Falange Resenha | Bom Comportamento

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Vinheta do Professor Lumière
Olá, queridas e queridos membros da Falange. Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de Cinema no QG. Hoje vou falar sobre Bom Comportamento, thriller com Robert Pattinson e Jennifer Jason Leigh, dirigido pelos irmãos Safdie, os mesmos de Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What, 2014). O filme acompanha dois assaltantes de banco que, após um roubo que dá muito errado, são separados e precisam improvisar um plano para se reencontrarem. Assista ao trailer abaixo:

Quem só conhece o Robert Pattinson da Saga Crepúsculo não imagina que o britânico tem talento de sobra pra atuar bem quando tem vontade. Ele já tinha feito ótimos trabalhos em Cosmópolis (2012), Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z, 2016) e outros, mas não ficaria surpreso se Bom Comportamento se destacasse como o filme que o colocará entre os indicados ao Oscar. A atuação visceral de Pattinson é fundamental para que o filme dos irmãos Safdie funcione, mas não é o único destaque do drama.

A primeira cena de Bom Comportamento, assim como grande parte do filme, mantém os olhos do espectador grudados na tela. O primeiríssimo plano permite que analisemos não só a reação de Nick (Benny Safdie) às perguntas sendo feitas a ele como também geram uma empatia instantânea ao percebemos que se trata de uma figura com problemas mentais que provavelmente não se envolveu com o crime por vontade própria.

Comportamento é um close de Robert Pattinson olhando para o canto da tela
Primeiríssimo plano revela muito sobre os personagens

Isso confere ainda mais peso à chegada de Connie (Pattinson), que parece tirar o irmão de um ambiente seguro para levá-lo a lugares que Nick não quer estar, e a decisão dos Safdie de continuar com as cenas em close-ups extremos serve não só para ilustrar como Nick se sente claustrofóbico diante das decisões do irmão como também mostra os olhos de Connie, que estão constantemente em movimento, como quem está sempre à procura de uma saída ou rota de fuga. Isso é especialmente verdade na ótima sequência inicial, quando a ideia de assaltar um banco sai pela culatra e coloca os dois na mira da polícia de Nova York. Esse início, inclusive, é tão tenso e bem orquestrado que quase faz esquecer que são apenas os primeiros minutos do longa, já que os créditos iniciais surgem tardiamente na tela – outra evidência de que os irmãos Safdie perceberam a qualidade do material que tinham em mãos para a sequência inicial.

Bom Comportamento. Ou não.

É possível que o caminho que o roteiro (também assinado pelos irmãos Safdie) possa não agradar muita gente, uma vez que se trata de basicamente acompanhar um criminoso que decide improvisar um plano quando percebe que colocou um irmão em apuros. Mas, se você ficar tão hipnotizado pela atuação de Pattinson como deveria, Bom Comportamento se transforma em um estudo de personagem que tem exatamente o contrário do que o título sugere (o mesmo se aplica para o original em inglês, Good Time). Connie é uma figura extremamente esperta, talentosa para improvisos e que sabe bater as ruas do local onde mora. O problema é que, por mais fascinante que seja acompanhá-lo, o espectador também rapidamente aprende a detestá-lo, dado que vez após vez Connie prova que não se importa de usar as pessoas para conseguir o que quer e depois abandoná-las. Isso inclui duas de suas piores vítimas (pois não sabem que estão nessa condição): a instável Corey (Jennifer Jason Leigh) e Crystal (Taliah Webster), uma menina de 16 anos que nem sonha estar sendo manipulada pelo criminoso.

Imagem de Bom Comportamento mostra Pattinson e Taliah Webster sentados lado a lado em um sofá
Crystal (Taliah Webster) é manipulada por Connie (Robert Pattinson) sem perceber

Outro elemento fundamental para manter o clima tenso e de alerta constante de Bom Comportamento é a trilha de Oneohtrix Point Never, que, sempre alta e perturbadora, é eficiente em deixar o público ora desconfortável, ora no auge da adrenalina. O arranjo experimental do compositor é estranho o suficiente para funcionar, tal qual o de Trent Reznor e Atticus Ross em A Rede Social (The Social Network, 2010) e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011), de David Fincher.

“Estranho o suficiente para funcionar”, inclusive, parece traduzir os impulsos de Connie, cujos insights sobre como dobrar as pessoas em diversas situações começam com ideias arriscadas que acabam funcionando justamente porque ele sabe embarcar na própria mentira. É por isso que é sempre uma surpresa divertida quando ele consegue invadir certos locais com o consentimento de quase todos os proprietários – destaque para quando ele “engana” até um cão raivoso, que é driblado com uma ideia simples, mas eficiente.

Imagem de Bom Comportamento mostra Robert Pattinson iluminado por luz negra e usando um gorro escrito "Security"
A lábia de Connie o garante acesso aos lugares mais inusitados

Apesar de toda a crueldade que se vê nas telas – e, acredite, não são poucas as cenas fortes –, é possível constatar que nem Connie e nem os personagens ao seu redor acreditam que vivem num ambiente tão hostil quanto realmente é, e isso fica claro diante das reações chocadas e até enojadas que têm diante de diversas atrocidades que são mostradas pela TV. Eles, assim como muitos de nós, são incapazes de traçar um paralelo do que se passa na TV com as próprias vidas – em certo momento, por exemplo, um programa sensacionalista mostra uma mulher que tenta se defender brandindo uma faca na direção de todos ao seu redor, e o incidente ocorre quase literalmente na íntegra momentos depois fora da telinha, mas é recebido com normalidade pelos personagens. De forma similar, os irmãos Safdie escolhem acompanhar o movimento dos carros que Connie dirige através de tomadas aéreas que remetem a programas de TV como Cops, ilustrando novamente que as coisas bizarras que se veem na TV são parte corriqueira da vida daquele personagem.

No fim das contas, Bom Comportamento é uma experiência agradável por todos os motivos “errados”: a apreciação pela qualidade do filme se deve exclusivamente à técnica, à direção e ao roteiro, já que vislumbrar aquele mundo – cheio de tons escuros e o vermelho que anuncia o perigo por todo o canto – é o mais próximo que o espectador são quer chegar daquilo tudo. O final da história é óbvio, não nos termos de roteiro mas sim através da noção de que, para quem vive uma vida como a de Connie, não há muitos caminhos por onde se seguir e todos darão mais ou menos no mesmo lugar. Tudo que podemos fazer é torcer para que as pessoas cujas vidas são perturbadas por uma figura como ele possam encontrar uma forma de se recuperarem física e psicologicamente, razão pela qual os créditos finais fornecem um respiro de alívio que, mesmo que possa não ser permanente, garante um mínimo de esperança após uma série de terríveis experiências.

O que aprendemos com Bom Comportamento? Colocar os irmãos Safdie no radar daqui para a frente.

Lição de casa: Assistir à Amor, Drogas e Nova York ou a filmes em que Pattinson atuou bem.