve com o crime, e está sujeito a explosões de raiva destrutivas, Bradley mantém um compasso moral aguçado. Ao mesmo tempo que alimenta sua masculinidade com uma posição de liderança sobre a esposa, Bradley é carinhoso e atento às necessidades de sua companheira. Mesmo que seja capaz de usar todo seu porte físico para fazer valer sua vontade, Bradley se esforça para resolver qualquer situação de forma pacífica. E toda a dualidade de seu ser é esclarecida com diálogos curtos e olhares, pedaços de informação que deslizam por entre as cenas, e montam um panorama realista. Compreensível. Humano. Sem a necessidade de nenhum momento de exposição direta.

Cena do filme Brawl in Cell Block 99 em que Vince Vaughn está na frente de uma bandeira dos Estados Unidos.
Sulista típico, Bradley se considera um patriota.

O filme poderia ser um ode à violência, já que se propõe a construir lenta e delicadamente um confronto de grandes proporções. Contudo, se torna um estudo de personagem, atento à jornada mais do que ao desfecho. Não que o desfecho deixe de ser impressionante. S. Craig Zahler já havia mostrado sua capacidade poética de demonstrar a violência em seu primeiro filme, Rastro de Maldade (Bone Tomahawk, 2015). Mas em Brawl a brutalidade dessas cenas chega a ser dolorosa de tão explícita. Mais ainda porque são tomadas coreografadas à perfeição, de fazer inveja aos melhores filmes de ação. Olhos mais sensíveis podem ter a vontade até mesmo de se afastarem da tela, embora o espetáculo crescente chame cada vez mais a atenção. Para isso contribui também o fato de que, ao compreender de modo tão profundo uma personagem, é fácil compartilhar de sua dor, de sua raiva. E cada golpe desferido por Bradley ao longo de Brawl se torna de alguma forma justificado.

Vince Vaughn e Brawl in Cell Block 99

O impacto de Brawl in Cell Block 99 não existiria sem a performance de Vince Vaughn. Pouco importa que outros inúmeros bons atores existam no mundo, Vaughn fez mais do que fingir ser outra pessoa na frente das câmeras. Vaughn se tornou Bradley Thomas. Sua capacidade de demonstrar emoções complexas, com movimentos quase imperceptíveis de seus músculos faciais, é captado em detalhes pela câmera de Zahler. Não faltam tomadas em silêncio em Brawl, onde o primeiríssimo plano permanece estático por um longo tempo, enquanto apenas as mudanças no rosto de Vaughn contam uma estória complexa de como Bradley absorve e processa determinadas situações. Como Bradley decide suas ações. Como Bradley vivencia abusos cada vez maiores, em busca de um objetivo pelo qual ele é capaz de suportar tudo.

Ontem, o Professor decidiu ser polêmico, e advogar pela indicação a Melhor Ator de Robert Pattinson, por seu papel em Bom Comportamento (Good Time). Polêmico porque Pattinson é reconhecido por seu papel do insonso Edward, na Saga Crepúsculo. De forma similar, Vaughn é reconhecido como um ator genérico de comédias. Algumas excelentes, como Com a Bola Toda (Dodgeball: A True Underdog Story, 2004), outras nem tanto, como Penetras Bons de Bico (Wedding Crashers, 2005). De qualquer forma, um papel dramático de peso não lhe parece adequado, se tivermos como base o imaginário popular. Mas a transformação de Vaughn para o papel é tamanha que o ator está quase que literalmente irreconhecível. Sem o conhecimento prévio de seu papel, é possível que muitos espectadores nem mesmo saibam quem interpreta o protagonista.

A transformação sofrida por Vaughn não é fruto de maquiagem pesada, ou efeitos visuais. É derivada apenas de um talento nunca melhor demonstrado pelo ator, de encarnar vontades alheias às suas, internalizar comportamentos e trejeitos que não são os seus, e simular um discurso diferente daquele que normalmente usa. Se não por inúmeros outros motivos, assistir a Brawl in Cell Block 99 é uma experiência única apenas para testemunhar o brilhantismo de Vaughn na criação de Bradley Thomas.

Cena do filme Brawl in Cell Block 99 em que Vince Vaughn apoiado em uma parede com uniforme de presidiário.
É difícil ver o usualmente bem humorado Vince Vaughn nas feições de Bradley, que fisicamente lembra muito mais a encarnação do Rei do Crime de Vincent D’Onofrio.

Enquadrado

Para além de cenas chocantes, e espetaculares, Brawl in Cell Block 99 tem um dos melhores trabalhos de atuação da década. E para além da atuação, Brawl ainda contribui muito para o cinema. Suas tomadas são planejadas com cuidado, de modo a refletir as mudanças narrativas, e o universo interno das personagens. São usos sutis de câmera e cor, provavelmente imperceptíveis para o grande público, mas que nem por isso deixam de auxiliar na compreensão, até mesmo subjetiva, dos sentidos que circulam o filme. As cores claras, frias e brilhantes são vagarosamente substituídas por tons escuros e quentes. O azul do céu se transforma no amarelado de um fim de tarde, e até mesmo as roupas utilizadas pelas personagens começam a valorizar mais tons vermelhos e pretos. Uma mudança que representa o aumento gradual do desespero do protagonista na situação em que se encontra, ao mesmo tempo que o aumento de sua convicção.

E se o primeiríssimo plano é usado com frequência para extrair o máximo da capacidade de atuação de Vaughn, cenas voltadas para a ação são produzidas sem cortes, com planos-sequência e grandes planos valorizando o trabalho físico dos atores envolvidos. Até mesmo o foco é pensado de forma a valorizar emoções específicas, como quando um objetivo qualquer se torna o centro nítido de uma cena, enquanto alguém age no fundo da tela, como parte despreocupada do cenário, ou imerso em seu inferno particular.

Brawl in Cell Block 99 consegue, por meio da construção minuciosa de todas suas partes, denunciar a violência desnecessária ao mesmo tempo em que te faz torcer pelo seu uso. Consegue ser intimista em suas relações humanas, ao mesmo tempo em que apela para o espetáculo da dor e do sofrimento. Enfim, consegue elevar a adrenalina do espectador ao máximo, ao mesmo tempo em que alcança sua empatia por uma personagem de moral duvidosa, simultaneamente contraditória e coerente. É um filme essencial. Um filme que não poderia passar em branco, e se esconder em festivais. Um filme que merece a atenção de um grande público.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.